Recuo no financiamento dos países em desenvolvimento, pressão contra a ciência e na agenda para mudanças climáticas marcaram o encontro preparatório para a 31ª Conferência sobre Mudanças do Clima das Nações Unidas (COP 31), que se encerrou na semana passada em Bonn, na Alemanha.
A 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários (SB64) da Convenção do Clima (UNFCCC) reuniu 194 países, mais a União Europeia, sem a presença, já previsível, dos Estados Unidos. O encontro acabou em falta de consenso sobre as principais propostas para alternativas e mitigações às mudanças climáticas. O final da reunião provocou “decepção” entre diversos ambientalistas, aponta o artigo “Na conferência de Bonn, até o passado é imprevisível”assinado pelo coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo, e pela especialista em mudanças climáticas Stela Herschmann.
“A palavra mais ouvida entre os delegados que permaneceram em Bonn para o encerramento era ‘decepção’. Alguns manifestaram falta de confiança no processo multilateral. Ninguém assumiu a culpa por nada”, escrevem os especialistas.
Negociações sobre financiamento climático para mitigação, adaptação e sinergias foram bloqueadas durante os debates e adiadas, em consenso, para a COP31, que acontece na Turquia no final do ano.
No ano passado, em Belém, a Decisão Mutirão, documento aprovado ao final da COP30, estabeleceu um programa de trabalho para tentar atender à demanda dos países pobres por financiamento público para o combate à crise do clima, mas esta agenda oficial sumiu no encontro da semana passada, ficando apenas uma força-tarefa para continuar as discussões.
“O debate a respeito da composição da força-tarefa que vai refinar os 59 indicadores aprovados em Belém mostra a complexidade do processo de negociação, marcado por divergências de visões entre países sobre esse ponto e sobre financiamento para adaptação, o que levou à falta de consenso, adiando as negociações para a COP31, na Turquia. Financiamento e apoio aos países em desenvolvimento são um debate central para a agenda climática e para a implementação de medidas adaptativas”, afirmou Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil.
Outro ponto sensível foram medidas que podem atrasar a atualização dos dados sobre os impactos das mudanças climáticas, que estarão disponíveis na sétima versão (AR7) do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU), programada para 2028.
China e Índia, membros do G77, vêm trabalhando para adiar a publicação do AR7, por interesses próprios. Em março, a China divulgou, na versão preliminar do seu 15º Plano Quinquenal, uma mudança na sua meta de redução das emissões de carbono no país para 17% até 2030. Para os cientistas, para o cumprimento do compromisso do Acordo de Paris, o país asiático precisaria apostar em 23%.
No mesmo mês, a Índia apresentou, depois de um ano de atraso, duas das quatro metas para 2030 como parte da atualização de sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC): reduzir a intensidade de suas emissões em 45% abaixo dos níveis de 2005 até 2030 e aumentar a participação de energia não fóssil na matriz energética para 50% até 2030.
Segundo o Climate Action Tracker, projeto científico que monitora as ações climáticas com base no Acordo de Paris, “ambas as metas são mais ambiciosas do que as propostas originais”, “mas nenhuma delas resultará em reduções reais de emissões”.
Já a Arábia Saudita, cuja economia depende das exportações de petróleo e gás, opôs-se a que as resoluções de Bonn expressassem preocupação com o El Niño, além da resistência à atualização do IPCC.
A tentativa de negligenciar a ciência teve reação de alguns países, como a União Europeia e os chamados Países Menos Desenvolvidos (LDCs, na sigla em inglês), que representam 44 países considerados os de mais baixa renda. O grupo se reuniu para dizer que “a ciência não é negociável”.
“Existem interesses poderosos desesperados para proteger sua riqueza e sua influência”, declarou Sivendra Michael, chefe da delegação de Fiji, país insular ameaçado pelo aumento do nível dos oceanos, devido ao aquecimento global.
Mapa do caminho
Discutido no início do ano na Colômbia, um dos poucos avanços do encontro foi a atualização do esforço de escrever um mapa do caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis no mundo. Ao todo, 115 países e 247 atores não estatais enviaram contribuições ao documento, o que o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, que protagoniza a sistematização dos dados, considerou “acima do esperado”. O documento final deverá ser lançado em Belém, pouco antes do início da COP 30.

