A história da população negra e indígena da Paraíba ganha novas nuances e reflexões no documentário Nos Passos Ancestraisdirigido por Paulo Dantas, com exibição na próxima segunda-feira (27), às 19h, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa.

Com entrada gratuita, o momento contará com um bate-papo com pesquisadores após a sessão, ampliando o diálogo entre cinema, história e memória ancestral. A produção parte de uma investigação pessoal do diretor para discutir questões coletivas relacionadas à ancestralidade e ao apagamento histórico de populações negras e indígenas na Paraíba. Segundo Dantas, o filme nasceu de uma busca íntima, mas ganhou dimensão social ao longo da pesquisa.
A gente aprende a história dos vencedores, uma história branca, da elite – Paulo Dantas

“Eu penso em três motivos para essa fragmentação. Primeiro, voltando para mim mesmo, é a falta de consciência – consciência da história, da história da população negra e da população indígena no Brasil. Eu me considerava pardo, mas não ligava o ‘pardo’ ao negro e ao indígena de forma muito clara. Acho que isso leva a outra questão: a gente não aprende sobre essa história nos livros, na escola. Então, ela não está presente no nosso convívio, nem naquilo que aprendemos sobre o Brasil. A gente aprende a história dos vencedores, uma história branca, da elite.”

Memória fragmentada e história oficial
O curta percorre cidades como João Pessoa, Pilar e Conde, conectando passado e presente para evidenciar como trajetórias de populações negras e indígenas se entrelaçam estruturalmente na formação social do estado. A pesquisa dialoga com estudos historiográficos sobre escravidão e pós-abolição, com base em autoras como Solange Rocha, Matheus Guimarães e Lucian Souza, além das contribuições do antropólogo Estevão Palitot.

Essas pesquisas apontam para um processo histórico de invisibilização dessas populações nas narrativas oficiais. Para o historiador Lucian Souza, a fragmentação da memória está diretamente ligada a esse apagamento. “A memória negra e indígena ainda é fragmentada pelo histórico de apagamento das contribuições desses grupos étnico-raciais para a formação da sociedade brasileira. O audiovisual tem um papel fundamental na construção de outras narrativas sobre o passado e na compreensão do presente”, comenta ele.

Segundo Matheus Guimarães, também historiador, a fragmentação da memória negra e indígena está diretamente ligada a disputas históricas e processos estruturais da sociedade brasileira.
“Em primeiro lugar, quando a gente pensa em memória coletiva, é preciso considerar que ela está envolvida em diversos conflitos políticos, de classe e econômicos que existem na sociedade. Quando pensamos a memória da população negra e indígena, temos que levar em conta que essa memória foi, durante muito tempo, destruída intencionalmente, com a eliminação de arquivos, documentos e registros sobre essas populações. Do ponto de vista do patrimônio, muito do que foi construído por esses grupos também se perdeu, restando, muitas vezes, apenas relatos orais, que são fragmentados e acabam se perdendo ao longo do tempo. Essa memória ainda é fragmentada muito por esse motivo, embora seja importante destacar que, nos últimos anos, há um processo de reorganização e retomada dessas narrativas”, destaca ele.
Guimarães também ressalta que, diante desse cenário, o audiovisual tem se consolidado como uma ferramenta importante na reconstrução dessas histórias, ao permitir a articulação de diferentes registros e experiências. “O audiovisual tem um papel muito importante no sentido de sistematizar, de reunir essas várias narrativas e registros históricos dessa população, dando maior consistência e também facilitando o processo de divulgação e construção de uma memória e de uma cultura histórica mais ampla.”
No Brasil, o debate sobre memória e ancestralidade tem se intensificado nas últimas décadas, impulsionado por pesquisas acadêmicas, movimentos sociais e produções culturais. A Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, e a Lei 11.645/2008, que incluiu a temática indígena, são apontadas por especialistas como marcos institucionais nesse campo. Ainda assim, pesquisadores indicam que a implementação dessas políticas enfrenta desafios, o que contribui para a permanência de lacunas na formação histórica da população. Nesse contexto, como aponta Guimarães, o audiovisual é considerado uma ferramenta relevante para ampliar o acesso a essas narrativas e diversificar as formas de interpretação do passado e do presente.
História familiar como ponto de partida
De acordo com o diretor Paulo Dantas, o projeto teve início a partir de vivências pessoais, especialmente durante o período em que acompanhou a saúde do pai. O contato com relatos familiares despertou questionamentos sobre lacunas na memória e identidade.

“A nossa própria história familiar é fragmentada – pelo menos a da minha família. Falta essa consciência racial, não sei se é exatamente esse o termo, mas há uma desconexão. Muitas pessoas não têm registros dos pais, dos avós, então tudo fica muito solto, muito disperso, por conta da pobreza, de outras necessidades e da baixa escolaridade. É um conjunto de fatores que faz com que essa memória permaneça fragmentada. E ela começa a ser reconstruída à medida que cresce a consciência da população e também com a presença desses temas nos meios de comunicação e no audiovisual”, arremata.
Serviço
Exibição do documentário Nos Passos Ancestrais
Data – 27 de abril
Horário – 19h
Local – Espaço Cultural José Lins do Rego
Entrada – gratuita
Duração – 22 minutos
Atividade extra: debate após a sessão

