Cuba está vivendo uma batalha diária pela sobrevivência, devido ao agravamento do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. As ações de asfixia promovidas pelo governo estadunidense não são uma novidade, mas foram intensificadas após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro, deixando a população cubana sem acesso a petróleo e combustível, comprometendo setores estratégicos como saúde, educação e alimentação.
O sistema de saúde enfrenta dificuldades gravíssimas, com crianças em ventilação domiciliar, pacientes oncológicos e pessoas com doenças crônicas sendo os mais afetados pela instabilidade no fornecimento de energia.
O correspondente do Brasil de Fato em Havana, Gabriel Vera Lopes, descreve ao Conexão BdF que a situação mais crítica é, de fato, na área da saúde. “Os hospitais precisam de energia. Não há solução mágica”, alerta Vera Lopes. O programa de médicos da família tenta acompanhar os pacientes mais vulneráveis em suas comunidades, mas a falta de eletricidade compromete até os cuidados básicos.
O Ministério da Saúde cubano alerta que as sanções estadunidenses dificultam a compra de medicamentos, insumos e peças hospitalares, além de elevar os custos logísticos com a redução de voos comerciais e do turismo.
O ministro José Ángel Portal Miranda afirmou que o país está priorizando serviços essenciais, como saúde materno-infantil e atendimentos de urgência, reduzindo cirurgias e internações não emergenciais para garantir que a estrutura ainda funcione nos casos de vida ou morte.
“A situação muda muito dia a dia. O país está começando a atravessar um novo processo de inflação, com aumento dos preços da comida e do transporte. É uma situação relativamente tranquila, mas muito tensa. Tudo fica mais caro, e os problemas para chegar ao trabalho, ao hospital, à escola, ficam mais difíceis”, relata.
O presidente Miguel Díaz-Canel denuncia que as medidas de Donald Trump representam um “bloqueio energético” que agrava a crise sanitária. A União Africana, em encontro multilateral nos últimos dias, juntou-se a outras nações e organismos internacionais para condenar o embargo e pedir a retirada de Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo — uma designação imposta por Trump que agravou ainda mais o isolamento econômico da ilha.
“É uma corrida contra o tempo. Cuba precisa fazer a transição energética em curto prazo, com ajuda internacional, enquanto ainda há um mínimo de energia no país. A denúncia contra os Estados Unidos é urgente, mas a solidariedade também”, conclui.
Entre as iniciativas emergenciais, estudantes universitários estão sendo mobilizados para apoiar comunidades do interior, garantindo que crianças e adolescentes não percam o ano letivo. “Eles têm que voltar para suas cidades porque as aulas não serão como antes. Criaram programas de ajuda para garantir que os menores não percam a possibilidade de estudar”, explica Gabriel.
Ao mesmo tempo, a juventude também se organiza para apoiar a população idosa — numerosa em um país com alto índice de envelhecimento. “Precisam de ajuda para ir ao hospital, fazer compras, tarefas do dia a dia. Os jovens estão construindo programas para isso.”
Já o Ministério da Cultura descentralizou atividades. “O cinema não fica mais só em um lugar. Ele vai de forma rotativa para diferentes bairros. Mesmo sem energia, é preciso garantir espaços de encontro e cultura, que são muito importantes para Cuba”, diz o correspondente.
O esporte, paixão nacional, também se adapta. Treinos e jogos, especialmente de beisebol, estão sendo levados a diferentes regiões da ilha para que todos possam participar e assistir.
Apesar do aperto, Cuba não está sozinha. A União Africana, China, Rússia e outros países têm manifestado apoio e oferecido ajuda. A transição para energias renováveis, com instalação de painéis solares e outras tecnologias, é uma das apostas para reduzir a dependência do petróleo e garantir o funcionamento mínimo de hospitais, escolas e sistemas de produção de alimentos.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

