Relatos de desaparecimento de notas, divergências entre boletins e históricos escolares e até reprovações indevidas de alunos marcaram o debate da Comissão Geral realizada na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), nesta quinta-feira (9).
A casa recebeu educadores, gestores e representantes sindicais que defenderam o rompimento do contrato do sistema de gestão escolar EducaDF. Avaliado em cerca de R$ 40 milhões anuais, o sistema tem sido alvo de críticas recorrentes por falhas técnicas, falta de suporte e impactos negativos na rotina das escolas públicas. Os participantes propuseram a retomada do i-Educar, software livre utilizado na rede anteriormente.
A comissão foi organizada pelo deputado Gabriel Magno (PT). A Secretária de Educação, por sua vez, não enviou representante. Para o parlamentar, a ausência representa “mais um desrespeito com a comunidade escolar” que sofre com problemas estruturais na atual gestão.
Magno destacou ainda o alto custo do contrato do EducaDF e anunciou que pretende encaminhar requerimentos à Secretaria de Educação e ao Tribunal de Contas do DF, além de registrar oficialmente as discussões da Comissão. Os relatos apresentados reforçam que o sistema não atende às necessidades da rede.
Transtornos do EducaDF
Falhas na migração de dados do sistema anterior, que comprometeram o início do ano letivo de 2026, além da ausência de treinamento adequado e da sobrecarga dos servidores, foram alguns dos transtornos apontados durante o encontro.
Vice-diretor do Centro de Ensino Médio 2 de Ceilândia, Neemias Araújo, chamou atenção para o impacto que as escolas da rede pública sofrem diante dos problemas causados pelo sistema. “A gestão escolar tenta administrar, mas, mesmo com muita boa vontade, não conseguimos”, afirmou.
O gestor escolar relatou inconsistências graves, como desaparecimento de lançamentos feitos por professores, divergências entre boletins e históricos e erros que chegaram a reprovar indevidamente alunos com frequência suficiente. Segundo Araújo, a pressão para manter dados atualizados mesmo com instabilidade do sistema tem gerado adoecimento entre profissionais, caracterizando um cenário de “assédio institucional”.
O coordenador pedagógico Wagner Medeiros relatou ainda que falhas operacionais podem gerar exclusão social, especialmente em programas como o Pé-de-Meia. “O sistema num primeiro momento exclui socialmente o nosso aluno”, afirmou, ao citar casos em que estudantes são penalizados por faltas em disciplinas que não cursam. Ele também denunciou a sobrecarga administrativa e relatou que para enturmar um único aluno, são mais de 144 cliques, o que tem provocado inclusive lesões por esforço repetitivo em servidores.
Outros problemas incluem erros de alocação de professores, atraso de salários e impossibilidade de acessar dados básicos para atividades pedagógicas, como conselhos de classe. “Eu não sei quem são meus alunos”, relatou, evidenciando a gravidade da situação.

| Crédito: Andressa Anholete/Agência CLDF
A diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Políticas Públicas e Gestão Educacional (SAI) e supervisora de escola em Sobradinho, Andressa Barros da Costa, reforçou que a crise é agravada pela falta de servidores. “O último concurso para secretário escolar foi há 10 anos. A Secretaria sofre com a falta de pessoal e os que restam adoecem por questões como o EducaDF”, afirmou.
Ela criticou a implementação do sistema sem diálogo com quem atua nas escolas. “A sensação é que jogaram o sistema no nosso colo e disseram ‘se vira’. Não houve formação, está todo mundo se virando nos 30”, disse. Andressa também questionou a decisão de substituir o i-Educar, que, segundo ela, atendia às necessidades da rede. Para a diretora, os recursos investidos no contrato de R$ 40 milhões por ano poderiam ter sido utilizados para modernizar o sistema anterior e convocar novos concursados.
Representando o Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), a professora Berenice Darc Jacinto foi ainda mais incisiva ao classificar a adoção do EducaDF como uma decisão política equivocada. “Este sistema não serve para as especificidades das escolas do DF. Os problemas são relatados, mas ninguém da secretaria nos escuta”, criticou.
Ela relatou situações em que estudantes do 3º ano quase perderam vagas na universidade por não conseguirem emitir documentos, sendo necessário recorrer a soluções improvisadas. “Os secretários tiveram que fazer ‘no jeitinho’, à mão, para o estudante não perder a vaga”, contou.
Por fim, Berenice criticou a origem do sistema e sua inadequação à realidade local. O Educa DF é um sistema de gestão educacional contratado da empresa paulista Caixa Informática.
“Brasília não pode importar um sistema que não tem nada a ver com o nosso ‘quadradinho’. Queremos um sistema com o nosso jeito de fazer educação”, afirmou, defendendo o banimento do EducaDF e a construção de uma alternativa coletiva.
Especialistas presentes no debate da CLDF reforçaram que sistemas desenvolvidos internamente ou baseados em software livre, como o i-Educar, permitem maior adaptação às demandas da rede e facilitam a incorporação de sugestões de professores e gestores.
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