‘Dívida não é fracasso’: planejadora financeira orienta sobre como negociar no Feirão Limpa Nome sem cair em novas armadilhas

Publicada em

Começou nesta segunda-feira (23) a 35ª edição do Feirão Limpa Nome da Serasaque segue até 1º de abril oferecendo descontos de até 99% para negociação de dívidas. O mutirão, considerado o maior do país, permite renegociações por telefone, aplicativo, site, WhatsApp e presencialmente em mais de 7 mil agências dos Correios.

Mas, diante da oportunidade, surge a pergunta: qual a melhor estratégia para lidar com os boletos acumulados sem comprometer ainda mais o orçamento? Para ajudar os ouvintes a navegar por esse processo, o programa É de Manhãsim Rádio Brasil de Fatorecebeu a planejadora financeira Mariana Banja.

Banja começa lembrando que o endividamento não é apenas uma questão numérica. “As perguntas sobre dívidas passam por muitos lugares. Passam pelos lugares emocionais de dever. Às vezes, dever incomoda as pessoas. As pessoas não dormem, as pessoas têm vergonha.”

Ela conta que, em mais de 200 atendimentos em consultorias, percebeu um padrão. “As pessoas que devem, na maioria, sentem vergonha. Elas têm um incômodo de dever a um parente, à pessoa física de alguém. Já as dívidas de CNPJ, que a gente não vê a cara de quem é do outro lado, aparentemente constrangem menos. Mas a gente não recebe mais a cartinha, o boleto. A gente recebe o dia toda a ligação.”

A educadora ressalta que trazer racionalidade para a dívida ajuda a entender por que se entrou nela e, principalmente, como sair sem repetir o ciclo. Ela lembra que o endividamento no Brasil é alto por uma complexidade de fatores. “Não é só porque as pessoas não gostam de pagar, ou só porque os juros são altos, ou porque o país paga salários baixos. São muitas coisas juntas. Às vezes é só porque a gente ficou sem emprego por dois meses e não tinha reserva. Ou porque a gente teve uma emergência de verdade e precisou de um crédito maior.”

E conclui: “Espelhar essas situações ajuda a pessoa a sair daquele lugar de ‘apenas eu não fui bom lidando com dinheiro’. Às vezes a vida aperta”.

Feirão: oportunidade com planejamento

Sobre o Feirão, Banja reconhece que a ideia é boa porque oferece pagamento de dívidas com desconto. Mas faz um alerta fundamental: é preciso analisar se a prestação cabe no orçamento.

“Se a gente tem o dinheiro todo e paga de uma vez, tá resolvido. Mas algumas dívidas são sugeridas para parcelamento com desconto. O que eu preciso entender? Que aquela prestação que eu tô assumindo precisa caber necessariamente no meu orçamento. Porque senão eu tô dizendo: ‘Vamos fazer o acordo’. No mês seguinte, eu não consigo pagar. Ou seja, eu derrubei aquela negociação no mês seguinte. Isso é ruim pra pessoa, que tocou de novo o fracasso. Isso é ruim pra informação que é gerada sobre aquela pessoa.”

Ela ensina um método simples para avaliar se a parcela cabe nas contas: listar as despesas fixas — aquelas que chegam todo mês, como água, luz, telefone, condomínio, financiamento, plano de saúde — e calcular os gastos variáveis semanais, que ela chama de “semanada”.

“A gente vai calcular quanto gasta por semana em mercado, gasolina, transporte, lazer. Multiplica por quatro. Vamos supor: custos fixos de R$ 2 mil, custos de semana de R$ 500 por semana, R$ 2 mil por mês. Ganho R$ 5 mil. Meu custo deu R$ 4 mil. Consigo assumir um acordo de R$ 50 por mês? Aparentemente cabe. Mas será que tem outro boleto de dívida? Será que tem uma prestação de moto, de carro, um cartão? É preciso fazer essa conta para esse acordo não cair por terra no primeiro momento.”

Contra a empolgação, ela faz uma advertência. “A gente pode se empolgar: ‘Ah, vou pegar tudo parcelado e vai ficar pequenininho’. Vamos fazer a conta pra ver se encaixa de verdade”, destaca.

Banja usa uma metáfora poderosa para explicar a importância de equilibrar o orçamento antes de quitar dívidas. “A gente tá num barco furado. A água entrou no barco, é a dívida. Eu pego a caneca, jogo água fora. Mas o orçamento não tá fechando, o barco tá furado, tá entrando água. Então como é que eu tô pagando dívida se eu tô gerando dívida no mês?”

Ela reforça: “A unidade básica que a gente precisa fechar é a mensal. ‘Mari, mas aí não tem condição de encaixar essa dívida’. Então a gente tem que rever o orçamento. Dá pra cortar alguma coisa pra encaixar o pagamento? Dá pra rever escolhas? Dá pra criar métodos de controle pra gente melhor ao longo do mês? A gente pode começar a discutir renda, procurar um emprego que pague melhor, entender políticas públicas que possam aliviar o encargo”, enumera.

Banja explica que o critério dos juros é fundamental para escolher qual dívida deve pagar primeiro. “Uma dívida de cartão de crédito é certamente o maior juro legal que uma pessoa pagaria no Brasil. Ela deveria ser prioridade, porque o juro é galopante. O cheque especial também é muito alto. Diferente dos juros da conta de telefone, que é mais baratinho. Por regra, a gente deveria atacar as dívidas de juro alto.”

Mas há outros critérios importantes, como a existência de garantias. “Se você tem um financiamento com garantia da sua casa própria, você precisa tomar cuidado. Dívida de condomínio também: se chegar no limite, a pessoa perde o apartamento. A natureza da dívida importa.”

Por fim, há a estratégia emocional. “Dívidas iguais, com pouco capital para pagar, eu gosto de atacar as dívidas pequenininhas. Porque a gente tem a sensação de progresso. Tiro uma de R$ 200, outra de R$ 50. A gente tinha quatro dívidas, tirou três, ficou uma. Isso dá estímulo para as pessoas. O score muda conforme a gente vai pagando.”

Banja encerra com uma reflexão sobre a complexidade do endividamento. “Às vezes, parece fácil entrar na dívida, quase como nessa história do cidadão e da cidadã que só falhou, que não foi bom o suficiente. A gente sabe que não é assim. Como também às vezes é fácil sair, como só sair sem pensar. Não. São contextos. Alguma complexidade para entrar nas dívidas: alguma coisa aconteceu, a gente precisa entender. Alguma coisa também para sair com consciência, para não se tornar um movimento.”

Para ouvir e assistir

Ó É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Source link