“Nos livros de José Saramago, ninguém tem ódio. Os grandes monstros não estão presentes”. Assim Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, define a vasta obra do primeiro escritor em língua portuguesa a ganhar um prêmio Nobel de Literatura.
“Nos livros de Saramago, ninguém tem ódio. Saramago escreve a partir de pessoas normais que querem ser felizes simplesmente, encontrar o amor. ‘História de Cerco de Lisboa’ é uma história de amor. Baltasar e Blimunda, em ‘O Memorial do Convento’. ‘No Ano da Morte de Ricardo Reis’, Fernando Pessoa e Ricardo Reis querem encontrar Lídia. Pessoas que querem encontrar a felicidade, a comunicação entre as pessoas. Os grandes monstros não estão presentes nos livros de Saramago. Pode aparecer uma Inquisição, mas são sempre temas laterais. Saramago não conhecia os bandidos de verdade para falar deles”, diz a jornalista e escritora.
Companheira de Saramago por 24 anos, Del Río cuida do legado do escritor, com ativismo. Ele luta contra o discurso de ódio, o fascismo, a indústria armamentista. Neste domingo (26), por exemplo, um dia após a celebração da Revolução dos Cravos, a Fundação José Saramago organiza o passeio “O Fascismo passou por aqui”, um trajeto que percorre locais de Lisboa presentes na obra do escritor e que marcam a repressão fascista em Portugal.
No livro “A intuição da ilha: Os dias de José Saramago em Lanzarote”, lançado em 2022, Del Río conta um pouco da vida do escritor e do casal e publica a Declaração de Deveres dos Direitos Humanos, um manifesto levado à Organização das Nações Unidas (ONU) que defende a obrigação de se cumprir a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Del Río esteve em São Paulo para abrir as comemorações dos 40 anos da editora Companhia das Letras e participou de um bate-papo com o editor Luiz Schwarcz na quarta-feira (22) à noite, no Sesc Consolação.
Entre o evento e a fila de leitores que esperavam por seu autógrafo, Pilar Del Río falou ao Brasil de Fato sobre os perigos do discurso de ódio, os deveres dos direitos humanos, o combate à indústria armamentista e o amor presente na obra de Saramago.
Leia a entrevista completa:
Brasil de Fato: A senhora poderia falar um pouco do trabalho da Fundação Saramago? Eu vi, por exemplo, um passeio contra o fascismo.
Pilar do Rio: Nesses tempos, os parlamentos estão com discussões que não têm a ver com os cidadãos que votaram neles. Há um clima de ódio, de aversão contra a outra pessoa, que não é um adversário, simplesmente pensa diferente. Mas se está introduzindo o ódio, a indiferença, a indignação, e este é o clima prévio para o fascismo. Estão querendo consolidar, introduzir, de alguma forma, aos poucos, um sistema para ter um líder mais ou menos carismático, para ser submisso, ser indiferente, ser resignado ou ser amedrontado. Esse é o sistema que estamos buscando para o futuro. Se nós não formos capazes de dizer “não, obrigado, não”.
A senhora citou, no evento, um documento sobre os deveres dos direitos humanos. O que significa esse documento?
Esse documento foi para as pessoas do mundo e as Nações Unidas nos disseram, António Guterrez (secretário-geral da ONU) nos disse: “Nós não podemos passar este documento oficialmente porque os trâmites seriam tantos, tantos, mas se a sociedade o reclama…” E nós estamos fazendo encontros em diferentes lugares do mundo para a Declaração Universal dos Deveres dos Direitos Humanos. No Brasil, ele está publicado nesse livro “A intuição da ilha”. Na última parte, está a declaração completa que aprovamos em um congresso no México com pessoas de todo o continente americano e também da Europa e da Ásia.
Mas a senhora poderia explicar melhor o que são esses deveres?
Fazer com que se cumpram os direitos. E os direitos são: que todos os cidadãos tenham direito a uma nacionalidade, a se locomover, a viver, a receber um salário justo e digno, a ter casa, a não ser atropelado, a ter liberdade de opção, liberdade sindical, de ter religião ou não ter religião. Todos esses são direitos que temos como seres humanos e temos a obrigação de mantê-los. Que não venham alguns tipos sinistros apoiados por laboratórios igualmente sinistros que espalham boatos e teorias por todo o mundo para evitar que tenhamos direitos, para que sejamos simplesmente bonecos.
Voltando um pouco ao discurso de ódio, a senhora falou dos personagens femininos do Saramago…
Que não têm ódio, cuidam. Nos livros de Saramago, ninguém tem ódio. Quer dizer, Saramago escreve a partir de pessoas normais que querem ser felizes simplesmente, encontrar o amor. “História de Cerco de Lisboa”, é uma história de amor. Baltasar e Blimunda, em “O Memorial do Convento”. “No Ano da Morte de Ricardo Reis”, Fernando Pessoa e Ricardo Reis querem encontrar Lídia. Quer dizer, pessoas que querem encontrar a felicidade, a comunicação entre as pessoas. Os grandes monstros não estão presentes nos livros de Saramago. Uma Inquisição pode aparecer, mas são sempre temas laterais. Saramago não conhecia os bandidos de verdade para falar deles.
Como senhora vê o legado de Saramago para os novos escritores, e principalmente para escritores e artistas brasileiros?
O legado que defendemos são os leitores. Cada escritor terá um forma que o nutre, tem a fonte que bebe ou não, mas somos os leitores que cuidamos dos legados dos escritores. Eu cuido do legado de Saramago, porque sou leitora.
E como leitora, pensando aqui, por exemplo, em “Ensaio Sobre Lucidez”, Saramago discute a própria democracia. A senhora vê a democracia em perigo hoje?
Vamos ver, (Ensaio sobre a Lucidez) não discute a democracia, discute as fórmulas. Quer dizer, que um país pode ter câmaras democráticas, parlamentos democráticos, governos democráticos e não ter democracia, porque não se está governando para o povo, para a felicidade do povo. Temos eleições, é democracia? Não, temos eleições, elegemos um tirano que está coagindo a democracia. Se elegemos um tirano é porque fomos inoculados. A democracia está diminuindo, não está funcionando. Democracia é governo do povo para o povo. O povo elege seus representantes para que o representem. Se não estão representando, estão representando a grande indústria armamentista ou a grande indústria petrolífera. Não é democracia.
O combate à indústria armamentista é também uma bandeira da fundação?
Sem dúvida, eu quero que haja lavadoras. Sabe por quê? Porque dá muito trabalho eu lavar a roupa com a pouca água, quero lavadoras, quero geladeira, quero água potável, não quero armas. E quem quer armas tem graves problemas consigo mesmo. Tem graves problemas psíquicos e provavelmente também sexuais.

