Na data em que é celebrado o Dia do Cinema Brasileiro, nesta sexta-feira (19), o Brasil de Fato sugere duas produções para compreender as feridas abertas do planejamento urbano no país: os documentários “Limpam com Fogo” (2016) e “Quem Mora Lá” (2018), produzidos pela Valete de Copas Filmes.
As obras, que estão disponíveis na plataforma de streaming Box Brazil Play, trazem um retrato cru sobre a moradia, a desigualdade urbana e o direito à cidade, que seguem no centro dos principais desafios sociais brasileiros.
Mais do que registros históricos de um passado recente, os dois longas revelam como muitos dos conflitos territoriais documentados há quase uma década permanecem violentamente presentes na vida cotidiana de milhões de pessoas da classe trabalhadora. O resgate dessas memórias ajuda a iluminar o presente e escancara por que a luta por habitação digna continua sendo uma das fronteiras mais importantes da democracia.
Lançado originalmente há dez anos, mas com filmagens iniciadas em 2012, “Limpam com Fogo” investiga a fundo os recorrentes incêndios que atingiram favelas da cidade de São Paulo. O filme destrincha as violentas disputas políticas, econômicas e territoriais que cercam a produção do espaço urbano na maior metrópole do país, evidenciando a lógica excludente que penaliza as periferias.
O documentário reúne depoimentos de personagens que, anos mais tarde, passariam a ocupar posições centrais no debate político nacional. Entre os entrevistados estão Guilherme Boulos (Psol-SP), que na época atuava estritamente como liderança dos movimentos populares de moradia e hoje é deputado federal, e Fernando Haddad, então prefeito de São Paulo e posterior ministro da Fazenda do governo federal.
A produção paulista também conta com a participação de Guilherme Simões, atual secretário nacional de Periferias, além de vozes históricas da denúncia contra a especulação imobiliária. O jornalista Leonardo Sakamotoa urbanista Ermínia Maricato e o arquiteto Nabil Bonduki (hoje vereador pelo PT em São Paulo) contribuem com reflexões profundas sobre a habitação popular e o desenvolvimento das cidades.
Do outro lado do balcão, “Limpam com Fogo“ também mapeia e registra o conjunto de agentes econômicos que ditam os rumos das cidades brasileiras. O mercado imobiliário, as grandes empreiteiras e os interesses fundiários são expostos como os grupos que disputam a valorização da terra urbana em detrimento do bem-estar social.
Contudo, a força do filme não se restringe às figuras públicas e autoridades. O impacto real das políticas de higienização urbana ganha rosto nas histórias e experiências de moradores anônimos como Dona Conceição, Amaral e Senhor Marco Antônio, que traduzem em vivência o que as estatísticas frias não conseguem expressar.
A mesma sensibilidade humana conduz “Quem Mora Lá”, gravado em 2018. O documentário acompanha o cotidiano da comunidade do Pocotó, no Recife (PE), a partir das memórias e narrativas de personagens como Eliane, Senhor Roberto, Adelmo e, especialmente, Dona Madalena. No território pernambucano, o filme desarma visões abstratas e mostra a cidade construída diariamente pelo povo pobre.
Ao revisitar essas duas produções neste ano de 2026, salta aos olhos a atualidade trágica dos problemas retratados pelas câmeras. O déficit habitacional crônico, a insegurança jurídica da posse da terra, os conflitos fundiários e a valorização imobiliária que expulsa os mais pobres para as margens continuam moldando a trajetória de exclusão do povo brasileiro.
Os governos mudaram, as gestões passaram e muitas das lideranças ganharam projeção nacional, mas os dilemas estruturais da moradia no Brasil permanecem inteiramente em aberto. O retorno das obras ao circuito de exibição reforça o cinema nacional como uma ferramenta indispensável de denúncia, memória e mobilização popular.

