As diversas operações policiais que retiraram pessoas em situação de uso abusivo de substâncias químicas do chamado fluxo da Cracolândia, que, nos últimos anos, estava localizado na Rua Protestantes, no centro de São Paulo (SP), deixou sequelas pela região.
Apesar dos anúncios proferidos pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) de que a Cracolândia acabou, a atual dinâmica mostra que diversos grupos menores se espalharam por várias ruas do estado de São Paulo. Sem um ponto fixo de concentração, vigiadas constantemente pela polícia, as pessoas vão de um lado para o outro.
O Brasil de Fato, que vem acompanhando a situação da Cracolândia desde a produção da série documental “Território em Fluxo” — vencedora do Prêmio Vladimir Herzog em 2025 na categoria vídeo —, voltou às ruas do centro de São Paulo para compreender como as organizações que atuam na redução de danos se reorganizaram para continuar as ações de cuidado, afeto e cultura e para observar a dinâmica da dispersão de usuários que agora se aglomeram em pequenos grupos no Terminal Princesa Isabel, no Glicério e no Parque Dom Pedro II.
“Desde a dispersão, está mais complicado. Não se pode ficar na calçada, como se isso fosse um problema. A polícia chega batendo. Sai de um lugar, vai para outro lugar, que nem pingue-pongue. Eles não param”, afirmou Jurandir Emídio, integrante do grupo Pagode na Lata, que levava rodas de samba ao fluxo.
Na mesma linha, o dançarino Renato Oliveira Júnior, o Renatinho, que frequenta a região há oito anos, critica a abordagem. “Eles não oferecem moradia ou trabalho, oferecem internação. Se eu entrar no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) às 8h, participo das atividades, mas às 17h volto para a rua. Vou fumar de novo até o dia seguinte. O governo não tem estrutura para internar todos, por isso os flagrantes são forjados.”
Questão de saúde
O fim da cena aberta de uso dificulta o monitoramento de profissionais de saúde e assistência social. Relatos de moradores e de coletivos de direitos humanos convergem sobre medidas coordenadas entre o governo estadual e a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB). Um trabalhador do programa Consultório na Rua, que preferiu o anonimato por medo de represálias, denunciou que as equipes são obrigadas a colher dados sigilosos dos usuários para mapeamento. Logo após o registro online, viaturas da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e da Polícia Militar chegam para dispersar os aglomerados.
Estratégia essencial do Sistema Único de Saúde (SUS), o Consultório na Rua descentraliza a saúde para alcançar populações vulneráveis. Suas equipes prestam serviços que vão da redução de danos à assistência básica, priorizando a criação de vínculos e o resgate da dignidade para aqueles que vivem fora das redes tradicionais de proteção.
“Estamos inserindo dados de saúde que deveriam ser extremamente sigilosos para um grupo articulado com a segurança pública. Fazemos a contagem da cena de uso e, em seguida, vem o ‘Rapa’, com o caminhão para tirar as coisas, a polícia e a guarda. Eles querem que façamos um censo de quem são as pessoas que ainda estão na região do Glicério e do Dom Pedro, porque são as duas regiões que a política higienista quer limpar. Como trabalhadores, há um silenciamento”, diz o profissional.
A ideia dessas entrevistas no território é oferecer vagas de acolhimento e internação, porém o município não tem serviços suficientes de abrigamento para essas pessoas. “Estamos ofertando algo, mas não há políticas de assistência e saúde voltadas para essas populações. Basicamente, é para fazermos o censo das praças municipais”, denuncia o trabalhador.
Coletivos se reorganizam
A truculência policial fez com que coletivos de redução de danos se refugiassem em sedes fixas, diminuindo as atividades itinerantes. O Cine Fluxo, que utiliza o cinema como ferramenta de reinserção social desde 2021, enfrentou barreiras para circular com seu projetor. “Toda vez que saíamos, andávamos dez metros e tínhamos que voltar. Eles querem acabar com o pertencimento e o vínculo”, denuncia Igor Mariwaki, idealizador do projeto.
Com um carrinho de supermercado adaptado, equipado com bateria de carro, projetor e caixas de som, o Cine Fluxo circulava pelo antigo fluxo da Cracolândia. Além dos curtas-metragens, o grupo também distribuía insumos de redução de danos, como piteira, camisinha, kit de higiene, pipoca e suco.
“Nesse processo, voltamos a nos encontrar sem poder ir para a rua. Pensamos na formação e foi o que nos uniu e deu direção ao projeto. Na atualidade, os coletivos estão perdendo a autonomia. Antes de fecharem a Cracolândia, já não estávamos exibindo mais no fluxo. Exibíamos nas ruas de trás ou andávamos cantando, fazendo karaokê em volta, fazíamos uma caminhada. Fechou o fluxo e não podíamos mais nem passar em outros pontos da rua”, reforça Mariwaki.
“Eles não entendem o poder da cultura”, lamenta. “Acham que é na porrada que se conseguem as coisas. Eles querem acabar com essa parte do ser humano de crescer culturalmente, de pertencimento e de vínculo. Não houve nenhuma conversa com a gente.”
Nascido no Guarujá (SP) em 1991, o dançarino Renato Oliveira Júnior, conhecido como Renatinho, está na Cracolândia há pelo menos oito anos e soma dezenas de internações. Ele participa de projetos e coletivos que atuam no centro de São Paulo construindo vínculos por onde passa.
Integrante assíduo do Cine Fluxo há cerca de cinco anos, Renatinho vem se capacitando na área do audiovisual a partir das aulas de roteiro e história da arte. Ele apontou como o Cine o auxilia a diminuir o uso de substâncias como o álcool. “É bom porque enquanto eu estou atuando, o outro está filmando, aí depois eu vou lá filmar, aí depois eu vou lá segurar a luz, ou então vou ficar na sonoplastia.”
Danilo Freire da Silva, beneficiário do Cine Fluxo, também destaca a importância do coletivo. “As histórias que vou aprendendo são muito boas. Adoro este lugar. Espero que um dia meus dois filhos, uma menina e um menino, tenham orgulho de mim. Não pelo que o pai foi, mas porque ele tentou evoluir como ser humano e não só regredir.”

Outro grupo que promovia ações culturais no fluxo, além de oferecer moradia e tratamento aos usuários, o Teto Trampo Tratamento (TTT) também alterou seu funcionamento após o esvaziamento do fluxo, e hoje partilha uma sede na região da Bela Vista, na Casa Chama.
Lydia Gama, coordenadora do TTT, conta que o coletivo adere à prática do “Housing First” (moradia primeiro) para aqueles que ainda não têm renda e estão trabalhando com educação financeira, além do programa Operação Trabalho (POT), cuja ideia é, em parceria com a prefeitura, disponibilizar vagas com foco na qualificação profissional e inclusão produtiva de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
“Tivemos uma diminuição pequena de vagas comparada a outros movimentos, mas todos tiveram essa redução. O projeto continuará aqui e vamos existir, porque a ideia é ocupar, e as pessoas que precisam de nós nos encontrarão”, diz Gama.
Ela também denuncia a violência estatal. “Você percebe a lógica do Estado de não poder ficar parado em algum lugar? Ainda que seja fazendo uma atividade cultural ou de redução de danos, o cuidado em liberdade é impedido. Não é que eles não conheçam o nosso trabalho, eles conhecem.”

Francieli Silva, que também é integrante do TTT, diz que o coletivo continuou nas ruas, mas foi abordado pela polícia. “Continuamos indo para a rua, porém já não havia mais fluxo. Fomos abordados algumas vezes na Marechal e eles não deixaram fazermos a ação. Disseram que podíamos circular na praça, mas não parar.”
Beneficiário da associação, MC Jo conta que a possibilidade de ter uma moradia faz a diferença. “É muito bom ter uma cama, uma televisão e um lugar para tomar banho e dormir. Já reduzi bastante o meu vício. Antes eu não ficava meia hora sem usar crack. Agora, através do projeto, estou conseguindo me levantar e tirei todos os meus documentos.”
Ações coordenadas e a revitalização do centro
A estratégia de revitalização do centro de São Paulo, promovida pelas gestões municipal e estadual, também tem avançado sobre territórios históricos de resistência cultural e social. Um dos episódios mais emblemáticos desse processo foi a reintegração de posse da área ocupada pelo Teatro de Contêiner Mungunzá, na região da Luz.
Após anos de disputa judicial e resistência de artistas e moradores, em janeiro deste ano, a Prefeitura de São Paulo concretizou o despejo do espaço que funcionava há quase uma década como um polo de cultura e acolhimento no coração do centro. A justificativa oficial para a retomada do terreno, localizado na Rua dos Gusmões, é a construção de unidades habitacionais de interesse social integradas a um plano de recuperação da região.
Para os coletivos que atuam no território, no entanto, a medida é vista como parte de um conjunto de ações coordenadas que priorizam a infraestrutura em detrimento do tecido social existente.
O cenário é descrito por Lucas Beda, ator e produtor da Cia Mungunzá, como algo que vai além da higienização: “É esterilização, a higienização ocorreu há um bom tempo, agora estamos sendo esterilizados”.

Pesquisadores como Débora Ungaretti, do LabCidade da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), reforçam que essa transformação é pautada na eliminação das redes de apoio locais. Enquanto novos prédios são lançados sob a promessa de revitalização, a população de baixa renda e os frequentadores históricos da região acabam excluídos, restando-lhes apenas a dispersão forçada por uma cidade que, sob o pretexto de se renovar, apaga suas próprias referências de afeto e cuidado.
“Existe um conjunto de ações coordenadas que estão sendo feitas e que têm como objetivo a transformação desta região. É uma transformação pautada na eliminação do tecido social que existe hoje. Esses prédios que estão sendo lançados na região, mesmo aqueles destinados para habitação de interesse social com algum tipo de subsídio, muitas vezes não abarcam essa população de baixa renda e são pautados no endividamento”, diz a especialista.
Carmen Lopes, fundadora do Coletivo Tem Sentimento, que também ocupava uma parte do terreno do Teatro de Contêiner, enfrentou ordens de despejo. Ela ressalta que o poder público enxerga esses grupos como inimigos, ignorando o papel fundamental que desempenham onde o Estado é ausente. “A prefeitura pediu o espaço. Para nós foi bem difícil, um processo sofrido. Aqui não conseguimos fazer o mesmo trabalho que lá, por ser um espaço aberto que permitia atender à população em situação de rua”, lamenta Lopes.

Para ela, o poder público entende os coletivos como inimigos. “Nunca haverá diálogo com os coletivos que estão no território da Cracolândia. Na minha opinião, nunca fomos inimigos do poder público, porque o trabalho que fazemos é, de certa maneira, é um trabalho que o poder público deveria fazer.”
O vazio de maio de 2025
Em maio de 2025, ações da GCM e da Polícia Militar passaram a impedir de vez a entrada e saída de pessoas do fluxo, que ficavam confinadas por gradis e atrás de um muro construído pela própria prefeitura. Entre os dias 11 e 13 de maio, uma das quadras em que os usuários se concentravam apareceu vazia.
O esvaziamento, no entanto, teria ocorrido a custo de muita violência, segundo Roberta Costa, antropóloga, redutora de danos e integrante da organização A Craco Resiste. “Eles já vinham com um recrudescimento muito grande da violência aqui. As próprias ações que os movimentos de direitos humanos e de redução de danos faziam estavam sendo reprimidas. No Dia das Mães, que já é uma sacanagem, houve uma operação muito violenta.”
Ela afirma que as pessoas que moram no território relataram, na época, que foram horas de gritos. “Na segunda-feira, chegamos aqui e o fluxo estava limpo, não tinha uma bituca de cigarro no chão, parecia que tinham encerado. Quando chegamos, os guardas civis metropolitanos, que sabem quem somos, disseram que não iríamos encontrá-los, pois eles foram abduzidos.”
Ademais, os relatos colhidos por Costa ainda apontam que muitas pessoas em situação de rua foram colocadas em vans e em ônibus e levadas sem que ninguém soubesse para onde. “Conseguimos falar com um motorista de ônibus que confirmou ter levado um veículo cheio de pessoas em situação de rua e elas não sabiam para onde iam. Houve relatos de que mostravam um celular com uma pessoa assassinada do fluxo e diziam que era aquilo que aconteceria com quem ficasse no centro.”

Filmagens de câmeras policiais mostram pessoas que frequentavam o fluxo sofrendo violências. “Estou aqui há 13 anos. Tem gente com quem eu tinha vínculo há 13 anos. Há relações de amor, afeto, amizade, cuidado e troca de cuidado. Não sei se estão mortos ou vivos”, pontua a redutora de danos.
Giovana Silva, médica redutora de danos do Pagode na Lata, acredita que as conquistas do SUS e da reforma psiquiátrica foram perdidas. “Algumas pessoas realmente precisam começar o uso de medicação por um tempo para se reorganizarem, mas o problema é quando dizem que elas estão sendo cuidadas em equipamentos que não são públicos”, já que existe uma junção do governo do Estado e do município com serviços privados, muitos ligados à religião.
“Para algumas pessoas, o processo religioso pode ajudar, mas essa não é a base de um tratamento em saúde mental. Além disso, essas pessoas estão sendo encarceradas de diversas formas. Através de prisões forjadas ou verificando se há alguma pendência por não ter assinado a carteirinha uma vez. São pegas de novo e colocadas dentro do sistema prisional.”
O que diz a Prefeitura de São Paulo e o governo
A Prefeitura de São Paulo afirma manter um trabalho contínuo de oferta de tratamento e acolhimento, com 40 equipes do Consultório na Rua e uma rede socioassistencial de 27 mil vagas.
Sobre o Teatro de Contêiner, a gestão reitera que a área, ocupada “irregularmente por quase uma década, foi destinada à construção de habitações populares e espaços de lazer como parte do plano de recuperação do centro, alegando ter oferecido alternativas de realocação à companhia durante o processo”.
Já o Governo do Estado de São Paulo destaca que a região central não registra mais a concentração massiva de usuários, resultado de uma estratégia multissetorial que envolve segurança, saúde e assistência.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública, as operações policiais resultaram na prisão de mais de 2.500 pessoas e na apreensão de toneladas de drogas desde 2023. O Estado enfatiza ainda a expansão da rede de cuidado, com a criação de Casas Terapêuticas e do Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, que realizou mais de 38 mil atendimentos, focando na reinserção social e no policiamento ostensivo permanente.

