A Índia abriu, na segunda-feira (22), a 16ª Reunião de Conselheiros de Segurança Nacional do Brics em Nova Délhi, capital do país, com delegações de dez membros do grupo. O encontro, que se estende até terça-feira (23), tem como tema central “Desafios de segurança não tradicionais que confrontam o mundo hoje” e inclui discussões sobre o papel das novas tecnologias nas ameaças emergentes à segurança.
Os conselheiros também revisaram os resultados dos Grupos de Trabalho Conjunto do Brics sobre Contraterrorismo e sobre Segurança no Uso de Tecnologias da Informação e Comunicação, segundo o jornal indiano Tempos de Lokmat. Às margens da reunião plenária, o anfitrião Ajit Doval, Conselheiro de Segurança Nacional da Índia, fez uma série de encontros bilaterais com as delegações da China, Irã, Brasil, África do Sul e Etiópia.
Doval recebeu Carlos Marcio Bicalho Cozendey, secretário de Assuntos Multilaterais Políticos do Brasil, que chefia a delegação brasileira na reunião. Os dois lados destacaram a cooperação entre Índia e Brasil no marco do Brics e revisaram o estado geral das relações bilaterais.
O encontro ocorre quatro meses após a visita de Estado do presidente Lula à Índia, em fevereiro, quando os dois países assinaram dez acordos, incluindo um pacto de cooperação em minerais críticos e terras raras, além de acordos em energia renovável e defesa. Na ocasião, Brasil e Índia estabeleceram a meta de elevar o comércio bilateral para US$ 30 bilhões (R$ 171 bi) até 2030, partindo dos US$ 15,2 bilhões (R$ 87 bi) registrados em 2025, segundo o Tribuna Índia.
O Brasil transferiu a presidência rotativa do Brics para a Índia em 1º de janeiro de 2026, após sediar a cúpula de líderes no Rio de Janeiro em 2025.
Diálogo sino-indiano
Na bilateral com Doval, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, destacou que as relações entre os dois países “saíram gradualmente de seu ponto mais baixo e retomaram uma trajetória de recuperação e melhoria”, segundo a agência Xinhua. A relação entre os dois países passou por um momento crítico a partir de 2020, quando um confronto entre soldados chineses e indianos no vale de Galwan, na região fronteiriça entre os dois países, resultou em mortes de ambos os lados.
O ministro chinês reiterou o entendimento de que China e Índia são parceiras, não concorrentes, e que isso “constitui o consenso estratégico mais importante entre as duas partes, fornecendo impulso e garantias estratégicas para o desenvolvimento saudável e estável das relações sino-indianas”.
O ministro acrescentou que, como as duas economias mais populosas do mundo, China e Índia “não devem apenas encarar as relações bilaterais com uma perspectiva de longo prazo, mas também promover a cooperação em uma perspectiva global”. Wang Yi ainda enquadrou a relação entre os dois países na ascensão coletiva do Sul Global: “O Sul Global, incluindo a China e a Índia, está em ascensão coletiva”.
Os países do Brics, “como força líder no Sul Global, devem defender e promover ativamente o processo de multipolarização, salvaguardar os direitos e interesses legítimos dos países em desenvolvimento e promover o desenvolvimento da ordem internacional em uma direção justa e razoável”, afirmou o ministro, segundo a agência chinesa.
Wang Yi disse ainda que a questão da fronteira sino-indiana deve ser colocada “em uma posição apropriada, evitando afetar a situação geral das relações bilaterais” e pediu que os dois países acelerem a restauração dos mecanismos de diálogo e promovam intercâmbios nas áreas de comércio, finanças, segurança pública e mídia.
Doval disse, por sua vez, que os encontros entre os líderes dos dois países nas cúpulas do Brics em Kazan e da Organização de Cooperação de Xangai em Tianjin definiram o rumo para as relações bilaterais. “A Índia foi um dos primeiros países a reconhecer a República Popular da China e sua posição sobre a questão de Taiwan permanece inalterada”, afirmou o conselheiro indiano, segundo a Xinhua. Doval acrescentou que Nova Délhi está disposta a “defender conjuntamente o multilateralismo e salvaguardar os direitos e interesses legítimos dos países em desenvolvimento”.
O Ministério das Relações Exteriores da Índia classificou as conversas como “construtivas e voltadas para o futuro”, segundo a Notícias Akashvani.
China e Irã: memorando de entendimento com os EUA
Wang Yi também se reuniu com Ghadir Nezamipour, vice-secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã. O ministro chinês afirmou que Pequim saudou “o início das consultas entre o Irã e os Estados Unidos”, com a cooperação do Paquistão e do Catar, com base no Memorando de Entendimento assinado entre os dois países, segundo a CFTV.
Wang Yi disse que as 14 disposições do memorando foram “conquistas arduamente alcançadas” e afirmou que a implementação efetiva do documento “ajudará a consolidar a situação de cessar-fogo, abrir novas perspectivas para as relações Irã-EUA e contribuir para a paz no Oriente Médio”.
O ministro reafirmou que a China, “como parceira estratégica abrangente do Irã, sempre manteve uma posição justa e apoiou todos os esforços conducentes à paz”, além de apoiar “o Irã na defesa de sua soberania, segurança e dignidade nacional”, segundo a CFTV.
Nezamipour afirmou que o aprofundamento da parceria estratégica integral entre Teerã e Pequim “é consenso de todos os setores no Irã”. O representante iraniano expressou a expectativa de que a China “continue desempenhando um papel importante na facilitação da implementação efetiva” do memorando com os Estados Unidos, segundo a CFTV.
Índia, África do Sul e Etiópia
Doval também se reuniu com Khumbudzo Ntshavheni, ministra na Presidência da África do Sul. Ambos discutiram laços bilaterais, identificaram áreas de cooperação para o desenvolvimento e trocaram avaliações sobre a conjuntura regional e global, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Índia.
Com Million Lema Tadesse, diretor executivo de Análise do Serviço de Inteligência e Segurança Nacional da Etiópia, o conselheiro indiano explorou formas de aprofundar a Parceria Estratégica Índia-Etiópia.
É a quarta vez que a Índia assume a presidência rotativa do Brics, após 2012, 2016 e 2021. O tema da presidência indiana em 2026 é “Construindo Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”.
A reunião contou com os representantes dos cinco membros fundadores do grupo (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e de cinco dos integrantes mais recentes: Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito, Indonésia e Etiópia.
Além dos já mencionados, pela Rússia, a delegação é chefiada por Sergey Shoigu, secretário do Conselho de Segurança. Pelos Emirados Árabes Unidos, por Ali Mohammed Hammad Al Shamsi, secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Pelo Egito, por Alaa Youssef, chefe do Serviço de Informações do Estado. Pela Indonésia, por Yayat Ruyat, vice de Geoeconomia do Conselho Nacional de Resiliência.

