“Há momentos em que a situação política exige atos corajosos”, avalia o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), sobre o atual dilema do PT para a eleição de outubro.
A pesquisa Genial/Quest apontou Lula à frente de Flávio Bolsonaro, mas com a vantagem reduzida de 7% para 5%. Ramirez chamou atenção para um fenômeno curioso: “Flávio é o segundo colocado sem praticamente ter aberto a boca. Ninguém sabe qual é o projeto dele, a não ser remeter ao pai. Ele capturou votos do eleitorado moderado cansado de Lula, mas também herdou o capital político de Bolsonaro”.
O professor alertou, porém, que essa ascensão pode ser uma bolha. “Ele tenta se apresentar como mais moderado, mas isso pode soar como traição aos bolsonaristas radicais. E se enveredar pelo discurso da anistia ao pai, pode perder o eleitor moderado, que é contra. Além disso, não sabemos qual será sua performance num debate. A única imagem que temos é dele desmaiando num debate no Rio. Lula é velho conhecido; Flávio, uma incógnita.”
Para o professor, 2026 não será apenas uma eleição. “Será um teste de maturidade democrática. E isso vale para o Congresso, para o Judiciário e para cada um de nós.”
Enquanto uma pesquisa Paraná Pesquisas coloca o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como franco favorito para uma das duas vagas ao Senado por São Paulo — com 28% das intenções de voto, seguido por Marina Silva (Rede) com 15% e o ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite (PL) com 10% —, o próprio Haddad insiste que não quer ser candidato.
“Não é uma questão de querer ou não. É necessário”, afirmou ao Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato. Para ele, a eleição de 2026 será determinante não apenas por ser a última do presidente Lula, mas sobretudo pelo risco de a extrema direita ampliar seu domínio no Congresso. “Há risco de impeachment, de paralisia decisória, de pautas-bomba conservadoras. Haddad tem que ser convencido de que é uma questão civilizatória, de defesa da democracia”.
O professor minimizou a resistência do ministro e sugeriu uma saída institucional: “Ele pode sair vencedor, conseguir a vaga e depois retornar aos bastidores, abrindo espaço para o suplente. O que não pode é permitir que um Derrite, um Ricardo Salles ou outros reacionários tomem essa vaga.”
O ex-secretário de Segurança Pública de Tarcísio de Freitas aparece na terceira posição, mas com um histórico que, segundo Ramirez, torna sua candidatura frágil. “Derrite saiu com a imagem manchada da secretaria, com policiais civis protestando contra ele por promessas não cumpridas. Foi para o Congresso e virou relator de um projeto polêmico sem nunca ter tido protagonismo na Câmara. Até a bancada da bala ficou incomodada”.
O cientista político listou outros desgastes: a operação desastrosa no Carnaval, com foliões pisoteados em São Paulo, e o aumento da violência policial contra inocentes. “O que sustenta Derrite são os programas policialescos de fim de tarde e as alas bolsonaristas radicalizadas. É o único sustentáculo”, pontua.
Sobre Tarcísio, Ramirez avaliou que o governador tenta um equilíbrio: “Quer o apoio de Bolsonaro sem uma chapa direta, para atrair o eleitorado moderado. Mas a rejeição ao bolsonarismo em São Paulo não é tão clara”.
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