Em Berna, conferência denuncia agravamento do bloqueio dos EUA à Cuba e reforça solidariedade

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A Associação Suíça‑Cuba realizou, na última sexta-feira (17), em Berna, a conferência “Unblock Cuba – Conferência de Solidariedade”, no espaço cultural Stellwerk. A iniciativa integrou o calendário europeu da campanha Unblock Cuba e reuniu movimentos juvenis, representantes de associações solidárias de diferentes cantões suíços, integrantes da comunidade cubana residente no país e convidados nacionais e internacionais. O encontro ocorreu em um momento marcado pelo agravamento do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos à Cuba, que já dura mais de seis décadas.

A conferência contou com a participação da médica pediatra Aleida Guevara, filha de Ernesto Che Guevara, e do jornalista e ensaísta cubano Enrique Ubieta, que se encontram em turnê pela Europa, participando de debates públicos, encontros e conferências em diferentes países. Ao longo dessa agenda, ambos têm dialogado com públicos diversos sobre a grave situação enfrentada por Cuba, os impactos do bloqueio norte‑americano e os desdobramentos do atual cenário internacional.

Aleida Guevara e Enrique Ubieta têm dialogado com públicos diversos sobre a grave situação enfrentada por Cuba | Crédito: Mônica Cabanas

No debate em Berna, Enrique Ubieta apresentou uma análise histórica e política da conjuntura. Segundo ele, a situação atual não pode ser compreendida como uma crise circunstancial, mas como resultado de um processo prolongado de asfixia econômica, estruturado ao longo de décadas e intensificado nos últimos anos.

Ubieta explicou que os mecanismos do bloqueio se manifestam de forma concreta no cotidiano do país. “Navios que atracam em Cuba ficam proibidos de entrar em portos dos Estados Unidos durante meses. Bancos se recusam a realizar transações. Cuba não pode operar em dólares”, afirmou, destacando o papel do sistema financeiro internacional como instrumento de pressão.

A crise energética foi apontada por ele como um dos aspectos mais graves desse processo. “O problema da eletricidade não é apenas a luz. Sem energia, param a indústria, os hospitais e os serviços essenciais. Cirurgias, unidades de terapia intensiva e equipamentos médicos dependem diretamente disso”, disse.

Em sua análise, Ubieta alertou ainda para a instabilidade do atual cenário geopolítico, marcada pela intensificação de conflitos e pelo enfraquecimento de mecanismos multilaterais. Ainda assim, ressaltou que existe disposição para o diálogo, desde que respeitados limites fundamentais. “Há conversas possíveis, mas não há negociação sobre a dignidade e o modelo político do país”, afirmou.

Ao tratar da tradição de solidariedade internacional praticada por Cuba, Ubieta recordou a atuação dos médicos cubanos durante a pandemia da covid‑19, particularmente na Itália. O jornalista relatou que esteve pessoalmente acompanhando as brigadas médicas cubanas enviadas a regiões como Turim e a Lombardia, no auge da crise sanitária em 2020.

Segundo ele, o impacto dessa experiência se prolongou além do período da missão: ao regressarem a Cuba, os profissionais foram encaminhados aos centros de quarentena e, durante o trajeto dos ônibus, moradores saíram às portas de suas casas para aplaudir e demonstrar apoio ao trabalho realizado. Para Ubieta, o episódio sintetiza o sentido da solidariedade internacionalista praticada por Cuba, mesmo em meio às restrições impostas pelo bloqueio.

Ao longo do encontro, Aleida Guevara participou do debate e do diálogo com o público, trazendo reflexões à partir de sua experiência profissional e de sua atuação internacional na área da saúde. Entre os pontos destacados por ela esteve a ênfase no papel de Cuba como polo científico e biotecnológico. Aleida lembrou que, durante a pandemia da covid‑19, o país desenvolveu cinco vacinas próprias, fruto de décadas de investimento público em ciência. Ela citou ainda pesquisas na área oncológica, incluindo ensaios clínicos de vacinas terapêuticas contra o câncer de pulmão, além de estudos em andamento voltados ao câncer de útero e de próstata, e medicamentos destinados ao tratamento de complicações do diabetes, como as úlceras do pé diabético.

Segundo Aleida, muitos desses estudos, relevantes não apenas para Cuba, mas também para outros países e sociedades, encontram‑se hoje paralisados ou seriamente comprometidos diante da intensificação do bloqueio, que tem dificultado o funcionamento cotidiano dos centros de pesquisa e o deslocamento de seus pesquisadores.

A conferência contou com a presença da Embaixadora de Cuba na Suíça, Laura Ivet Pujol Torres, que já atuou no Brasil | Crédito: Mônica Cabanas

A conferência contou ainda com a presença da Embaixadora de Cuba na Suíça, Laura Ivet Pujol Torres, que já atuou no Brasil como cônsul‑geral de Cuba no Nordeste, com sede em Salvador, Bahia. Ao comentar a conjuntura atual, a embaixadora situou o momento vivido por Cuba como particularmente grave, marcado pelo agravamento do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos e por seus efeitos diretos sobre o funcionamento do país e a vida da população.

Segundo Torres, os impactos do endurecimento do bloqueio atingem diretamente o cotidiano. “Estamos vivendo uma situação muito complexa, do ponto de vista econômico e político, com apagões prolongados e dificuldades no funcionamento do país em toda a sua extensão”, afirmou. Para a diplomata, trata‑se de um cenário sem precedentes recentes. “São condições como as que eu, em toda a minha existência, não havia visto Cuba atravessar.”

A embaixadora destacou ainda a importância da solidariedade internacional diante desse contexto. Para ela, o apoio de outros povos e organizações é fundamental, mas deve ir além de ações pontuais. “Toda forma de solidariedade é importante, mas é essencial dar visibilidade ao que está acontecendo com Cuba”, disse.

Torres alertou que, mais do que respostas de caráter humanitário, o momento exige responsabilidade política. “O que mais precisamos neste momento é que se respeite o direito do nosso povo de viver sem coerção e que se evite uma escalada de confronto, que hoje representa uma ameaça real.”

Ao final da conferência, a Associação Suíça‑Cuba realizou um gesto de forte caráter simbólico ao entregar a Aleida Guevara e Enrique Ubieta uma mala a cada um, repleta de medicamentos. A iniciativa buscou traduzir em ação concreta as reflexões e debates realizados ao longo do encontro, reforçando a ligação entre a denúncia pública do bloqueio e formas diretas de apoio material diante do agravamento das restrições impostas à Cuba.

O gesto integra um esforço mais amplo da Associação, que promove uma campanha nacional de doações ao longo de todo o mês de abril. Durante esse período, cada cidade‑polo de coleta organiza atividades próprias – como encontros públicos, atos informativos, debates e mobilizações locais – com o objetivo de incentivar as doações e ampliar a visibilidade da situação enfrentada em Cuba. A campanha articula solidariedade material, informação e engajamento político, reafirmando o caráter contínuo das ações conduzidas pela Associação Suíça‑Cuba.

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