Em sua passagem pelo Rio Grande do Sul, o novo embaixador de Cuba no Brasil, Victor Manoel Cairo, afirmou que “defender Cuba significa defender o resto do mundo, o resto da humanidade” durante visita ao estado, onde cumpriu agenda com movimentos sociais e iniciativas de solidariedade ao povo cubano.
A convite do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Cairo esteve no estado entre quinta e domingo. Na sexta-feira (20), ela participou da 23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico. No sábado (21), ele visitou o Instituto Educacional Josué de Castro, no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, onde conversou com aprendizes e jogou futebol. Também esteve na Cozinha Solidária Vila Jardim, em Porto Alegre.

No domingo (22), participou de uma atividade no Memorial Luiz Carlos Prestes, organizada pela Associação Cultural José Martí e o Memorial Prestes. O embaixador está há 21 dias no Brasil e irá morar com a família em Brasília. Após a agenda, retornou à Capital Federal.
Cairo defendeu a soberania de Cuba, criticou a influência conservadora na política externa norte-americana e chamou a população à solidariedade. Em discurso marcado por críticas contundentes aos Estados Unidos, o representante diplomático afirmou que Cuba não representa uma ameaça e reiterou o direito do país de viver em paz, com desenvolvimento e respeito. “Cuba quer viver em paz. O povo dos Estados Unidos é amigo de Cuba. O problema está no governo”, declarou, ao mencionar a influência de setores políticos ligados a Miami.
Segundo ele, pela primeira vez em cerca de 50 anos, grupos extremamente conservadores estariam dirigindo diretamente a política exterior norte-americana. “O governo dos Estados Unidos projeta o fascismo.”
O embaixador também mencionou o presidente Donald Trump e seus representantes como expressão dessa orientação política. “Consideram que somos inferiores. Isso é fascismo.”
Ele criticou ainda a lógica da doutrina de segurança nacional e a ideia de “paz pela força”, que, segundo ele, configuram uma política de dominação global. “É uma expressão de fascismo contra todos os diferentes.”
Ao abordar a relação com a América Latina, reforçou a identidade comum entre os povos da região. “Não importa se somos brancos, pretos ou mestiços: somos latino-americanos”, destacou.

Crise global e modelo econômico
O diplomata cubano também apontou a crise climática e ambiental como um dos principais desafios da atualidade. “Desastres naturais, aquecimento global, menos comida. Estamos nos destruindo.” Ele relembrou uma fala de Fidel Castro sobre o risco de colapso global. “Estamos nos matando.”
Na avaliação de Cairo, o modelo econômico vigente aprofunda essa crise. “O capitalismo neoliberal vai acabar com a Terra”, afirmou, ao criticar o consumismo, a concentração de riqueza e a má distribuição de recursos.
Papel do Brasil e mobilização
Para ele, o Brasil pode desempenhar um papel central nesse cenário. “O Brasil tem capacidade moral, política e geopolítica para ser um ator importante nesta luta”, disse, defendendo uma atuação conjunta com Cuba.
Cairo afirmou que o debate vai além de sistemas econômicos. “Não se trata de socialismo ou capitalismo. Trata-se da sobrevivência da humanidade”, declarou.
Como encaminhamento, convocou a população de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul a se somar à campanha contra o bloqueio a Cuba. A proposta inclui a realização de carreatas mensais em diferentes cidades brasileiras, no último domingo de cada mês, começando por São Paulo e podendo culminar em Brasília. “Queremos mobilizações com bandeiras cubanas e brasileiras, dizendo não ao bloqueio.”
Além disso, destacou formas concretas de solidariedade internacional. Segundo ele, Cuba precisa de alimentos, medicamentos e apoio energético. “Se não é possível enviar combustível, podemos enviar placas solares. O importante é ajudar.”
Cooperação internacional, saúde e enfrentamento ao isolamento

Ainda durante o debate, o embaixador abordou a atuação de Cuba na área da saúde e os ataques que os Estados Unidos fazem aos profissionais cubanos. “Os médicos cubanos vão onde os médicos de outros países não querem ir”, afirmou. Segundo ele, “na covid, mais de 37 países receberam apoio de Cuba”.
Ele criticou ações dos Estados Unidos nesse campo. “Quando Estados Unidos ataca os serviços médicos cubanos, está atacando os serviços públicos desses países”, disse.
Ao tratar do cenário político internacional, afirmou que há uma tentativa de isolar Cuba. “Depende dos povos do mundo que Cuba não retorne ao isolamento da América Latina da década de 1960. Cabe aos povos da América Latina e do Caribe exigir que seus governos não caiam na armadilha contra Cuba, visto que há muitos governos de direita na região que tentam se unir contra o país”.
Segundo enfatizou, os povos da América Latina e do Caribe não podem permitir que as relações históricas entre povos sejam afetadas por decisões que respondem aos interesses de Miami e dos EUA.
Sobre a comunidade cubana no exterior, afirmou que a maioria deseja manter vínculos com o país. “A maioria dos cubanos quer uma relação normal com Cuba. Querem uma relação normal com sua família, querem enviar dinheiro, incluindo a maioria que está nos EUA. Não é verdade que a maioria dos cubanos queira uma guerra contra Cuba. Isso podem aqueles cubanos que não têm família em Cuba.”
Ele também criticou setores políticos nos Estados Unidos. “Esses congressistas cubano-americanos de Miami vivem do negócio contra Cuba”, afirmou.
Ao tratar da relação com cubanos que vivem no exterior, o embaixador afirmou que o governo busca fortalecer vínculos com a diáspora. “Queremos ter uma relação normal com Cuba onde quer que viva.”
Segundo ele, essa é a diretriz do país: “Essa é a política de Cuba, com o resto dos cubanos que podem não estar em concordância com nosso sistema político, mas respeitam o país, respeitam o seu povo. Essa é a situação que queremos manter.”

Cerco midiático
Cairo também alertou para uma “guerra mediática” e para tentativas de desestabilização. “Estamos vivenciando uma guerra mediática nas redes, que procura criar confusão no país”, disse. Ele acrescentou: “Uma agressão contra o povo cubano seria uma agressão contra todos os povos do mundo.”
O embaixador destacou ainda o apoio recebido do Brasil. “Apreciamos profundamente os sinais de solidariedade do povo brasileiro e do governo do presidente Lula”, afirmou.
Segundo ele, é necessário ampliar o acesso à informação. “Não é só viajar a Cuba, não é só mandar medicinas, é também contribuir para que mais brasileiros conheçam o que está acontecendo em Cuba, o que faz os EUA contra nosso país”, disse. “É necessário romper o cerco mediático para que conheçam Cuba e apoiem contra esse genocídio.”
Ao mencionar o centenário de Fidel Castro, destacou a importância da unidade. “Fidel nos ensinou o valor da unidade na diversidade. Há muitas razões para nos dividir, mas há mais razões para estarmos unidos. Como se diz, no Brasil: estamos juntos.”
Ele sintetizou o momento político global: “Hoje, o debate é a morte ou a vida. Hoje, o debate é a liberdade ou o colonialismo.” E acrescentou: “A Revolução Cubana continuará sendo um símbolo de dignidade e luta.”
Solidariedade real, verbal e material
Em entrevista ao Brasil de Fato, Cairo destacou a importância do contato direto com as comunidades. “Tem sido uma visita muito importante para mim, por estar participando em diferentes atividades do MST e da Associação Cultural José Martí.”
A agenda incluiu experiências concretas de organização popular, como a visita a uma escola de formação de jovens do MST e a fábrica de biofertilizantes, no assentamento em Viamão, e a uma cozinha solidária, na Vila Jardim, em Porto Alegre. “Pude estar caminhando junto a pessoas, falando com pessoas da comunidade, comunidades muito humildes.”
Cairo também ressaltou o alcance de políticas cubanas no campo da educação, como as pessoas que foram beneficiadas com o método cubano de alfabetização “Sim, eu posso”, que “é um método muito famoso e muito conhecido em nível internacional”, disse.
Ele destacou ainda a solidariedade expressa no estado. “Porto Alegre tem demonstrado uma alta solidariedade com Cuba”, afirmou, mencionando a organização de uma caravana para o país em abril, durante as atividades do 1º de maio.
O embaixador afirmou que o encontro no Memorial Luiz Carlos Prestes permitiu “trocar ideias sobre Cuba”, incluindo debates sobre “o genocídio que está cometendo Estados Unidos contra Cuba” e a “crise humanitária que sofre o povo cubano”.
Para ele, o momento também evidenciou o apoio internacional. “Cuba não está só, Cuba tem companhia, Cuba tem amigos”, disse. “O povo brasileiro está acompanhando, não só como voluntário, mas materialmente, a luta do povo cubano por seu desenvolvimento, por sua liberdade, por sua soberania”, complementou.
Críticas aos Estados Unidos e defesa da mobilização internacional
Ao comentar a conjuntura internacional, Cairo afirmou que a defesa de Cuba envolve uma disputa mais ampla. “Defender Cuba significa defender o resto do mundo, o resto da humanidade. Porque, por intenções e interesses políticos, Donald Trump e o secretário do Estado pretendem sufocar o povo cubano. Se Cuba cai, cai a dignidade. Se Cuba cai, cai a alternativa ao capitalismo neoliberal. Se Cuba cair, estaremos testemunhando que o genocídio, como o que está acontecendo na Palestina, teve sucesso.”
Para ele, é preciso que todos compreendam que não se trata de uma luta bilateral. “Cuba não é uma ameaça para os Estados Unidos. Os Estados Unidos é uma ameaça fascista para o mundo.”
O embaixador também criticou a cobertura da mídia e deixou um alerta: “Não cair na confusão dos meios de imprensa hegemônicos. O Brasil precisa estar com Cuba e Cuba precisa que o Brasil apoie o povo cubano.”
Questionado sobre a afirmação de Donald Trump de querer tomar Cuba, Cairo disse que a resposta passa pela rejeição a esse intento: “É preciso que o povo do mundo pressione os seus governos, seja direita ou esquerda, em defesa de Cuba. Se o mundo pressiona o governo dos Estados Unidos, será mais difícil atacar Cuba.” Nesse sentido, defendeu “uma maior mobilização mundial”, incluindo “mobilização no Brasil, na América Latina e no Caribe”.
Cairo também destacou a relação histórica com o MST. De acordo com ele, o movimento tem estado com Cuba nos momentos mais difíceis. “O MST está conosco, trabalha conosco, nos envia medicamentos, doações, arroz, sementes que utilizamos para poder ampliar nossa produção. O MST sempre tem estado com Cuba.”
Para Cairo, as principais palavras em defesa de Cuba é: “Lutar, internacionalismo, cooperação, solidariedade”. E reforçou: “Solidariedade real, verbal e material.”

