‘É a vez da corte africana’: carnaval do Rio está marcado por enredos afrocentrados e homenagens, avalia Paulo Alcantara

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A Marquês de Sapucaí se prepara para mais um desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro com mudanças significativas, que vão da técnica ao conteúdo. De um lado, a evolução tecnológica transforma a experiência visual do espetáculo; de outro, os enredos afirmam cada vez mais a identidade negra e a ancestralidade africana. Quem faz a análise ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fatoé o comunicador, historiador e comentarista de carnaval Paulo Alcantara.

“Tudo começou com o ensaio técnico, agora calculado milimetricamente, com roleta e carimbo para controle de entrada e saída. O segundo passo é o uso da iluminação cênica, pelo terceiro ano consecutivo”, explica Alcantara. Diferente da luz branca chapada que por anos dominou a avenida, a nova iluminação é pensada como parte do espetáculo, com foco milimetricamente ajustado para valorizar fantasias fluorescentes e criar efeitos mágicos. “Esse efeito faz com que o show fique cada vez mais business”, avalia.

Orixás na avenida: a afirmação da identidade negra

Mas é no conteúdo que Alcantara vê a maior transformação. “Todo mundo tinha medo de falar sobre Exu. Muitas pessoas, por má informação de outras religiões, confundem Exu com o diabo. Nunca foi. Exu é o orixá da comunicação”, afirma.

A virada veio com a Grande Rio, campeã de 2022 com um enredo sobre Exu. “Ganhou o campeonato para que viessem outros enredos afrocentrados. A própria Tijuca veio falando de Logun Edé. Outras escolas vieram falando de outros orixás. Você via Exu em quase todos os lugares”, lembra.

O comentarista destaca que a representação dos orixás na avenida passou por um processo de “embranquecimento” ao longo do tempo. “A imagem antiga de Iemanjá era aquela branca, siliconada, com cabelo liso. Foi embranquecida para ser aceita. Hoje a gente sabe que ela não é assim”, destaca. Agora, as escolas buscam uma representação mais fiel às raízes africanas.

Outra forte tendência deste carnaval são as homenagens a personalidades negras e à cultura popular. “A Beija-Flor de Nilópolis, minha escola, ganhou o último carnaval homenageando Laíla e Joãozinho Trinta”, recorda Alcantara. Este ano, a Mocidade homenageia Rita Lee, a Imperatriz Leopoldinense celebra Ney Matogrosso, a Niterói exalta o presidente Lula, e a Viradouro presta tributo ao mestre Ciça, um dos mais premiados diretores de bateria.

“Os quatro melhores sambas-enredo do Rio de Janeiro, na minha opinião, são: Beija-Flor, falando do ‘bem-bé do mercado’, que é um candomblé aberto; a Jucá, com Carolina Maria de Jesus, autora de ‘Quarto de Despejo’; a Vila Isabel, homenageando um grande artista da belle époque carioca; e uma escola que fala sobre Ifá, cultura caribenha. São enredos que nos conectam com nossa ancestralidade”, enumera.

Para Alcantara, a profusão de temas afrocentrados não é modismo, mas resgate histórico. “As escolas de samba surgiram nos morros. Antes de serem escolas, eram grêmios recreativos das comunidades, locais de apoio, assistência, onde se aprendia capoeira, jongo, onde ficavam as curandeiras, as benzedeiras. Nossa ancestralidade é matriarcal”, afirma.

Ele lembra que o Brasil tem 56% de população negra e mestiça. “Rosa Magalhães, a maior campeã da Sapucaí, está sendo homenageada pelo Salgueiro. Ela trouxe muita França, muito rococó, histórias de imperadores europeus. Por que não conhecermos a corte africana? Tá na hora da gente conhecer a nossa história, a nossa trajetória e de onde viemos. África não é um país, é um continente. Não é tudo a mesma coisa.”

Para ouvir e assistir

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