É carnaval e a vida presta!

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Em tempos de Carnaval vemos muitas manifestações contra e a favor da mais emblemática festa brasileira. Mas o que somos nós, o Carnaval? Antes de mais nada o Carnaval é uma grande festa nacional e popular. Mesmo com a influência do mercado, que só o aderiu com o objetivo do lucro, o espírito do Carnaval segue profundo e firme sambando em cima dos inimigos, brilhando e gargalhando euforicamente, e superando as adversidades. Numa apertada síntese: o Carnaval é uma afirmação política e cultural. Em evolução: o Carnaval é um estado de espírito, é uma superação ética e política pela cultura, vivenciada numa cerimônia orgástica, onde todos os anos, se renova o pacto nacional com a vida.

Identificado historicamente pelas classes dominantes e setores conservadores como uma festa da desordem, da bagunça e do caos, o Carnaval foi, e é, demonizado e criminalizado. E por isso, seria desnecessário. Mas quais são os elementos do Carnaval que causam tanto medo ao sistema espoliador e que se alimenta de corpos tristes? Primeiro, para começar, o Carnaval é uma festa, e é festa da praça e das ruas, é acontecimento popular. E na condição de festa do povo ele traz alegria de forma democrática para a vida das pessoas oprimidas.

Em todos os métodos de opressão e de subjugação, o ataque à autoestima de um povo é fundamental para desagregar as pessoas e para tirar a vontade e a fé na luta. Certa vez, quando jovem, ainda nos anos 90, assisti a uma palestra de um embaixador da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Quando perguntado por que os homens-bombas eram, em sua grande maioria, pessoas jovens, ele sentenciou: “Quando se tira a possibilidade de futuro e a esperança de um povo, a sua juventude se lança ao desespero e a tristeza diante do fim certo.” Sim, é verdade. E é por isso que hoje vemos o povo palestino dançando a tradicional Dabke. Esta dança coletiva tem sido uma afirmação de força, amor e resistência, principalmente, quando dançada nas ruínas e nos escombros em Gaza. Portanto, podemos entender que Dabke é uma fagulha de Carnaval, onde se repactua com a vida em meio à tragédia.

Ao longo de tantos anos de colonialismo e de escravidões, os povos brasileiros, que foram impedidos de se reconhecerem enquanto povos e nações e, consequentemente, de viverem as suas culturas, foram dando o seu jeito de se resgatarem, de se reinventarem e de comemorarem as suas existências para além de suas condições de trabalhadores escravizados e explorados. Mesmo diante de um sistema que perseguia brutalmente corpos e mentes, as populações do campo e da cidade acharam uma forma de superar o esmagamento. E a maneira de suplantar tudo isso, foi a de se dar o direito a tudo que lhes era negado ao longo do ano: a alegria, a beleza, a comemoração, as cores, os sons e a abundância artística e erótica. O Carnaval condensa como acontecimento, o ato de ser a afirmação explosiva da vida, de não ser só uma festa, ou uma reunião alegre, é sim a determinação da superação da morte cotidiana e da tristeza dos oprimidos, é a afirmação de que ninguém enclausura espíritos livres, mesmo que os corpos estejam cheios das cicatrizes e carências.

A gente carnavalesca não espera momento bom para brincar o Carnaval, muito pelo contrário, o Carnaval existe justamente para superar as melancolias, as infelicidades, as invisibilidades, as castrações dos sonhos, dos desejos e dos prazeres. O sentido da festa é ela em si mesma, é a alegria de ser alegre, é a felicidade de ser feliz. A gente brinca o Carnaval para espantar as miudezas da vida, para ser grande, para contemplar a existência numa arrebentação alegre e coletiva. E este movimento é a materialização da força cultural e emocional do povo brasileiro, pois quando somos inteiros e verdadeiros culturalmente, não nos apagamos com as dificuldades, nós a enfrentamos sem rancor. Conseguir sorrir sem negar a existência de nossos problemas e até de nossas derrotas é um ato de coragem e de generosidade, pois a vida é feita de perdas constantes. Saber de nossa incompletude e ainda ter ou inventar motivos para estar alegre e ser feliz, é a maior força cultural e emocional da brasilidade.

E para quem só lembra dos problemas carnavalescos, como brigas, acidentes, roubos e até mortes, saiba que o fato gerador desses desacertos não é a festa, são os valores conservadores e as disparidades sociais que objetificam corpos, negam direitos e produzem crimes. Se existem violências sexuais, a culpa não é do Carnaval, é da mente machista criminosa que nega às mulheres o direito de escolha. Portanto, brincar sempre será uma brincadeira, e não um crime.

Para o último grito, afirmo: o Carnaval é a festa do Brasil! É a comemoração da vida de forma coletiva e democrática, é a reinvenção da realidade e a elevação das almas pelos corpos que suam juntos e misturados. Brincar é um ato político de quem gosta de ser gente, e de ser a gente brasileira. Viva o Carnaval! Lute o Carnaval!

* Ecila Meneses é atriz e integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABDJ).

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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