Discurso anti-imigração dá vitória histórica para extrema direita nas eleições locais do Reino Unido

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Com a contagem dos votos ainda em andamento nesta sexta-feira (8), o partido de extrema direita Reform UK já é considerado o grande vencedor das eleições locais no Reino Unido, termômetro da reprovação do governo corrente, atualmente nas mãos do Partido Trabalhista. Há poucos anos considerado uma agremiação irrelevante, o Reform UK conquistou a maioria dos assentos em disputa, sintoma da maior crise do bipartidarismo, conservadores e trabalhistas, que dominou a política britânica por mais de um século.

Boa parte da plataforma eleitoral do Reform UK se baseia no discurso contra imigrantes. O partido, considerado por muitos como neofascista, prometeu, se chegar a dominar o Parlamento, uma revisão imediata de todos os pedidos de asilo dos últimos cinco anos, o que poria em risco quase meio milhão de pessoas. Zia Yusuf, porta-voz do partido, disse que a escala das deportações sob seu governo seria “sem precedentes neste país”.

“Quero enfatizar isso, não vamos permitir que a boa vontade do povo britânico seja explorada”, disse ele. Considerado por muitos no país como essencialmente racista, os planos do Reform UK incluem a deportação de 22,5 mil por mês, totalizando um quarto de milhão por ano. Eles também pretendem vetar o acesso a benefícios sociais para a maioria dos imigrantes.

Para isso, o partido pretende sair da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH) e dar fim à regra que garante direito à residência permanente após cinco anos de residência no país. Eles defendem também o uso da equipe atual do Ministério do Interior para agilizar processos, baseando-se apenas no método de entrada (legal versus ilegal), sem análises individuais detalhadas.

O líder do Reform UK, Nigel Farage, comemorou os resultados, estimando que eles demonstram que seu partido “veio para ficar”. “Estamos assistindo a uma mudança histórica na política britânica”, afirmou Farage.

Primeiro-ministro promete resistir

Os trabalhistas vêm argumentando terem endurecido os controles fronteiriços, mas não foi o bastante para convencer o eleitorado, que impôs ao governo uma derrota histórica, apenas 22 meses após o partido ter voltado ao poder depois de 14 anos de governos do Partido Conservador. O líder trabalhista, o premiê Keir Starmer, afirmou estar “magoado”, mas que “não vai abandonar o partido” após perder centenas de cadeiras em conselhos municipais, além do controle de diversas câmaras municipais.

O partido parece estar perdendo o controle de seus redutos históricos no norte da Inglaterra, com perdas significativas em Tameside, Hartlepool e Wigan. As pesquisas preveem que mais de 1.500 cadeiras trabalhistas em conselhos municipais poderão ser perdidas.

Na noite de sexta, o Partido Trabalhista já havia perdido cerca de 700 vereadores e 20 prefeituras, enquanto o Reform UK havia conquistado cerca de 1.000 representantes locais. Havia também perdido para o Reform UK o controle de Sunderland, no norte da Inglaterra, um de seus históricos redutos operários.

Nas eleições autônomas da Escócia, quando pouco mais da metade das 129 cadeiras do Parlamento havia sido distribuída, os trabalhistas apareciam na quarta posição. O partido independentista Scottish National Party (SNP), no poder há 19 anos, liderava com 55 cadeiras, embora ainda sem maioria absoluta garantida.

Os resultados foram ainda mais dolorosos com a perda do controle do Parlamento do País de Gales, pela primeira vez desde a descentralização de poderes em 1999, quando as eleições autônomas eram sempre vencidas pelo partido nacionalista de esquerda Plaid Cymru.

“Não vou partir e deixar o país afundar no caos. Os resultados são duros, muito duros, e não vou maquiá-los”, disse Starmer.

Alguns veículos britânicos apontam que a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner ou o ministro da Saúde, Wes Streeting, poderiam tentar derrubar Starmer após os resultados.

“Os trabalhistas venceram as eleições gerais de 2024 principalmente porque os conservadores eram profundamente impopulares após 14 anos no governo”, afirma à AFP Mark Garnett, analista político e ex-professor da Universidade de Leicester.

Para Garnett, as eleições locais “mostram que o Partido Trabalhista levou menos de dois anos para se tornar igualmente impopular, se não ainda mais. Ele vem perdendo apoio para o Reform UK pela direita e para o Partido Verde pela esquerda”.

A popularidade de Starmer caiu após uma série de erros, mudanças de posição e polêmicas, o que despertou dentro de seu partido a tentação de substituí-lo em 10 Downing Street.

No total, mais de 5 mil cadeiras locais estavam em disputa nestas eleições na Inglaterra, de um total superior a 16 mil. Nestas eleições, não houve votação para as prefeituras de cidades como Londres, embora tenha havido disputa nos conselhos municipais de 32 de seus distritos. A eleição para a prefeitura da capital está prevista para 2028.

Também não foram eleitos os principais dirigentes de cidades como Liverpool ou Newcastle, nem houve votações em Manchester ou Birmingham, mas sim em suas regiões metropolitanas, Greater Manchester e West Midlands, respectivamente.

Os conservadores, liderados por Kemi Badenoch, perderam centenas de vereadores, embora tenham conseguido manter o controle de Westminster, no centro de Londres. Os Verdes, que se deslocaram mais à esquerda sob a liderança de Polanski, conquistaram a eleição de 160 vereadores e assumiram o controle de várias prefeituras, incluindo Hastings, no sudeste da Inglaterra.

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