Como a China vem contendo a expansão de seu maior deserto

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Há décadas a China vem desenvolvendo políticas para conter a expansão do Deserto de Taklamakan, o segundo maior deserto de areias móveis do mundo. Localizado na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste do país, o Taklamakan tem 85% de sua extensão composta por dunas que se deslocam constantemente com o vento, ameaçando infraestruturas, rodovias e cidades.

Como em outras áreas da governança chinesa, a estratégia combina políticas nacionais com a descentralização do monitoramento, recuperação, reflorestamento e responsabilização territorial para transformar comunidades locais em protagonistas da restauração ecológica.

Em 2022, o governo chinês anunciou que Xinjiang havia revertido a expansão das terras afetadas pela areia, encerrando um problema que persistia apenas nesta região. Em novembro de 2024, foi concluído o Cinturão Verde ao redor do Deserto de Taklamakan, uma barreira ecológica contínua de 3.046 quilômetros que se tornou a mais longa do mundo. Em 2025, um ano depois de fechar o cinturão verde, foram recuperados mais 9,38 milhões de mu (cerca de 626 mil hectares) nas bordas do deserto, ampliando a largura dessa barreira para entre 110 e 7.500 metros, dependendo do trecho.

O trabalho faz parte do Programa Três-Nortes, iniciado em 1978 e voltado para a construção de cinturões verdes no noroeste, norte e nordeste da China. A estratégia abrange 13 regiões ou províncias, de Xinjiang no oeste até Heilongjiang no extremo leste do país, cobrindo quase metade do território chinês. Xinjiang ocupa mais de 1,6 milhão de km², um território quase do tamanho do Irã, com mais de 50% dele coberto por áreas áridas ou semiáridas.

Defesa baseada nas condições reais

Ao Brasil de Fato, Tohti Reheman, diretor do Departamento de Florestas e Pastagens da Região Autônoma Uigur de Xinjiang, explicou que o objetivo do cinturão verde não é florestar todo o deserto, mas proteger estrategicamente as áreas habitadas. “O objetivo dos nossos esforços no Deserto de Taklamakan não é cobrir todo o deserto com árvores. Nosso princípio orientador é a ‘defesa baseada nas condições reais’. Nosso foco principal é proteger infraestruturas críticas, corredores de transporte e centros povoados”, diz o diretor.

Tohti detalha que os esforços se concentram no estabelecimento de uma “faixa verde” (também chamada de”cachecol verde”), nas bordas dos oásis e ao longo da margem do deserto, como se cada oásis ganhasse seu próprio cachecol protetor. “Essa barreira verde foi projetada para minimizar os riscos do vento e da areia, reduzindo seu impacto ao mínimo possível”, explica.

Até 2030, Xinjiang pretende restaurar ecologicamente 6,67 milhões de hectares ao longo da borda do deserto Taklamakan. Em 2025, foram completados 13,76 milhões de mu (cerca de 917 mil hectares) de recuperação ecológica em toda a região, sendo 9,38 milhões de mu (625,333 hectares), especificamente nos 21 condados prioritários na borda do Taklamakan.

A escolha desses 21 condados foi definida pelo Plano Geral para a Contenção das Bordas do Deserto de Taklamakan, que concentra os esforços nas áreas de maior risco eólico nas bordas dos oásis, nos corredores de infraestrutura estratégica (ferrovias, rodovias e rios) e nas zonas de conservação dentro do deserto. Dentro desse grupo, 12 condados foram selecionados para projetos-piloto que testam diferentes abordagens, desde o controle biológico da desertificação à integração de energia solar com fixação de dunas, ou o cultivo da vegetação rasteira nativa para estabilizar as dunas.

“Os esforços de fixação biológica de areia cobrirão cerca de 394 mil hectares, enquanto a irrigação por inundação abrangerá mais de 200 mil hectares. Esses números representam a escala e a composição das tarefas que estamos comprometidos a concluir no futuro próximo”, detalha Tohti Reheman.

Comunidades locais como protagonistas

O diretor faz questão de destacar que o trabalho realizado durante mais de quatro décadas não é apenas do governo, mas envolve diretamente as comunidades locais. Para isso, foram criados arranjos específicos: o governo aloca áreas desertificadas às vilas e concede direitos de uso de longo prazo a famílias, desde que elas se comprometam com a recuperação ecológica.

Assim, os moradores passaram a plantar arbustos fixadores, cultivando frutas como jujube e romã, ou plantas medicinais como a cistanche; transformando a restauração ambiental em fonte de renda. Em 2025, o governo de Xinjiang destinou 757 milhões de yuans (aproximadamente R$ 580 milhões) em subsídios diretos para apoiar esse trabalho popular, além de 138 milhões de yuans (cerca de R$ 106 milhões) para infraestrutura elétrica que viabiliza os projetos de recuperação liderados pelas comunidades.

O condado de Hotan, localizado na extremidade sul do deserto de Taklamakan, é um exemplo. Ali foi criado um projeto de aquicultura com caranguejos, lagostas e robalos, criados em água salino-alcalina tratada.

Base de aquicultura no deserto condado de Hotan, no sul do deserto de Taklimakan, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China
Base de aquicultura no deserto condado de Hotan, no sul do deserto de Taklimakan, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China | Crédito: CGTN

Lai Jun, responsável pelo projeto, relatou os resultados à CGTN: “A produção de caranguejo está estimada em cerca de 40 toneladas este ano, e a de robalo, em aproximadamente 30 toneladas. A produção de lagosta azul poderá ser um pouco menor, de algumas toneladas. Esperamos que a produção total ultrapasse 70 toneladas”.

Triplo benefício: ecologia, renda e resiliência

Tohti Reheman detalha outras experiências em que o combate à desertificação se une a políticas de melhoria da renda da população rural. “Há culturas, por exemplo, de alto valor adaptadas ao deserto, como a cistanche (uma planta medicinal frequentemente chamada de ‘ginseng do deserto’), sob faixas de arbustos que as protegem. Isso gera uma renda anual estável. Também plantam árvores frutíferas que, após alguns anos, proporcionam benefícios ecológicos (estabilização do solo, melhoria do microclima) e retornos socioeconômicos”, explica o diretor.

Os sistemas agroflorestais desenvolvidos em Xinjiang oferecem o que Tohti descreve como um “triplo benefício: restauração ambiental, resiliência da comunidade e crescimento da renda familiar. Dessa forma, a governança ecológica se torna um esforço compartilhado que alinha os objetivos nacionais aos meios de subsistência locais.”

Em 2025, foram plantadas ou recuperadas 3,1 milhões de mu (cerca de 206 mil hectares) de florestas e 4,8 milhões de mu (320 mil hectares) de pastagens em toda a região. Além disso, foram tratados 6,91 milhões de mu (460 mil hectares) de terras arenosas, consolidando os ganhos dos anos anteriores.

Energia solar e reflorestamento integrados

Outro projeto inovador combina geração de energia solar com iniciativas de reflorestamento no condado de Lop, localizado no limite sul do Taklamakan, em áreas onde as areias haviam avançado significativamente. Yang Jian, chefe da estação de controle da desertificação de energia solar de Lop, explicou também à CGTN como funciona a integração.

“Elevamos os componentes dos painéis solares a cerca de 1,5 a 1,7 metros de altura, com um espaçamento de 12 metros entre duas estacas de sustentação. Isso permite operações mecanizadas em larga escala assim que o sistema de geração de energia solar estiver instalado, seguidas por esforços de controle biológico da desertificação. Por exemplo, esta é a aveia que cultivamos, e ela tem cerca de 15 a 20 centímetros de altura”, detalha Yang Jian.

Após a conclusão da usina solar, foram plantados mais de uma dúzia de tipos de cultivos sob os painéis. “Queremos desenvolver um modelo maduro, replicável e sustentável para o controle do deserto”, afirma o responsável pelo projeto, indicando que a experiência pode ser aplicada em outras regiões áridas.

Sistema de gestão participativa

A implementação do programa em Xinjiang utiliza o sistema de “chefes florestais” (林长制), que estabelece responsabilidades em cada nível administrativo para a proteção e desenvolvimento dos recursos florestais e de pastagens. Em 2025, foram realizadas mais de 270 mil inspeções pelos mais de 30 mil chefes florestais (segundo dados do Departamento de Florestas e Pastagens divulgados em fevereiro de 2026) da região, resolvendo mais de 48 mil problemas identificados no território.

Esse sistema impulsionou a descentralização da política ambiental, sendo implementado diretamente por autoridades locais, tanto do governo quanto do Partido Comunista Chinês. A avaliação de desempenho e as perspectivas de progressão na carreira dessas lideranças também passaram a incorporar indicadores de sucesso na implementação das políticas de proteção ecológica.

Em um nível operacional abaixo deles, estão os guardas florestais ecológicos, contratados especificamente para o trabalho de campo e monitoramento contínuo, que contam com incentivos financeiros diretos, como bônus atrelados ao cumprimento de metas de patrulhamento.

É importante destacar que o reflorestamento não é feito com qualquer planta: são realizados estudos para compreender as espécies autóctones. A Haloxylon ammodendron é a árvore mais utilizada na fixação de dunas em Xinjiang. As suas folhas reduzem a evaporação em 90%.

Perspectivas para 2026 e além

Para 2026, o Departamento de Florestas e Pastagens de Xinjiang planeja continuar consolidando e expandindo os resultados do Cinturão Verde do Taklamakan. A meta para este ano é completar 10 milhões de mu (cerca de 667 mil hectares) de tarefas de controle do projeto “Três Nortes” , ampliando gradualmente a largura da barreira verde e melhorando sua qualidade e eficiência.

Paralelamente, será implementado o plano de controle integrado do Deserto de Gurbantunggut, o outro grande deserto da região. Diferentemente do Taklamakan, onde 85% das dunas são móveis, com vegetação escassa (inferior a 10%) e deslocamento ativo pelo vento, podendo avançar vários metros por ano, o Gurbantunggut é composto majoritariamente (cerca de 97% de sua área) por dunas fixas e semifixas. Nelas, a cobertura vegetal (entre 15% e 30% nas semifixas e acima de 30% nas fixas), ancora a areia, reduzindo drasticamente a mobilidade.

O governo regional está finalizando o Plano de Integração de Controle de Desertificação e Energia Fotovoltaica de Xinjiang (2025-2030), que deve otimizar a distribuição de projetos de energia solar em áreas desertificadas, promovendo a geração local e a efetiva implementação de projetos que combinam energia limpa com fixação de dunas.

O governo regional está elaborando o Plano de Integração de Controle de Desertificação e Energia Fotovoltaica de Xinjiang (2025-2030), que deve ser finalizado após a aprovação do 15º Plano Quinquenal (2026-2030) durante as Duas Sessões a partir de 4 de março.

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Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.

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Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.

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