Fazer do luto, luta. A frase representa bem a forma como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) lida com a memória dos companheiros que “tombaram” e o sentimento de impunidade relativo aos seus algozes. Há um ano, uma marcha pacífica pelas ruas do Recife (PE) foi interrompida por um atropelamento contra o militante Gideone Menezes, resultando na sua morte dias depois. Há 30 anos, em 1996, policiais militares emboscaram e assassinaram 21 sem terras em Eldorado dos Carajás (PA), deixando outros tantos feridos. Só dois militares foram condenados pela chacina.
O caso que ficou conhecido como “massacre de Eldorado dos Carajás” chocou o mundo. E o Movimento Sem Terra, mais uma vez, transformou o luto em luta, dando início ao “Abril Vermelho”, uma jornada de lutas por reforma agrária, com ocupações de terra em todos os estados em que o movimento está presente. Este ano, em Pernambuco, o MST já realizou 14 novas ocupações de terra até o momento. A mais recente foi neste sábado (18), quando 70 famílias ocuparam as terras improdutivas da fazenda Heleno Paulo, em Cupira, região Agreste do estado. Capangas têm tensionado o ambiente para expulsar as famílias.
Antes de Cupira, outras quatro ocupações no Agreste montaram acampamento nas fazendas Minador (com 50 famílias), entre os municípios de Caetés e Pedra; fazenda Vado Marcolino (100), em Jataúba; uma ocupação em Taquaritinga do Norte, com 600 famílias; e uma segunda na Fazenda Minador, esta em Saloá (100 famílias). As cinco ocupações no Agreste reúnem 920 famílias na luta por reforma agrária. No Sertão do estado, ocupações nas fazendas Sítio Ponta da Ilha (350 famílias), em Cabrobó, e Pontalino (aproximadamente 1.500 famílias), em Lagoa Grande, somam mais 1,8 mil famílias sob as lonas pretas da luta pela terra.
Na Zona da Mata, três ocupações somam cerca de 550 famílias, em terras da Fazenda Raiz, em Amaraji (150 famílias); do Engenho Cajoca, em Pombos (300 famílias); e da Estação Experimental de Itapiretama, vinculada ao Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), em Goiana.


Na Região Metropolitana do Recife, quatro ocupações no município de São Lourenço da Mata somam mais de 1,1 mil famílias nas trincheiras. Elas estão em ocupações no terreno da Cidade da Copa (300 famílias), em terras da Usina Bulhões (283), no engenho Camaçari (280) e no engenho Curupaty (180 famílias), somando cerca de 1.000 famílias. Com exceção das terras do projeto Cidade da Copa, próximo à Arena Pernambuco, as demais ocupações são todas em terras arrendadas pelo grupo empresarial Petribu, que planta cana-de-açúcar e cria bovinos para o abate.
Em entrevista ao Brasil de Fatoum dos coordenadores do MST na Região Metropolitana explica que o MST já possui um assentamento naquela região, o assentamento Maria Paraíba, onde vivem 83 famílias nas antigas terras do Engenho Colégio. Mas, apesar da área demarcada, o grupo Petribu estaria invadindo aquelas terras e entrando em conflito com a comunidade rural. A reação do MST se deu nestes meses de março e abril, ocupando áreas ainda ociosas do assentamento e expandindo para os territórios vizinhos, ocupando a Usina Bulhões e os engenhos Camaçari e Curupaty.
“São áreas que reivindicamos há muito tempo e eles tentam nos expulsar da região”, diz José Severino da Silva. Na região, uma outra comunidade rural já estabelecida, de nome Matriz da Luz, decidiu se vincular ao MST buscando ter força política. “Um morador da comunidade, até evangélico, foi assassinado a tiros porque seguranças de uma usina vizinha acharam que ele estava chupando cana. A comunidade se revoltou e buscou apoio para ter mais voz contra essas injustiças”, explica o coordenador.
Ó Brasil de Fato entrou em contato por e-mail com o grupo Petribu, mas até o momento não obtivemos resposta. Caso a empresa tenha interesse em se posicionar, acrescentaremos à matéria.

