Dois projetos devem marcar o debate eleitoral no que diz respeito ao mundo do trabalho: o fim da escala 6×1 e a regulamentação da profissão de entregador e motorista por aplicativo. Nesse cenário, um outro debate se constrói: de que forma os sindicatos têm se posicionado com relação a esses temas e o que a população brasileira deve esperar dos candidatos ligados a pautas dos direitos trabalhistas nas eleições de 2026.
Para debater o tema, o podcast Três por Quatro recebe o cientista político Paulo Roberto de Souza e o ex-presidente do PT e ex-deputado José Genoino.
Souza defende que o campo progressista vem encontrando dificuldade de trazer novas lideranças que dialoguem com as mudanças significativas no mundo do trabalho.
“Quando se veem essas transformações, há uma incapacidade de se transformar, de compreender e reagir por vários motivos, desde as novas lideranças até uma hegemonia de individualismo radical e possessivo, que foi o neoliberalismo nas últimas quatro décadas. Nesse contexto todo, há uma dificuldade de compreender essa representação e de tentar se fazer representante de uma classe trabalhadora muito mais heterogênea e múltipla. E aí o caminho até de sobrevivência acaba sendo um fechamento naquela estrutura tradicional. O que a gente vê é ainda uma adesão histórica à esquerda, inclusive ao PT, nas faixas mais velhas, a partir dos 35, 40 anos. E a gente vê uma juventude, principalmente no caso brasileiro, cada vez mais seduzida pelas lógicas individualistas radicais e até da extrema direita, como as próprias pesquisas de intenção de votos demonstram”, argumenta.
José Genoino concorda que o PT não conseguiu compreender essa mudança no perfil do trabalhador na atualidade, mas acredita que há tempo para tomar outro rumo. Mas, para isso, é preciso entender de onde veio essa transformação. “A reestruturação capitalista no Brasil se dá pela via conservadora, autoritária e positiva, que agrava as contradições sociais do país. Não foi fruto de um pacto de lutas, foi num período de dissenso, principalmente com o golpe de 2016, com a reestruturação que vem nas reformas neoliberais, do fim da legislação trabalhista, do trabalho intermitente, da uberização e agora da tragédia da pejotização, caso isso passe no Senado”, aponta.
“Esse processo de modernização tem os sindicatos como alvo. Nesse sentido, nós não soubemos nos preparar para fazer mudança na legislação sindical, fazer mudança na contribuição sindical, fazer mudança no trabalho de base. Os sindicatos que estão hoje melhor situados foram os que fizeram trabalho de base. Nós não entendemos uma nova classe trabalhadora da uberização e do trabalho informal. E o governo erra nesse sentido, que quer tratar esse trabalhador como empreendedor, escondendo que tem um patrão que é invisível. Hoje você não enxerga esse patrão, mas ele existe. Qual é a relação do Uberizado? É com o patrão que tem a empresa”, esclarece.
Para José Genoino, é preciso rever essa postura e reelaborar o conceito com relação a como encarar esse trabalhador que não é CLT, mas é, sim, assalariado. “Você legalizar sem caracterizar que ele é um trabalhador assalariado, não significa ele voltar para a CLT, significa ele ser portador de direitos. E a questão dos direitos passa a ser um elemento central para discutir a nova classe trabalhadora com elementos da antiga classe trabalhadora e com o conceito amplo de classe trabalhadora, que representa todos aqueles que vivem do seu trabalho e não exploram o trabalho de outro. Eu acho que nós temos que reelaborar uma posição política”, pontua Genoino.
Confira o programa completo:
Para ver e ouvir
Ó videocast Três Por Quatro vai ao ar toda terça-feira às 15h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.

