O Golpe Militar de 1964 completa 62 anos nesta terça-feira (31). E é em alusão a esta data, pois no entender das diretoras do filme, a ditadura ainda não acabou nas favelas, que nesta quinta-feira (2) chega às telas dos cinemas brasileiros o documentário Cheiro de Diesel. O longa denuncia violações de direitos humanos em comunidades ocupadas pelas Forças Armadas a partir de decretos presidenciais de Garantia da Lei e Ordem (GLOs) entre 2014 e 2015 que vigoraram em favelas no Rio de Janeiro. A direção é de Natasha Neri e Gizele Martins.
No documentário, moradores das favelas da Maré e da Penha, na zona norte da capital, e do Morro do Salgueiro, em São Gonçalo, relatam a rotina de medo e tensão durante a presença de soldados armados com fuzis e tanques de guerra nas ruas, além dos traumas e violências sofridos.
Para Martins, a reação do público é algo que torna a circulação do documentário bastante necessária. “Quando as pessoas saem das sessões e dizem que desconheciam essas violações, me faz pensar que temos uma cidade realmente dividida e um país que ainda não teve a oportunidade de ver, ouvir e ler memórias como essas vividas por quem mora, por quem vive nas favelas. Com isso me pergunto: Quem está contando nossas experiências e vidas? Nós precisamos nos apropriar desses lugares criativos para que a gente possa chegar a outros públicos”, reflete.
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O longa foi exibido no Festival do Rio, onde recebeu dois prêmios, na Mostra de Cinema de São Paulo e mais recentemente em uma nova exibição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro. Agora, além do eixo Rio-São Paulo, o filme estará em cartaz nas capitais Brasília, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte.
Ela também considera importante o lançamento anteceder as eleições, momento em que é comum o uso eleitoreiro das operações policiais. Em um exemplo mais recente temos a Operação Contenção, a chacina mais letal do país, coordenada pelo governador Cláudio Castro, que teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no último dia 24 de março. “Consideramos estratégico esse filme ser lançado neste ano de eleição, pois nosso objetivo é fazer dele uma grande bandeira de luta contra essas operações policiais e contra as GLOs. E esperamos que isso facilite o debate sobre o que é segurança pública e o que é militarização”, avalia.
Ela acrescenta que é necessário promover consultas públicas sobre o tema de segurança pública nas favelas. “Sabemos que isso na história do Rio de Janeiro não ocorre. Sabemos ainda que nos anos de eleições são as favelas e periferias no Rio de Janeiro que mais sofrem com operações policiais, com aumento da militarização”, finaliza.

