Em Pernambuco, João Campos lança pré-candidatura, exalta Lula e provoca Raquel Lyra sobre disputa nacional: ‘a história nos cobra e a gente precisa ter posição’

Publicada em

Na tarde desta sexta-feira (20), num auditório lotado na zona sul do Recife, o prefeito da capital pernambucana e presidente nacional do PSB, João Campos, confirmou o que todos já sabiam: ele quer disputar o Governo de Pernambuco em outubro e, a partir de agora, é pré-candidato. O ato político reuniu dezenas de lideranças políticas, de líderes comunitários a ministros de Estado, em apoio ao nome de Campos, que busca derrotar a atual governadora, Raquel Lyra (PSD). O desafiante falou abertamente de sua provável chapa, tendo Carlos Costa (Republicanos) como vice, além de Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT) para o Senado.

Sobre a chapa, João Campos adotou o discurso de “união” e “posicionamento”. “Estou rodeado exatamente de quem eu acredito e de quem eu queria que estivesse ao meu lado. Quem apostou na divisão da Frente Popular foram aqueles que trabalham contra o povo. Nós estamos mais unidos do que nunca”, bradou, em claro recado para a adversária Raquel Lyra (PSD), que chegou a convidar a ex-deputada Marília Arraes (agora no PDT) e o ministro Sílvio Costa Filho (Republicanos) para disputar o Senado na chapa dela.

O mesmo discurso foi adotado pelo presidente estadual do MDB, o ex-deputado federal Raul Henry. “Esta é uma chapa que tem o mais importante numa campanha eleitoral: posição política, unidade, uma chapa que tem lado na grande luta política. E o nosso lado é o lado da democracia”, pontuou, antes de fazer elogios nominais a Humberto Costa, Marília Arraes, Carlos Costa e João Campos. A pré-candidata ao Senado endossou. “Aqui ninguém tem medo de dizer que somos do time do presidente Lula. Política se faz tendo lado e coragem para estar no lado que às vezes é o mais difícil”, disparou Arraes.

O líder do PSB também fustigou a adversária por sua “neutralidade” quando o tema é o embate nacional, batendo também nos seus ex-aliados do PP e do União Brasil. “A gente precisa de gente que vista a camisa. Um momento como este (do Brasil) a história nos cobra. Se Lula não fosse presidente, todos esses parlamentares aqui presentes poderiam estar presos ou exilados fora do país. Então precisamos ter posição”, cobrou João Campos. Até o momento, os indicativos são de que a governadora Raquel Lyra adotará a mesma estratégia de 2022, quando não se posicionou sobre a disputa entre Lula e Bolsonaro, buscando atrair votos de ambos os lados.

Lula
Raquel Lyra (PSD), Lula (PT), Janja da Silva, João Campos (PSB) e Tábata Amaral (PSB-SP) da esquerda para direita

Apesar do discurso sobre uma chapa coesa e coerente com o projeto nacional, uma semana antes deste evento João Campos ainda se reunia com o bolsonarista Eduardo da Fonte (PP), que desejava ser candidato ao Senado pela Frente Popular. Outro aliado bolsonarista, Miguel Coelho (União Brasil), também buscava a vaga, mas perdeu prestígio após a operação da Polícia Federal, no fim de fevereiro, tendo como suspeitos ele, seu irmão e seu pai. Campos cogitava montar uma chapa majoritária que dialogasse com a direita e a esquerda, mas o risco de sua adversária levar Marília Arraes e Silvio Costa Filho o fez mudar de ideia.

Marília elogiou a composição da chapa para o Senado. “Tenho muita honra de estar aqui e por saber que a outra vaga na nossa chapa será ocupada pelo Partido dos Trabalhadores, o maior partido de esquerda da América Latina. Cada eleitor pode votar em dois senadores, então vocês têm dois nomes comprometidos com o projeto do presidente Lula”, afirmou, em referência a Humberto Costa (PT).

“O tempo do PT”

O senador do PT não participou do ato político, apesar de ser candidato à reeleição e dado como certo na chapa liderada por Campos. O PT ainda não bateu o martelo sobre a estratégia eleitoral de 2026, algo que deve ocorrer no próximo fim de semana (28 e 29). Mas o partido foi representado pela senadora Teresa Leitão e outras lideranças petistas apoiadoras de Campos. O partido tem duas secretarias na gestão municipal do Recife.

A senadora Teresa Leitão (PT) disse ter “certeza de que esse é o lado em que o Partido dos Trabalhadores estará” e pregou, dirigindo-se à ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos (PCdoB), que seus partidos precisam que o Partido Verde (PV) – que forma a federação partidária com PT e PCdoB – também suba no palanque. “Não pode cada um ir para um lado”, enquadrou Leitão. O PV no estado é comandado pelo deputado federal Clodoaldo Magalhães, que já foi do PSB, mas fez inimizades, deixou o partido e hoje é aliado de Raquel Lyra.

Irmão do ministro Silvio Costa Filho, economista e empresário Calos Costa (Republicanos) deve estrear numa eleição já como candidato a vice-governador
Irmão do ministro Silvio Costa Filho, economista e empresário Calos Costa (Republicanos) deve estrear numa eleição já como candidato a vice-governador | Crédito: Vinícius Sobreira / Brasil de Fato

João Campos fez gestos simpáticos para o PT e sua militância. “Preciso fazer uma referência a Teresa. Com sua história, você jamais estaria numa posição diferente. Saiba do meu respeito por você, pelo Partido dos Trabalhadores e por todos os que fazem o PT. Tenho certeza que nós estamos no mesmo projeto: garantir a reeleição do presidente Lula e dar um palanque forte para ele em Pernambuco”. O líder do PSB avalia a eleição nacional deste ano como “desafiadora, nada fácil”.

Em outro momento, Campos elogiou a condução do presidente nacional do PT, Edinho Silva, na condução dos diálogos internos do partido. “A gente, enquanto dirigente, tem que entender o tempo um do outro. Conte com a minha compreensão e respeito em relação ao tempo de construção do PT. Mas a gente vai construir, dentro do nosso partido, da nossa frente, o nosso tempo dos anúncios”, pontuou.

O pré-candidato a vice-governador, Carlos Costa (Republicanos), economista e disputando sua primeira eleição, disse ter o “compromisso fundamental de reduzir essa chaga da desigualdade social no país” e rasgou elogios ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). O pré-candidato a vice-governador foi brevemente introduzido pelo seu irmão e ministro dos Portos e Aeroportos. “Carlos não é ‘o irmão de Silvio’. Ele é um cara profundamente preparado, de espírito público e capacidade de trabalho”, resumiu Silvio Costa Filho.

“Eu estou pronto para ser governador”

Aos 32 anos, João Campos se afirma preparado para governar o estado que seu pai, há exatos 20 anos, também foi escolhido para governar. “Meu sentimento é o de que passei a vida me preparando. Fui testado a vida inteira. Perder o pai como perdi, enfrentar eleições como enfrentei, assumindo muita responsabilidade com pouca idade: meu sentimento hoje é que tudo isso faz sentido e que estou pronto para ser governador de Pernambuco”, discursou o prefeito do Recife, prometendo uma campanha “limpa, propositiva e altiva”.

O prefeito tem como uma de suas “marcas” na gestão da capital a disposição e as muitas horas diárias dedicadas aos trabalhos de gestão e da política. Ele afirma que essa “energia” será percebida na campanha. “Vou percorrer todas as cidades de Pernambuco. Estarei nas ruas, na feira, na porta da escola, na porta da igreja, na zona rural, na grande cidade, na cidade pequena e no distrito. Se os políticos locais estiverem comigo, eu estarei lá. Se não estiverem comigo, eu entro no meio do povo e monto uma tribuna”, discursou Campos.

Após 5 anos como prefeito do Recife, João Campos (PSB) é pré-candidato ao Governo de Pernambuco
Após 5 anos como prefeito do Recife, João Campos (PSB) é pré-candidato ao Governo de Pernambuco | Crédito: Vinícius Sobreira / Brasil de Fato

Enquanto falava dos aliados e da importância de construir um projeto que vá além dos anseios individuais, Campos afirmou que “o que nos une é construir para Pernambuco um projeto que atenda as expectativas do povo mais sofrido, que nunca teve oportunidade na vida, para que voltem a sonhar, ter esperança e acordar de manhã cedo e dizer que o dia será melhor que ontem. E isso depende da política, depende deste time que está aqui”, pontuou.

A ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos (PCdoB), pontuou que “a luta é feita por ideias, convicção, competência e capacidade de tirar tudo isso do papel. E temos visto isso no Recife sob a liderança de João Campos”. O presidente estadual do PSB, deputado Sileno Guedes, disse que “o povo de Pernambuco está convocando João Campos para que, onde hoje tem tapumes, ele construa unidades de saúde, escolas técnicas e traga mais segurança”.

Inimigo do meu inimigo é meu amigo

João também fez gestos de agradecimento ao ministro da Previdência, Wolney Queiroz (PDT), a quem chamou de “construtor de pontes”. Há menos de uma semana, o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, mostrava disposição de levar o partido para a chapa de Raquel Lyra. A atual governadora tem sua principal base em Caruaru, onde seu grupo político é rival dos Queiroz – o ministro Wolney e seu pai, o ex-prefeito José Queiroz.

O pré-candidato também agradeceu ao deputado Álvaro Porto (Republicanos), presidente da Assembleia Legislativa e desafeto público da governadora. “Você sabe a gratidão que eu tenho e como você foi importante para essa unidade de hoje”. Porto foi figura importante na campanha que levou à vitória de Raquel Lyra, em 2022, quando ambos eram filiados ao PSDB. “Do lado de lá existe ingratidão, mentiras e falsas promessas, placas mostrando que irão construir algo, ordens de serviço que não realizam serviço nenhum”, fustigou o deputado.

Quem também discursou foi a prefeita do município de Jupi, Rivanda Freire, que apesar de gerir um discreto município de 15 mil habitantes, foi escolhida a dedo para passar um recado aos prefeitos pernambucanos. “Eu sou uma soldada sua no Agreste de Pernambuco. Sou do PSD (partido da governadora), mas vim porque sei que você é o melhor para o nosso estado”, resumiu.

Source link