A ex-presidente brasileira e atual chefe do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, participou, nesta sexta-feira (15), da 11ª Reunião Anual da instituição, realizada em Moscou. O encontro, promovido pela primeira vez na capital russa nos dias 14 e 15 de maio, teve como tema “Financiamento do Desenvolvimento em uma Era de Revolução Tecnológica”.
O seminário reúne altos funcionários governamentais, ministros das finanças e representantes de bancos centrais, além de especialistas e líderes políticos, para avaliar e traçar as perspectivas de desenvolvimento das economias emergentes. Em seu discurso de abertura, Dilma Rousseff deu o tom das discussões ao destacar o agravamento da instabilidade da economia global a partir da crise no Oriente Médio.
Segundo ela, “a economia global vem enfrentando instabilidade, conflitos geopolíticos crescentes, aumento de medidas unilaterais, guerras comerciais, volatilidade financeira e restrições tecnológicas, que exercem enorme pressão sobre todos os países do mundo”.
“Estamos nos reunindo hoje em um momento em que o sistema internacional atravessa um evento ainda mais impactante com a guerra e a invasão no Oriente Médio. Esses efeitos vão muito além da dinâmica imediata do conflito. É verdade que há um impacto regional afetando todos os países do Oriente Médio, mas também é verdade que existem enormes implicações geopolíticas e geoeconômicas internacionais”, afirmou.
Outro aspecto destacado pela ex-presidente brasileira como causa para a instabilidade global são as sanções econômicas e os bloqueios comerciais. Dilma alertou para os impactos dessas medidas sobre cadeias estratégicas de suprimento, lançando uma luz sobre os desafios enfrentados pelas economias mais vulneráveis.
De acordo com a chefe do Novo Banco de Desenvolvimento, “entre os riscos que já afetam os mercados globais, atenção especial deve ser dada à capacidade disruptiva das sanções unilaterais, que agravam a escassez em mercados já tensionados de petróleo, gás e fertilizantes em meio aos bloqueios no Oriente Médio”.
“Tais medidas não apenas interrompem o comércio e cadeias críticas de suprimento para os países sancionados, elas também criam restrições de mercado com custos significativos, inclusive para os países que impõem as sanções. É isso que vem acontecendo em algumas partes do mundo, principalmente na Europa”, acrescentou.
O Banco dos Brics foi criado em 2015 com o objetivo de financiar projetos de infraestrutura e iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável nos países emergentes. A proposta é fortalecer uma arquitetura financeira mais multipolar, baseada na cooperação entre os países do Sul Global e menos dependente das estruturas tradicionais dominadas pelo Ocidente.
Em meio ao cenário de instabilidade geopolítica, uma das principais estratégias do Novo Banco de Desenvolvimento é ampliar o uso de moedas locais nas transações entre os países membros. Atualmente, cerca de 46% das operações do banco já são realizadas fora do dólar, em moedas nacionais. Para a ex-presidente brasileira, a transição em moedas nacionais entre os países do Sul Global e do Brics é um “instrumento de resistênca e resiliência” em meio aos problemas causados pela instabilidade global.
Foi o que também destacou o economista estadunidense, Jeffrey Sachs, durante a sua intervenção no primeiro dia da conferência.
“Nós precisamos de um sistema de pagamentos fora do dólar. E os Brics são essenciais e únicos para construir esse sistema de pagamentos fora do dólar. Isso está funcionando, está acontecendo. E eu acho que o Novo Banco de Desenvolvimento pode exercer um papel importante”, afirmou.
“Na medida em que a geopolítica global muda para um mundo multipolar, nós precisamos acabar com as residuais guerras de hegemonias. (…) E a multipolaridade é um fato. E aceitar este fato é um caminho pacífico para o futuro”, acrescentou.
Para Dilma Rousseff, tal conjuntura impõe que os desafios econômicos enfrentados pelos países do Sul Global passem diretamente pela capacidade de investir em inovação e transformação tecnológica. Mas segundo ela, não é possível ter desenvolvimento sem olhar para os países do Sul Global.
“Esses temas apontam para uma realidade comum: desenvolver-se hoje é inseparável da transformação tecnológica e da capacidade dos governos, instituições e também dos sistemas financeiros de orientar essa transformação em favor do interesse público. Eles também deixam claro que o desafio diante de nós é garantir que o progresso tecnológico não aprofunde desigualdades, mas se torne um motor de inclusão, produtividade e soberania”, concluiu.

