A publicação “Com que moral vão me caçar aqui?” surgiu a partir de um projeto acadêmico com o objetivo de destrinchar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, e entender como se deu a construção política que o alçou ao mais alto cargo da República no Brasil.
Pesquisador e autor do projeto, o sociólogo Rodrigo Cassis explica ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fatoque, ainda na década de 1980, momento em que o país vivenciava o início da redemocratização, Bolsonaro se lança como uma liderança jovem. “Talvez não uma liderança da extrema direita, já que isso não era tão bem desenhado naquele momento. Mas talvez seja um fato que não seja muito bem evidenciado sobre a sua trajetória, uma vez que ele é tomado naqueles primórdios como um deputado de baixo clero. Isso é bastante verdadeiro. Mas ao mesmo tempo ele tinha enorme ambição”, relata.
“Ele tentou candidaturas para lugares mais importantes no Executivo, na prefeitura, governador, muitas vezes. Ele sempre ambicionou lugares de maior destaque. Por exemplo, ele sonhou em ser candidato a presidente ou a vice numa chapa com Silvio Santos, veja você, em 1994″, conta.
Para Cassis, ao contrário do que pode se pensar, Bolsonaro não passa a almejar a presidência na esteira da Operação Lava Jato, mas muito antes disso, construindo de maneira hábil essa figura que venceria em 2018 e do próprio bolsonarismo que hoje ocupa o país. “De início, o plano dele era ser o representante dos militares e construir uma bancada multipartidária de deputados militares. Ele queria se tornar o líder dessa bancada e ainda jovem sentar com o presidente da República, ter um lugar de negociação. Os dados da pesquisa apontam que ele também queria se tornar o líder desses militares de baixa patente, insatisfeitos com salários, para que no momento que surgisse uma insatisfação nos quartéis, ele pudesse ser o líder dessa revolta contra o regime na Nova República.”
O sociólogo também dedica parte da pesquisa a mostrar como, em 2010, Bolsonaro passa a fazer parte do imaginário popular com participação no programa Super Pop e a mentira do kit gay. Pouco tempo depois, ele faria coro com questionamento da confiabilidade da urna eletrônica, narrativa que até hoje é forte dentro da extrema direita.
“Ele galvaniza uma narrativa anticomunista que passa a tomar conta de tudo e cria as bases do bolsonarismo tal qual a gente conhece hoje. Então, desde então, e ele quis se candidatar a presidente em 2014, pretendia alcançar novos lugares. Então, esse lugar de líder de uma extrema direita, eu não diria que ele foi jogado lá, mas ele construiu ao longo do tempo e quando as circunstâncias apareceram, ele estava lá pronto para assumir esse lugar”, destaca Cassis.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

