Imaginem uma Casa Bar Galeria Macunaíma Arte e Gastrô que consegue unir, difundir e tocar o barco com todas as variedades possíveis de cultura, arte, educação, história, gastronomia, e revelar o Brasil de Sul a Norte com quadros, desenhos, frases, palavras, poesias, músicas, filosofias, políticas, psicanálises e muitas, mas muitas conversas mesmo sobre qualquer assunto possível. Pois é, isso existe na rua da República, 153, na miscelânea e amplitude da Cidade Baixa, em Porto Alegre. Ali, o artista Tales Pacheco, 49 anos, e a multicultural e também advogada Mag Tiburi, 54 anos, criaram com as próprias mãos e muita criatividade tudo que se vê e se observa no prédio de dois andares.
O impacto de quem entra é imenso. Não tem como andar, sentar e fazer um pedido qualquer ou pedir uma bebida qualquer. Com as paredes lotadas de frases, quadros, desenhos, bonecos, lembrando o Brasil real, suas regiões e suas características. Tudo feito, pintado e escrito com dedicação e alta voltagem de emoção. Até Paulo Freire, patrono da Educação brasileira, está ali presente, como Anita Garibaldi, heroína da Revolução Farroupilha, ou o cineasta do pavor, Zé do Caixão, ou ainda Saci, folclórico personagem do imaginário brasileiro.

Tem até uma Sala do Cordel – a literatura caracterizada por folhetos rimados, pendurados em cordas e ilustrados com xilogravuras, com grande destaque no Nordeste e reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2018. A sala é cheia de bonecos e materiais nordestinos.
É um lugar diferenciado, define Tiburi – a Mag, irmã da filósofa e comunicadora Márcia Tiburi, famosa por seus livros e por sua linha progressista de atuar e falar, que ali volta e meia realiza eventos e debates sobre assuntos de suas múltiplas especialidades. Pacheco vai além: “Nosso Macunaíma é um centro multicultural onde há uma perfeita coexistência, aceitação e valorização de diversas culturas, etnias e tradições em um mesmo local. Uma figura vinda de um livro que passou na vida de todos nós”.

Sabores de todos os cantos do país
Claro que a gastronomia é um dos pontos altos do lugar. Comida de boteco, com os mais variados nomes, os mais variados sabores e produtos de cada canto do país. Lá não tem aquelas comidas que você encontra em qualquer lugar. É comida diferenciada, com gostinho especial, com nomes curiosos e exóticos. Pacheco cuida das comidas e Tiburi dos drinques.
Macunaíma é uma vivência. É uma maneira de ver o mundo, de olhar para as pessoas e de propor um resgate daquilo que foi apagado com a invasão, o genocídio, o estupro e o apagamento cultural dos povos originários – violências impostas pelo colonizador e perpetuadas por um sistema que segue favorecendo o patriarcado, destacam seus amigos e frequentadores. Na rua, na entrada, está também um manifesto contra o feminicídio, com nomes de mulheres mortas, sapatos e um caixão funerário.

O local existe há três anos e se tornou uma referência – como tantas coisas da Cidade Baixa. E foi se fazendo aos poucos, os dois botaram a mão na massa. Tudo que ali está vem deles, das suas ideias e das suas leituras e do que acreditam no mundo: amor, afeto, cultura, gastronomia, arte, troca, amizade, responsabilidade, coletividade.
Eles dividem com os seus clientes os conhecimentos e experiências com paciência e carinho. Explicam cada detalhe do que fizeram, fazem ou farão, sem perder a ligação com a ancestralidade e com o anticolonialismo. “Materiais que usamos nos quadros vieram do lixo, como acrílico, papelões, sprays, tinta nanquim. Tudo rápido e custo quase zero”, garante Tales.
O livro de um herói sem caráter

Macunaíma, o herói sem nenhum caráterlivro de 1928 e obra-prima de Mário de Andrade, origem do nome do local, representa o Brasil de todos os tipos e gêneros e é próprio para o que se vê ali. O livro foi escrito em pouco tempo sobre as origens e as especificidades da cultura e do povo, narrando a história do herói índio Macunaíma, desde seu nascimento na selva até sua morte e transfiguração, uma trajetória movimentada e aventuresca, em que é ajudado por seus irmãos e outros personagens, em busca de uma pedra mágica, o muiraquitã, que havia recebido de seu grande amor, Ci, a Mãe do Mato, mas que fora perdida e acabara em posse de Piaimã, um gigante comedor de gente que vivia como abastado burguês em São Paulo. Há pratos no bar com todos esses nomes feitos com cuidadoso carinho.

A obra é de difícil classificação no sistema dos gêneros literários, pois sua estrutura tem elementos de muitos estilos combinados. No entanto, é muito elogiada como um experimento linguístico e literário extraordinariamente bem-sucedido, que esconde sua erudição na aparente facilidade com que integra modos de falar e elementos de crônicas, lendas, ditados e contos folclóricos do Brasil em uma narrativa coerente, vigorosa, ágil e cativante. Pacheco e Tiburi se espelharam nesta viagem pela cultura de Andrade – teatro, música, cinema, literatura, gastronomia e bebidas, claro – para montar o seu espaço.

“Abrimos espaço para saraus, shows musicais, aulas, palestras e brevemente teremos no segundo andar lugar para aulas de gastronomia e também de teatro”, afirma Pacheco. “Aqui é a nossa Afropindorama, conceito filosófico, político e pedagógico que propõe a união das sabedorias dos povos africanos com as dos povos originários (indígenas) do Brasil. O termo foi popularizado pelo ativista e mestre quilombola Nêgo Bispo (Antônio Bispo dos Santos) como uma forma de contracolonialismo. Até a Umbanda e suas divindades têm o seu local de reverência”, assinala.
Prato Elza Soares
Na Bienal do Mercosul realizada em 2025, a casa foi escolhida, através de edital, como um lugar gastronômico, apresentando um prato novíssimo chamado de Elza Soares, cantora e compositora, eleita pela BBC de Londres como a cantora do milênio: é constituído de bolo de feijão, linguiça paio, couve frita crocante parecida com o cabelo crespo da personagem. A 14ª Bienal do Mercosul foi realizada de 27 de março a 1º de junho de 2025, com o tema “Estalo”, reunindo 77 artistas de 30 países em 18 locais.

Outro fato destacado por Pacheco e Tiburi é que o bar é solidário e prestigia pequenos produtores locais, cerveja artesanal, frutas, verduras. “Temos até uma videira e uma planta de maracujá no nosso pátio. E uma oferta de comidas ítalo-gaúchas, como pizzas e risotos.
A pizza é servida em um barco, relembrando tempos farroupilhas. Nada é industrializado, com exceção dos vinhos que possuem diversas procedências. Tudo sai de nossas cabeças. E também, para acompanhar o ritmo das comidas, apresentamos artistas com composições autorais e que precisam de espaço para mostrar seu trabalho”, reforçam. “Temos o hábito e a cultura de tocar para frente tudo que é nosso”.

Serviço
Endereço: Rua da República, 153 – Cidade Baixa – Porto Alegre
E-mail: (e-mail protegido)
Telefone: (51) 98288-8080
Instagram: @macunaimagastrobar
Abertura: 18h
Fechamento: 24h

