Crônica de uma Copa do Mundo

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Depois de mais um dia de trabalho sem tempo de pensar, de repente era noite. Só o tempo no ônibus num dia frio de garoa fina já era o suficiente para cansar qualquer ser humano, o que de fato estava rolando. Chegando em casa, tudo para fazer, mas nada foi feito. É o momento de relaxar, o que atualmente significa ficar olhando para uma tela sem ver o tempo passar. É época de Copa do Mundo, os estímulos naquele celular surrado, cansado deser alisadoo, são muitos.

São dez da noite quando ele abre o celular para ver os gols de algum jogo que o trabalho o impediu de ver. Entra no aplicativo, faz uma busca rápida e tá lá: melhores momentos com narração. Clica e… para, para, para! Segura a ansiedade, meu amigo. Tem uma propaganda para você ver, é um carro andando nas montanhas, passando por cima de riachos e pedras, vendido por um valor que parece inacreditável de se juntar nessa vida e ainda mais gastar em um carro. Ele pensa que até seria bom ter um carro para ficar parado em um trânsito diferente do que o do ônibus que pega todo dia. Mas com o que ganha, não vai ser possível nem em vinte vidas.

A imagem congela um pouco, agora vai! Vamos aos gols. Calma aê, não tão rápido. Uma nova propaganda aparece, um sabão de côco líquido que não é feito de côco. Finalmente algo que ele pode comprar. Só dezoito segundos o separam das bolas na rede, mas ele desiste com raiva. Agora pula de aplicativo, liga numa tal TV que promete passar todos os jogos. Se aninha no cobertor, se prepara e começa a ouvir uma discussão sem sentido algum, falando de como os times são maravilhosos, a FIFA uma grande mãe que nos permite ter acesso a esse sonhado campeonato e mais um monte de piadas internas temperadas com propagandas de bets.

A raiva duplica, mesmo cansado de tudo resolve ir para a rua ter o entretenimento ao vivo que não o deixaram ter no digital. Se forrápido,o pega o jogo das onze em algum boteco. O portão se abre, ele pisa na calçada olhando para os dois lados, um frio do cão. Vai até o Oxxo mais próximo, onde era um boteco antigamente, compra uma cerveja e um cigarro, cumprimenta a atendente, que parece ser imigrante pelo seu sotaque. Ri sozinho, lembrando de uma piada que logo mais vão poder abrir um Oxxoo na sala dos outros, esquina com a cozinha.

Sai pensando que vai parar em qualquer lugar que tiver uma aglomeração, que já vai xingar alguém aleatório do jogo e fará alguma amizade instantânea, uma pessoa que vai abraçar na hora do gol de alguém. Mas a rua está vazia, estranho. Não que um Colômbia x Uzbequistão vá mover multidões, mas é quarta-feira à noite e, apesar do frio, a noite está boa pra gastar saliva na calçada. Atravessa a rua, passa debaixo do Minhocão onde cai aquela água de chorume de cidade. Olha para trás e lê pelamilésimaa vez aquele grafite que ele acha meio escroto: EU ME VEJO EM VOCÊ. Tosco.

Desvia de uma bicicleta com a marca de um banco, com um rapaz em cima, de chinelo e casaco, que carrega uma bolsa vermelha. Maior frio e o cara de chinelo na bike, é o máximo de crítica que consegue enxergar naquela cena.

Dá de cara com um jardim de chuva construído onde não chove, que foi feito claramente para o povo não dormir ali. Lembra que viu um caminhão pipa regando esse jardim outro dia. O resumo da cidade burra. Faz questão de pisotear as plantas que puseram ali tentando fazer um caminho pelo lugar que passa quase diariamente.

Quebra a esquina, a esfiharia tá lá aberta, os bares não. Dá meio que uma depressão aquela cena, tudo meio fechado, meio sujo, meio aceso, tudo meio. Nem as pessoas parecem estar por inteiro naquele cenário de coisas fora do lugar. Só que é assim mesmo, a coisa piorou muito nos últimos anos, fazer o quê? São as escolhas que nos obrigam a ter.

Você olha para os lados pensando no que vai fazer. Aquela garoa fina desgraçada, a São João com umas luzes piscando, sirenes lá longe. Aí veio a ideia de ver o jogo lá na praça. Depois do quarto rato que passou por ele, percebe que está chegando. Ele vira na base da PM e se depara com mais um cenário triste. Nada rolando, nem as mesas e cadeiras pra contar história.

— Qual foi China? Cadê as mesas, mano?

— A prefeitura levou hoje cedo, ainda que deixaram as TVs. Quer ver o jogo?

— Quero nada, quero ver gente e o jogo.

Arrisca ir no bar da rua de cima, que tem um amendoim com alho e uma TV tosca, pelo menos. Olha de longe, uma luz branca tenebrosa, mil mesas e cadeiras. Pô, virou outro João ‘s, número 23 já. Tá pior que o Oxxo.

Fica de saco cheio, ninguém na rua, irmão! Entra numa angústia enquanto mais uma viatura passa e ilumina seu rosto. Boinas pretas, cara de mau, fuzil pronto pra cantar. Teve que andar um pouco mais rápido para chegar na luz de um estande de vendas de apartamento para o possível enquadro se dar, poeticamente, em frente àquele projeto de shopping residencial. Nada feito, sua ilusão cinematográfica não rolou, passaram reto.

Aqui é preciso parar o relato e ser sincero com vocês. Naquele Oxxo — o primeiro — ele tomou um corote também. Nessa idade, nessa hora, nessa rua, meio bêbado. É foda, em São Paulo tem mercado.

Puxa a sua mente que nem linha de pipa, quando percebe, está na Roosevelt. Agora vai rolar, tem que ter um bar. Outra ilusão, ninguém na praça, só mais duas bases da polícia estão lá. Com a polícia dentro, lamentavelmente. Lembra daquilo cheio, com festas, skatistas, artistas, protestos e dá uma choramingar por dentro.

Segue a vida até a rua Augusta, um lugar que já tinha sido palco de tanta doidera. Aí chegaram os donos, da balada de Stella, de estande de studio, de safados sem alma. Eles haviam sugerido food trucks dentro do Parque Augusta, eles riram muito e fizeram as construtoras recuarem. Agora é um parque, que nesse horário está fechado, mas o entorno está aberto. Meio aberto, como dito antes.

Tem o Pescador logo ali pra salvar o nosso rolê, só que antes de chegar lá viu uma portinha aberta. Luz fraca, uma mesa na frente com duas cadeiras. Finalmente! Entra no bar como um vencedor, tipo aqueles pilotos com cara de moleque da Fórmula 1. Só tem ele, o dono do bar e um senhor que ocupa uma das cadeiras de fora. Sem sequer pedir meu CPF para vender meus dados, o dono do rolê pergunta o que quero anotando em um bloco de papel.

— O quê que tem?

— Batata frita e pastel que saiu umas seis.

— Desce a batata e uma Original. Tem TV pra ver o jogo?

— Não tem.

— Ótimo, vou ficar.

Pega a ampola toda cristalizada, pede licença pro senhor sentado fora e puxa a outra cadeira. Vem com um papo meio nostálgico porque quer reclamar da cidade.

— Essa rua já foi mais movimentada, né?

— Você é daqui?

— Sou sim.

— Então é capaz de lembrar. Tá vendo aquele prédio brilhante que parece um dente de vampiro? Antes era o bar de um amigo meu. Ele morreu em 2013 e o filho vendeu a casa, que virou isso aí.

— Lembro bem, acho que cheguei a tomar cerveja lá.

— Pois é, o filho vendeu depois que ele morreu, para mim foi o começo do fim.

— Fim do quê?

— Da vida da cidade. Era época de Copa do Mundo, que nem hoje. Isso aqui fervia de gente, tinha um monte de teatro, um pessoal maluco protestando contra a seleção, eu acho. Tinha uns outros doidos fazendo festa debaixo do viaduto, era Buraco da Minhoca ou algo assim. Uns trem doido de rima de um cara que chamava Adelson. Morreu depois, menino bom.

— Pô, dá vontade de chorar ouvindo isso. A gente era feliz e sabia.

— Sabia nada, era uma porradaria aqui, não tinha ninguém feliz com nada e ao mesmo tempo feliz com tudo. Essa infelicidade foi chegando devagar. Um prédio no lugar do bar, uma casa de polícia no lugar dos skatistas e aí tudo parou. Você conhece uma droga chamada soma?

— O livro Admirável Mundo Novo, né? Controle social, felicidade artificial e mais sei lá o quê pra te manter anestesiado.

— Isso mesmo, moleque esperto. O nome dessa droga aqui é dinheiro, mas ao contrário do livro que você falou nem todos têm acesso e agora é a ressaca.

— Ressaca?

— É, esse lugar que vivemos hoje é a ressaca do que vivemos antes. Nos drogamos tanto de dinheiro que não enxergamos mais as coisas. Explorar, produzir e lucrar indefinidamente. A felicidade é fingir que temos, que fazemos e nesse meio tempo essa conversa se perde, não faz mais sentido.

— Fiquei meio perdido mesmo.

— Sim, essa é a intenção.

*Esta é uma coluna de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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