Encerramento do Bem Viver Pampa destaca impacto da assistência técnica na produção camponesa

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A execução de uma política pública voltada à agricultura familiar e camponesa mobilizou centenas de pessoas no Assentamento Meia Água, em Hulha Negra, no sul do estado, nesta quinta-feira (26). O Seminário de Encerramento do Ater Bem Viver Pampa reuniu famílias camponesas, técnicos, cooperativas, movimentos sociais e representantes do governo federal para apresentar resultados, avaliar desafios e defender a continuidade da assistência técnica como estratégia de permanência no campo.

Executado pelo Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) em parceria com a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), o programa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) Bem Viver Pampa foi lançado em 2023 e atende 500 famílias em 14 municípios da região sul do Rio Grande do Sul. Ao todo, 1.324 pessoas foram beneficiadas diretamente, com destaque para a participação das mulheres rurais, que representaram cerca de 70% do público atendido.

Produção camponesa, agroecológica e solidária
Produção camponesa, agroecológica e solidária | Crédito: Divulgação/ICPJ

Voltado à recuperação e à gestão de recursos hídricos no bioma Pampa, o projeto atua tanto no abastecimento para consumo humano quanto na produção de alimentos, articulando infraestrutura, orientação técnica e planejamento produtivo. As ações envolvem captação e armazenamento de água da chuva, proteção de nascentes, manejo adequado do solo e incentivo a sistemas agroecológicos capazes de reduzir a dependência de insumos externos e aumentar a resiliência das famílias.

Os números apresentados durante o seminário sintetizam parte desse esforço: 128 cisternas implementadas, 33 nascentes protegidas, 110 famílias com acesso a fomento rural, 78 quintais agroflorestais implantados e 94 famílias fortalecendo o cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). Também houve universalização do acesso ao PAA Sementes nos municípios atendidos.

Frei Sérgio, presente! Frei Sérgio, semente!

Ao longo do dia, ficou evidente que os dados são apenas uma dimensão do processo. Agricultores relataram que a assistência técnica tem sido determinante para enfrentar perdas provocadas por eventos climáticos extremos e para reorganizar a produção. No salão da comunidade Nossa Senhora de Fátima, sementes crioulas, mudas, frutos e cartazes compunham a mística que abriu o encontro, que teve a memória de Frei Sérgio Görgen, falecido no início de fevereiro, permeando toda a programação em homenagens e nas falas dos presentes.

Frei Sérgio foi diretor do ICPJ e é referência histórica na articulação entre movimentos sociais, igreja e políticas públicas no campo. Ao longo do seminário, foi lembrado por sua atuação junto a agricultores familiares e camponeses, assentados e organizações populares. Sua foto, seu hábito franciscano e sua trajetória estiveram presentes na atividade. A ausência física foi associada à responsabilidade coletiva de dar continuidade ao trabalho construído ao longo de décadas.

Equipe do ICPJ e representantes federais homenageiam Frei Sérgio | Crédito: Divulgação/ICPJ

Novo coordenador do ICPJ, Frei Wilson Zanatta afirmou que o seminário marcou não apenas o encerramento formal de uma etapa do projeto, mas a reafirmação do compromisso institucional com as famílias do campo. Ele recordou sua convivência de mais de 30 anos com Frei Sérgio e destacou que o Instituto foi criado para ser “um guarda-chuva dos movimentos sociais”, articulando diferentes organizações em torno de quem mais precisa.

“Ninguém vai substituir o Frei Sérgio, dele eu aprendi muita coisa e agradeço a Deus”, disse. Segundo Zanatta, o trabalho do ICPJ segue orientado pela ética, pela honestidade e pela prioridade aos mais pobres, mantendo a assistência técnica como instrumento de transformação social.

Panorama nacional e impacto local da assistência técnica

Fre Zanatta: "O trabalho do ICPJ segue orientado pela ética, pela honestidade e pela prioridade aos mais pobres"
Fre Zanatta: “O trabalho do ICPJ segue orientado pela ética, pela honestidade e pela prioridade aos mais pobres” | Crédito: Marcelo Ferreira

O ato político contou com diversas falas. Do ponto de vista institucional, representantes do governo federal apresentaram um panorama nacional da política de assistência técnica. O gerente de Programas e Projetos da Anater, Francisco Caramuru Paiva, informou que atualmente há 12 programas constituídos nas 27 unidades da federação, alcançando quase 500 mil famílias em todo o país. Segundo ele, a retomada e ampliação da assistência técnica nos últimos anos têm buscado combinar orientação produtiva, inclusão social e adaptação às mudanças climáticas.

Ele classificou o Ater Bem Viver Pampa como referência dentro da agência, tanto pelos resultados alcançados quanto pelo modelo de execução. “A equipe do Padre Josimo desempenha um dos melhores trabalhos que a agência tem desenvolvido no governo do Lula”, afirmou. Para Caramuru, o diferencial do projeto está na capacidade de articular universidade pública, movimentos sociais, cooperativas, associações comunitárias, sindicatos e prefeituras em torno de um mesmo objetivo, garantindo que a política pública chegue de forma integrada às famílias que necessitam.

O vice-prefeito de Hulha Negra, André Bexiga, afirmou que as ações desenvolvidas pelo projeto impactam diretamente o desenvolvimento local, especialmente nos assentamentos do município. “Além de uma prestação de contas de todas as ações que o Instituto desenvolve aqui dentro do nosso território, principalmente dentro dos territórios dos assentamentos, são ações importantíssimas que buscam o desenvolvimento local, seja na produção de água, na distribuição de sementes crioulas, na assistência técnica”, declarou. Disse que as iniciativas devem ter continuidade e reforçou que aprendeu com Frei Sérgio que fé e política podem ser instrumentos “para a promoção da paz e a redução das desigualdades”.

A articulação com universidades foi destacada como parte estratégica da iniciativa. Professora da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Jaqueline Durigon ressaltou que a diversidade produtiva preservada no Pampa é resultado direto da ação de agricultores, movimentos e instituições. Segundo ela, a extensão rural voltada aos sistemas agroecológicos amplia a soberania alimentar e fortalece a conservação do bioma. A docente afirmou ainda que a parceria com o ICPJ e cooperativas demonstra que a produção de conhecimento pode estar integrada à vida concreta das famílias.

Representando a comunidade anfitriã, Arlete Pinto, assentada conhecida como Preta, saudou a presença de famílias de diferentes assentamentos e de representantes vindos de Brasília. Ao mesmo tempo, apresentou uma demanda concreta: que os próximos projetos incluam políticas voltadas ao cuidado das mulheres do campo.

“Não só levar projetos para o trabalho, para o desenvolvimento da agricultura, mas sim para o cuidado e autocuidado das mulheres. Porque às vezes você tem o dinheiro, você tem o que fazer, mas tua autoestima tá lá embaixo por causa de uma violência que muitas mulheres sofrem”, afirmou. Para ela, o debate sobre produção precisa caminhar junto com o debate sobre dignidade e proteção: “Cuidar bem da terra, cuidar do meio ambiente, cuidar da vida das mulheres”.

Superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no estado, Nelson Grasselli destacou a importância de integrar assistência técnica, crédito e regularização fundiária. Ele relembrou sua própria trajetória como acampado e assentado, quando conheceu Frei Sérgio, e afirmou: “Cada uma e cada um de nós tem que fazer um pouco mais para seguir esse legado”. Para Grasselli, o desafio agora é transformar os resultados apresentados em política permanente de Estado.

Francisco Caramuru Paiva: “A equipe do Padre Josimo desempenha um dos melhores trabalhos que a agência tem desenvolvido no governo do Lula” | Crédito: Divulgação/ICPJ

Movimentos pressionam por orçamento e política permanente

A defesa da continuidade e ampliação das políticas públicas marcou as intervenções dos movimentos sociais. Plínio Simas, da coordenação nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), lembrou os 30 anos da organização e a partida de Frei Sérgio, que integrava a coordenação do movimento, e afirmou que a agricultura familiar enfrenta um período de grandes dificuldades, agravadas por crises climáticas e instabilidade política. Segundo ele, será necessário ampliar a mobilização para garantir orçamento, crédito e assistência técnica nos próximos anos.

O coordenador regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Luiz Flávio Abreu, mais conhecido como Kiki, recordou que a região de Hulha Negra já foi marcada por grandes propriedades e baixa densidade populacional. Para ele, projetos como o Ater demonstram que a reforma agrária pode gerar produção, renda e permanência no campo. Defendeu ainda que a assistência técnica seja ampliada para acampamentos e novas áreas, incorporando também tecnologia apropriada à agricultura familiar.

Em nome das cooperativas, Emerson Capellesso, diretor da Cooperativa de Produção e Trabalho Integração Ltda (Coptil), afirmou que a diversificação produtiva é condição para enfrentar a crise climática e as oscilações de mercado. Segundo ele, transformar a pequena propriedade camponesa em um modo de vida mais saudável passa pela produção diversificada e pela oferta de alimentos de qualidade. “A produção de alimentos é extremamente importante para que a gente possa transformar a realidade. A gente vem de um momento de crise, do ponto de vista da agricultura”, disse.

Cappellesso defendeu a construção de um Plano Camponês no próximo período, articulando assistência técnica, crédito e um conjunto de políticas públicas estruturantes. “Nós precisamos ampliar os projetos de assistência técnica, eles têm que vir junto com o governo, junto com crédito”, afirmou, ao sustentar que a permanência das famílias no campo depende de integração entre produção, organização coletiva e presença do Estado.

Homenagens e política agrícola

Presente no evento, o deputado federal Dionilso Marcon (PT-RS) recordou Frei Sérgio, coordenador do projeto, como “um companheiro lutador”, indignado com a situação do povo, estudioso e destemido. “Frei Sérgio escolheu trabalhar para o povo, os pobres, essa era a igreja dele. Ele defendia a vida do povo, os negros, os índios, os sem-teto, as mulheres e os idosos”, afirmou.

O deputado federal Alexandre Lindenmeyer (PT-RS) também relembrou Frei Sérgio e destacou a importância do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e da formulação de políticas públicas voltadas à agricultura familiar. “Quando a gente está aqui na resistência da agricultura familiar, na luta da agricultura familiar, na defesa do bioma Pampa, na defesa da diversidade de culturas, na defesa de dizer que é possível a gente lutar por soberania alimentar, por alimentação saudável, na defesa das pessoas poder ter renda através da terra. Isso é que nos anima.”

Avaliação institucional e desafios

também anunciou que o ministério vai realizar uma nova chamada pública de assistência técnica para a região
Cecília Teixeira anunciou que o MDA vai realizar uma nova chamada pública de assistência técnica para a região | Crédito: Divulgação/ICPJ

O encerramento contou com apresentação dos números do projeto e avaliação de representantes do governo federal. Cecília Teixeira, que integra a Secretaria da Agricultura Familiar, do MDA, parabenizou a organização e os resultados apresentados. “Parabéns pela organização do evento e por todos esses resultados que vocês apresentaram. O MDA e a nossa coordenação são parceiros de vocês, e a gente está disponível, de portas abertas”, disse.

Ela também apontou limites orçamentários do governo federal e o cenário de disputa por recursos. “A gente está num grupo político, a gente vive num campo de disputa para que a gente consiga executar e operacionalizar na forma que a gente acredita que a política deveria chegar à população.”

Segundo Teixeira, a experiência no território contribui para reformulações em nível federal. “Acho que é importante escutar o depoimento de vocês, porque, a partir dessa experiência aqui, com o pé no território, é que a gente volta para Brasília reformulando.”

A representante do MDA também anunciou que o ministério vai realizar uma nova chamada pública de assistência técnica para a região. A iniciativa dará continuidade às ações desenvolvidas junto às famílias agricultoras do território, que segundo o ICPJ receberá o nome de Ater Bem Viver Pampa 2 – Frei Sérgio, em homenagem ao histórico defensor da agricultura familiar, da agroecologia e da organização popular no campo. O anúncio foi recebido com aplausos de pé pelos participantes do seminário.

Resultados “aquecem o coração”

Isabel Silva: "O Bem Viver Pampa demonstra essa relação e essa construção com as outras políticas públicas"
Isabel Silva: “O Bem Viver Pampa demonstra essa relação e essa construção com as outras políticas públicas” | Crédito: Divulgação/ICPJ

A gerente executiva da Anater, Isabel Silva, afirmou que os resultados “aquecem o coração”, especialmente para quem atua na extensão rural, função que ela já desenvolveu. “O território é um território de vida e a gente tem que dialogar com as outras partes da vida, que não é só a produção”, disse, ao destacar que renda, infraestrutura e acesso a serviços públicos fazem parte do desenvolvimento rural. “O Bem Viver Pampa demonstra essa relação e essa construção com as outras políticas públicas e com as outras áreas da vida, cisternas, proteção de fontes.”

Ela ressaltou o compromisso institucional com a perspectiva do desenvolvimento sustentável. “A Anater tem esse comprometimento com o desenvolvimento rural sustentável, com territórios, com pessoas e com pessoas felizes. Estamos muito felizes e seguimos agora também com o Instituto nos outros programas”, citando outros programas de assistência executados pelo ICPJ no estado.

Caramuru completou a avaliação afirmando que o programa tem produzido transformações concretas. “O trabalho do Bem Viver Pampa é coroado de muito sucesso e de transformação da vida dos homens e mulheres que participam desse programa”, disse.

Plantar árvores

Estudantes da Escola do Campo Chico Mendes
Estudantes da Escola do Campo Chico Mendes | Crédito: Divulgação/ICPJ

O evento contou com apresentação de projetos desenvolvidos por alunos da Escola Estadual Chico Mendes, escola do campo localizada nos assentamentos da região. Também foram lidas moções de aplausos que a Câmara Municipal de Hulha Negra aprovou destacando o trabalho executado pelo ICPJ no município.

Camponeses e camponesas beneficiados pelas iniciativas do Instituto Cultural Padre Josimo, como projetos de fomento rural e construção de cisternas, compartilharam depoimentos emocionados. Nos relatos, destacaram o impacto das ações na melhoria do acesso à água, no fortalecimento da produção e no aumento da renda. Ao final do encontro, foram distribuídas mudas de árvores para os participantes levarem e plantarem em suas propriedades, como gesto simbólico de continuidade do legado e da memória de Frei Sérgio.

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