No dia 19 de março, Ivan Valente fez seu último discurso como deputado federal, pelo Psol-SP. Após oito mandatos, ele resolveu encerrar sua carreira na política institucional. O Entrevista com BdF desta sexta-feira (22) recebeu o professor para uma conversa sobre sua longa trajetória na política brasileira, desde a clandestinidade durante a ditadura civil-militar até a consolidação do Psol como um dos principais partidos de esquerda do país.
Na entrevista, Valente fala sobre os anos de repressão, a fundação do PT, a migração para o Psol e o que leu nas jornadas de junho de 2013. Com 60 anos de militância, diz que encerra o mandato sem a sensação de algo incompleto. “Me sinto contemplado por uma trajetória que é, fundamentalmente, de organizador político”, afirma.
O percurso político de Valente começa antes do parlamento. Entre 1969 e 1978, foi preso e torturado pela ditadura civil-militar. Passou dez dias no DOI-Codi do Rio de Janeiro, 50 no DPPS, o Dops carioca, e mais de um ano detido, condenado a três anos de reclusão por organizar um partido político. A opção, diz, mesmo sob repressão, era a construção de partidos com capacidade de diálogo mais amplo. “A gente sonhava com um país igualitário.”
Com a anistia, em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e permaneceu na legenda por 25 anos, 23 deles na direção nacional. Na entrevista, define o partido como a primeira experiência de massas da esquerda brasileira, que reuniu em sua origem o sindicalismo combativo, a militância que saía da clandestinidade e a Igreja progressista da Teologia da Libertação. “Foi um partido histórico e construiu uma liderança histórica˜, diz. Sobre Lula, vai além: “Se for eleito para o quarto mandato, será uma das figuras mais importantes da história do país.”
A saída do PT e a fundação do Psol, conta Valente, vieram de um diagnóstico sobre os rumos da legenda. “Quando partiu para o financiamento privado, deixou o flanco muito aberto para receber da extrema direita um carimbo de corrupção”, avalia. Valente, que foi presidente do Psol, avalia que o partido cumpriu o que se propôs: ganhar notoriedade “com programa, com projeto, com seriedade, com ética na política.”
Valente também fala sobre as jornadas de junho de 2013 e o que elas revelaram sobre a política brasileira. Na sua leitura, as manifestações foram iniciadas por grupos de esquerda e movimentos estudantis contra o aumento das tarifas de ônibus. A truculência da Polícia Militar, sob o governo do hoje vice-presidente Geraldo Alckmin, ampliou os protestos e levou 200 mil pessoas ao Largo da Batata, em São Paulo. Foi ali que, pela primeira vez desde a ditadura, viu um movimento organizado pedindo para baixar as bandeiras de esquerda. Para ele, não foi espontâneo. “Havia um movimento subterrâneo, talvez já com algum grau de redes sociais, porque a turma do Trump e do Steve Bannon já podia estar agindo”, afirma.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

