Em janeiro de 2026, regiões do sul do Chile foram novamente devastadas com grandes incêndios, assoladores e mortais, com saldo de ao menos 19 mortes, mais de 50 mil pessoas desalojadasum rastro de destruição nas comunidades e mortalidade imensurável da biodiversidade local, flora e fauna.
Como acompanho os eventos climáticos extremos no contexto das mudanças climáticas que acontecem em todas as regiões do planeta Terra, diariamente procurava as notícias vindas sobre os incêndios no Chile e logo me fez lembrar dos incêndios catastróficos ocorridos em Los Angeles no ano passado (2025), também no mês de janeiro. O próprio território chileno sofre com frequência de incêndios, com destaque para 2024na região de Valparaíso, foram mais de 110 mortes e dezenas de milhares de casas incendiadas.
Embora estes grandes incêndios não sejam novidade no Chile e no contexto das mudanças climáticas, estes eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes e mais intensos. Mas há fatores que têm chamado a atenção, tanto na mortalidade devido ao número elevado de vítimas e a dimensão da destruição territorial e um destaque na velocidade com que os incêndios se espalham, deixando-os fora de controle. Como se explica o nível de destruição e por que o fogo se espalhou tão rapidamente? Há origens e causas que provocam estes fatores?

Tentando achar explicações, me chamou a atenção uma notícia, de que a empresa de celulose CMPC, chilena, teria mobilizado mais de 1000 agentes para o combate aos incêndios. E notícias relacionadas que a empresa mantém uma infraestrutura com equipamentos e logística, de avião a helicópteros especializados como veículos terrestres, no combate aos incêndios. Até aí, poderia ser considerado algo normal para uma empresa de celulose, que mantém extensos plantios de espécies arbóreas exóticas, como eucalipto e pinus. Entretanto, há estudos relacionados que apontam que as monoculturas estão diretamente relacionadas com as causas dos incêndios e, principalmente, na sua velocidade e na dimensão dos incêndios.
Primeiro, estas espécies exóticas, principalmente o eucalipto, necessitam de grande quantidade de água para o seu crescimento, afetando diretamente a umidade nos solos, tornando-os extremamente secos, fenômeno que os especialistas chamam de “estresse hídrico”, favorecendo que a matéria vegetal queime com mais facilidade. Segundo alguns especialistas escutados pela BBC Brasiltanto os plantios de pinus como os de eucaliptos “queimam com relativa rapidez e, além disso, temos outras espécies arbustivas invasoras que geram uma quantidade muito elevada de matéria combustível”, diz Aníbal Pauchard, diretor do Instituto de Ecologia e Biodiversidade da Universidade de Conceição. Outro especialista, Roberto Rondanelli, acadêmico do Departamento de Geofísica da Universidade do Chile, afirma que “a área é muito mais vulnerável quando tem mais plantações do que floresta nativa”. “A floresta nativa é muito mais resistente ao fogo. Além disso, a densidade de biomassa das plantações florestais é maior que a da floresta nativa para maximizar as produções, e isso pode ser um problema”, acrescentou.
Assim, os incêndios mortais no Chile, a velocidade e sua dimensão estão diretamente relacionados à forma como o território está sendo explorado com esses plantios e a extensão das monoculturas de arbóreas exóticas. A própria grande estrutura da papeleira no combate dos incêndios é um reconhecimento deste perigo. Os pinus e eucaliptos são puro combustível no contexto dos incêndios florestais no Chile, agravados pelas mudanças climáticas. Infelizmente, as consequências não são de responsabilidade de quem as causa, apesar do governo chileno ter pedido investigações sobre as causas e as origens. Nas reportagens e notícias da própria CMPC só aparece o combate aos incêndios, como algo isolado, e ao mesmo tempo é mencionado o funcionamento de suas unidades fabris, fora de perigo dos incêndios, ou dos prejuízos causados pela fogo em suas aŕeas de eucalipto e pinus. Mas, nada a mais, nem das mortes, nem dos estragos causados pela queima de residências, de comunidades e regiões inteiras.
A relação com os incêndios mortais no país é mais um capítulo da CMPC já não bastasse os impactos sociais e ambientais no território chilenohá conflitos históricos e ainda atuais de denúncia de saqueio e usurpação das terras mapuches pela papeleirao apoio à ditadura chilena, onde CMPC foi acusada de crime de lesa-humanidade, pela morte de 19 trabalhadores que foram entregues à polícia do Pinochet.
Portanto, o rastro de destruição dos ecossistemas e biomas promovidos pela CMPC, no Chile, tem graves consequências como incêndios mortais, cada vez mais catastróficos. A lógica de projetos insustentáveis sociais e ambientais representado pela papeleira atenta contra os povos originários mapuche, viola direitos humanos, no passado com relação com a ditadura sanguinária de Pinochet, no presente ainda contra os mapuches e demais comunidades tradicionais, onde interessa somente os lucros bilionários, privados para o poderoso grupo Matte.
Enquanto os prejuízos e impactos são coletivizados, tanto no território chileno que se inclui sua expansão no contexto do sul da América do Sul, com a atual fábrica em Guaíba e o projeto de nova fábrica em Barra do Ribeiro no Rio Grande do Sul, ameaçando os povos indígenas, os pescadores e ribeirinhos, as comunidades inteiras gaúchas, a qualidade da água do rio Guaíba, que abastece milhões de pessoas na Região Metropolitana de Porto Alegre, a biodiversidade nativa do território de dezenas de municípios localizados no Pampa, bioma ameaçado de desaparecer, pela expansão descontrolada das monoculturas de arbóreas, principalmente de eucaliptos.
*Eduardo Luís Ruppenthal é professor, biólogo e doutorando no PPGED/UERGS. Membro do Coletivo Alicerce, MOVLN e da Setorial Ecossocialista do PSOL/RS.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

