A extrema direita avança na América Latina. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, foi eleita presidenta. Mas, afinal, como a herdeira de um notório violador de direitos humanos chegou ao poder no país?
Não Entrevista com BdFsim Rádio Brasil de Fatoo analista internacional Hugo Albuquerque explica que Alberto Fujimori foi muito popular no país, conseguindo se eleger democraticamente em 1990, em um contexto de forte crise social, com inflação alta e violência promovida por guerrilhas após anos de ditaduras militares.
“É importante dizer que a ditadura militar peruana teve um caráter diferente da brasileira. No seu início, pelo menos, ela tinha um caráter nacionalista, inclusive tendo o apoio do bloco soviético, com Velasco Alvarado”, explica Albuquerque. “Velasco Alvarado conduziu um projeto que lembrava muito mais o de Getúlio do que o dos nossos ditadores aqui.”
Golpes dentro de golpes, no entanto, levaram o regime militar peruano a se alinhar aos Estados Unidos. “Então, quando a democracia volta ao Peru, tem muitas questões que precisam ser resolvidas. Inclusive, havia uma grande mágoa das esquerdas em relação a Cuba e à União Soviética pelo apoio a Velasco Alvarado, o que radicalizou alguns setores de jovens para a ultra-esquerda e para a luta guerrilheira em plena década de 1980”, diz o especialista.
Albuquerque explica que, curiosamente, o principal oponente de Fujimori na época de sua ascensão, em 1990, era o Nobel de literatura Mario Vargas Llosa, considerado então mais radical e neoliberal. No segundo turno, Fujimori chegou a angariar apoios em partidos de esquerda. Uma vez empossado, entretanto, adotou uma severa terapia de choque econômica e implementou uma política de forte repressão estatal.
“Veio com uma agenda de repressão brutal para acabar com a dissidência política dentro do Peru e contra a criminalidade. E, no meio desse choque, ele acabou se tornando uma figura extremamente popular”, explica o especialista.
“Ele foi reeleito por uma margem razoável, mas, pouco a pouco, Fujimori foi ampliando seus poderes, dando pequenos golpes dentro do golpe. Ele, nesse sentido, lembra mais o governo do Bolsonaro do que os regimes militares aqui, porque foi ampliando o poder dele dentro de uma institucionalidade, até que ele frauda a terceira reeleição”, conta Albuquerque.
Além da extrema violência e corrupção, o período fujimorista deixou como herança uma institucionalidade frágil, um enfraquecimento do poder presidencial e muitos poderes aos órgãos de fiscalização, como o Ministério Público e até mesmo o Congresso, que passou a conseguir destituir presidentes com bastante facilidade.
Como consequência, nos últimos dez anos, apenas o ex-presidente Ollanta Humala conseguiu terminar seu mandato de cinco anos, ainda que seu governo tenha ficado paralisado. Albuquerque explica que, quando Pedro Paulo Kuczynski venceu em 2016, a ausência de maioria no Congresso permitiu que o fujimorismo, junto com as outras direitas, trabalhasse para tornar o governo instável.
A eleição de Keiko Fujimori ocorre, assim, em um contexto de grande fragilidade institucional. Nos últimos cinco anos, desde 2021, o Peru teve outros quatro governantes diferentes: Pedro Castillo, Dina Boluarte, José Jerí e José María Balcázar.
Em 2026, Albuquerque avalia que pesou ainda a interferência dos Estados Unidos nas eleições. “O Trump foi decisivo para que as outras direitas radicais, que acabam se alinhando ao fujimorismo no segundo turno, se mantivessem nessa posição e houvesse um rechaço ao candidato da esquerda.”
Para ouvir e assistir
Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

