Deputada do blackface, Fabiana Bolsonaro se declarou parda na campanha de 2022; deputada do Psol denuncia falsidade ideológica eleitoral

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Antes branca para a Justiça Eleitoral, a deputada estadual de São Paulo, Fabiana Bolsonaro (PL), que protagonizou uma cena de racismo na Assembleia Legislativa de São Paulo (SP) na quarta (18), se declarou parda em 2022 para concorrer ao cargo de deputada estadual.

Em 2020, quando concorreu e ganhou a eleição para vice-prefeita do município de Barrinha (SP), na chapa do prefeito Zé Marcos (PL), Fabiana havia se declarado branca ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na eleição seguinte, quando se declarou parda, os partidos políticos tinham que obedecer à regra de cotas do Fundo Eleitoral para financiar a campanha de candidatos negros.

Nessa mesma eleição de 2022, Fabiana de Lima Barroso Souza também mudou de nome e passou a adotar o sobrenome Bolsonaro, mesmo não tendo relação de parentesco com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na última quarta-feira (18), a deputada fez cara preta (pintou o rosto de preto) e disse que, mesmo assim, não poderia representar pessoas negras. A cena era um “protesto” para questionar a representação da deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados.

“Eu tive os privilégios de uma pessoa branca durante toda a minha vida. Agora, aos 32 anos, decido me maquiar, me travestir como uma pessoa negra. E agora, virei negra?”, questionou.

Falsidade ideológica eleitoral

Diante da ação da parlamentar bolsonarista e da comprovação da autodeclaração, a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) solicitou à Justiça Eleitoral, nesta quinta (19), a instauração de um inquérito policial eleitoral contra a Fabiana.

Segundo dados do portal DivulgaCand, do TSE, em 2022, a deputada bolsonarista recebeu R$ 1 milhão da direção nacional do PL e R$ 12 mil da direção estadual. Hilton argumenta que a autodeclaração impactou o acesso a verbas públicas de campanha vinculadas às cotas raciais estabelecidas pela Justiça Eleitoral naquele ano.

De acordo com apuração da Folha de S. Paulona peça protocolada por Erika Hilton, “há indícios de que a autodeclaração foi utilizada de forma indevida, o que configuraria, em tese, o crime de falsidade ideológica eleitoral, previsto no artigo 350 do Código Eleitoral. A ação destaca a contradição entre o benefício obtido por meio da autodeclaração racial e a posterior banalização da identidade racial em um ato público marcado pelo uso de blackface.”

O advogado Alberto Rollo, que representa Fabiana, disse à coluna da Folha de S.Paulo que “a responsabilidade pelos registros é dos partidos”, no caso o Patriota, em 2020, quando ela se declarou branca, e o PL, em 2022, quando passou a se declarar parda.

Ele acrescenta que Fabiana tem “um avô negro e uma avó indígena. Diante disso, a autodeclaração como parda não seria irregular, né?”, questiona.

Outra reação ao discurso transfóbico de Fabiana Bolsonaro é o pedido de cassação do mandato da bolsonarista. O pedido partiu de um grupo de deputados estaduais de São Paulo que entrou com um processo no Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

Para além disso, a vereadora de São Paulo Luana Alves e a deputada estadual Mônica Seixas, ambas do PSOL, registraram um boletim de ocorrência contra Fabiana na Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

A parlamentar da direita também foi denunciada ao Ministério Público de São Paulo por racismo, por iniciativa da deputada estadual Ediane Maria (Psol).

Deputada diz que não fez cara preta

A deputada do PL também divulgou uma nota pública negando ter praticado cara preta durante sua fala. “Como deputada, afirmo com total clareza e responsabilidade jurídica: durante minha presença no Plenário da Assembleia Paulista, não fiz cara preta. É uma mentira deliberada para tentar calar um debate legítimo”.

De acordo com o site da Alesp, Fabiana Bolsonaro atua contra a ideologia de gênero para crianças, na defesa do cristianismo, do incentivo ao agronegócio, na defesa da “vida e da família”, na proteção e defesa da mulher, na defesa do armamentismo e contra o aborto e contra as drogas. Fabiana faz parte da Bancada Evangélica.

A parlamentar ainda é autora do Projeto de Lei 440/2025, que estabelece o afastamento de professores que praticam a doutrinação política e ideológica em sala de aula, veiculam conteúdos e/ou realizam atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes, e do Projeto de Lei 438/2025 que institui o Programa de Valorização da Família e dos Princípios Cristãos.

A reportagem procurou a deputada Fabiana Bolsonaro para responder aos questionamentos da reportagem, mas ainda não obteve retorno.

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