A tradição de candidatos folclóricos em eleições no Brasil esconde uma questão conjuntural muito mais profunda do que as risadas que tais figuras podem tirar do público. E muitas vezes essas pessoas são eleitas. Um dos casos mais emblemáticos da história foi o do deputado federal Tiririca (PSD), que, com seu slogan “Pior que tá não fica”, ainda em 2010, teve mais de 1,3 milhão de votos e conseguiu a sua primeira vaga na Câmara dos Deputados.
Nas eleições deste ano, surge Emanuel Gomes, conhecido pelo hit “Caneta Azul”, que é pré-candidato a deputado federal pelo Avante. Em entrevista ao canal do Paulo Matias, ele foi questionado sobre as propostas e desconversou. Quando perguntado se era de direita ou esquerda, limitou-se a dizer: “Sou mais na minha”.
O que leva o eleitor a votar em figuras claramente despreparadas? Quais as consequências para a política nacional?
Esse é o tema do Entrevista com BdF desta quinta-feira (30), que recebe o professor de Ciência Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Rodney Amador.
Amador destaca que o voto de protesto não é uma novidade na democracia e que, inclusive, existe uma previsão na própria legislação eleitoral a respeito, que é o voto nulo ou branco. “Desde os anos 1930, 1940, ele foi pensado como um voto de protesto pela Justiça eleitoral. Desde essa época, já era dito que o voto nulo ou branco era expressão legítima de contrariedade do eleitor aos candidatos disponíveis.”
Antes das urnas eletrônicas, o cientista político lembra que na cédula de papel era comum nomes de animais, de personagens e até xingamentos. Com o advento do voto eletrônico, essa expressão acabou se transformando em candidaturas reais de figuras que adotam, em comum, a ideia de que são antissistema.
“O primeiro ponto é uma certa descrença com relação ao sistema político, uma certa descrença em relação aos partidos, aos candidatos. A gente tem acompanhado, por exemplo, pesquisas, e geralmente elas são feitas, historicamente feitas no Brasil, a respeito da confiança das pessoas nas instituições, especialmente instituições políticas, e geralmente essa confiança costuma ser baixa”, continua.
Um segundo ponto levantado pelo cientista político é como a mídia alavanca essas candidaturas. “Eles têm apoio midiático, eles têm espaço na mídia, então eles acabam sendo mais conhecidos do cidadão comum, do cidadão normal, do que os próprios candidatos que não seriam de protestos, dos candidatos que de fato vão entrar nos cargos eletivos, seja para a esfera do Legislativo, seja para a esfera do Executivo”, aponta. “Os candidatos acabam sendo mais famosos, mais conhecidos, estão mais presentes dentro das casas das pessoas, dentro dos círculos de amizade das pessoas, onde elas buscam informações sobre eles.”
Rodney Amador comenta também o fenômeno Enéas, essa relação com voto de protesto e o certo desconhecimento que o brasileiro tem sobre o funcionamento propriamente dito da política. Enéas se candidatou diversas vezes para presidente e nunca venceu. Quando se candidatou ao Legislativo, não apenas venceu, como foi um bom exemplo dos chamados “puxadores de votos” das legendas. “O interessante do caso do Enéas, para mim, tem dois pontos, e acho que o primeiro ponto é exatamente esse que a gente estava discutindo agora há pouco. Como existe menos conhecimento a respeito do cargo de deputado federal com relação ao cargo de presidente da República, pode muito bem acontecer de um cidadão falar assim: ‘Não, eu posso votar em qualquer um para deputado, mas o meu voto mesmo para presidente da República é este’. Então, é muito frequente, é muito comum que as pessoas lembrem em que votaram para presidente, mas não para deputado, vereador, senador”, explica.
“E é esse o grande problema, porque muitas vezes um cidadão quer exercer o seu direito ao voto de protesto, que é legítimo, mas quando ele elege, essa consequência de que ele pode estar elegendo também, ajudando a eleger um outro deputado que ele nem sabe quem é, que ele não sabe qual é o trabalho, não sabe o que professa, o que acredita”, pondera.
Para ouvir e assistir
Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

