Cuba precisa de subsídios de países aliados, não só de declarações de solidariedade, diz analista

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Cuba segue resistindo ao agravamento do bloqueio imposto pelos Estados Unidos, que tem gerado um cenário de crise energética sem precedentes na ilha. O apoio de países aliados é dificultado pelo presidente estadunidense Donald Trump, que ameaça impor sanções a quem enviar qualquer tipo de ajuda aos cubanos.

O programa O Estrangeiro desta quarta-feira (22) analisa o atual cenário em Cuba com o correspondente do Brasil de Fato em Havana, o jornalista Gabriel Vera Lopes, e Miguel Stédile, historiador, analista geopolítico e autor do Boletim Ponto.

Stédile defende que as declarações de solidariedade são importantes, mas acabam esvaziadas se não vierem acompanhadas de um real subsídio às necessidades básicas para o funcionamento básico do país. Caso contrário, afirma ele, serão tão irrelevantes quanto a atuação da Organização das Nações Unidas (ONU) em crises humanitárias, como a de Gaza.

“Vale a pena reforçar que há iniciativas desses países mais discretas no sentido de apoiar e subsidiar, que não podem ser tão publicizadas para que não haja qualquer tipo de represália por parte dos Estados Unidos. Algumas muito corajosas, como a da Rússia, que tem um vínculo histórico com Cuba. E eu acho que acaba sendo muito importante que toda ação diplomática também, de alguma forma, ajude a criar algum tipo de escudo em torno de Cuba. Mas a gente tem 60 anos em que a ONU diz que o bloqueio é ilegal, é desumano e nada acontece”, critica.

Para Lopes, a resiliência do povo cubano pode ser vista no dia a dia, com a população buscando alternativas para tentar amenizar os impactos desse bloqueio. “Tem uma aprendizagem, uma maior capacidade organizativa, e ao mesmo tempo a situação energética ficou um pouquinho melhor do que era um mês atrás, com esse fornecimento de petróleo de Rússia, que diminuiu um pouquinho os cortes de luz, melhorou um pouco a situação energética do país”, relata o jornalista, radicado em Havana.

Stédile avalia que Trump anda ocupado com o andamento do conflito no Irã, já que está completamente perdido com os rumos da guerra e a resistência iraniana, e que isso fez com que as ações contra Cuba fossem amenizadas. Contudo, esse cenário é temporário.

“Certamente, se nós tivéssemos tido uma solução rápida por parte dos Estados Unidos no Irã, hoje nós estaríamos discutindo uma possível invasão a Cuba. Agora, por outro lado, contraditoriamente, também o fracasso, o fiasco dos Estados Unidos no Irã aumenta a ameaça à Cuba, porque Trump está desesperado em desfazer esse micro Vietnã que ele teve no Irã, essa derrota que ele vem tendo há dias”, explica. “Cuba poderia ser uma alternativa para ele conseguir recuperar em parte seu prestígio com a extrema direita estadunidense.”

Gabriel Lopes aponta também a dependência energética de Cuba como um fator de extrema fragilidade nesse contexto. Tanto é que os EUA não tiveram grandes dificuldades em promover a chamada “asfixia energética” na ilha, agravada após a invasão à Venezuela.

“Cuba produz mais ou menos o 30% do petróleo que precisa. Os 70% restantes, é preciso importar. O maior fornecedor de petróleo para Cuba era a Venezuela. México tem sido importante, mas o principal parceiro era a Venezuela. Então, quando os Estados Unidos começam seu ataque contra Caracas, que não foi só o 3 de janeiro, já vinha de bem antes, desde dezembro, eles tinham bloqueado a possibilidade de que os barcos saíssem da Venezuela e chegassem a Cuba. A situação é essa”, avalia.

Para ouvir e assistir

Ó podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

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