‘Era um ano muito, muito pesado’: Danilo Caymmi revisita anos 1970, memórias do pai e desafios da canção política hoje

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“Era um ano muito, muito pesado.” A frase do músico Danilo Caymmi se refere a 1973, quando sua canção Viola Fora de Moda, em parceria com Edu Lobo e Capinam, abria um espetáculo em meio à ditadura militar. Mais de cinco décadas depois, o artista volta a esses tempos no show Canções dos Anos 70, que apresenta no Sesc com repertório que atravessa o chamado “desbunde” e a resistência cultural.

Neste sábado (14), o Bem Viverprograma do Brasil de Fatoentrevista Danilo, filho de Dorival Caymmi, irmão de Nana e Dori, e um dos arquitetos musicais do movimento Clube da Esquina, que revisita essa memória com olhos no presente. “A gente tem uma parte importante nesse show de informar o que se passou naquela época. Graças a Deus o cinema brasileiro está trazendo isso com filmes premiadíssimos. É importante que as pessoas parem de relativizar. Os anos foram muito perigosos”.

Compositor de Andançasucesso imortalizado por Beth Carvalho e terceiro lugar no Festival Internacional da Canção de 1968, mesmo ano do AI-5, Danilo lembra com humor e afeto da criação da música, feita na casa da própria Beth, em parceria com Paulinho Tapajós e Edmundo Souto. “O Paulinho dizia que são duas canções que se namoram. E eu acho que é a grande força dessa música”.

A canção completará 60 anos em 2028, um feito raro num cenário que Danilo vê com preocupação. “Não é qualquer música que consegue atravessar tanta geração. Mas eu não sei até quando a gente vai ter uma mídia que favoreça essa reciclagem. O dinheiro manda, o algoritmo manda”.

Para ele, a transformação digital — e o que virá com o processamento quântico — ameaça a profundidade da criação musical. “Você depende do algoritmo para lançar uma música. Vale a pena investir num álbum caro se o retorno é tão raso? É um momento que favorece uma música popular, que não se aprofunda.”

Censura, política e o valor da cultura

Danilo vê com apreensão o momento brasileiro. “Não é um momento fácil, de se ganhar uma eleição de pessoas, o lado sensato do Brasil, e perde às vezes por um lodo que se subiu de repente, que até para mim foi um estranhamento muito grande, de você ter que brigar pelo lado bom, pelo lado sábio sensato, é completamente difícil, não é um momento simples”, reflete.

Ele também critica a disseminação de discursos que desvalorizam a cultura. “Essa conversa errônea de que cultura não gera dinheiro… Você está num palco, tem equipe de som, iluminação, produtores. Tudo isso movimenta uma cadeia importante. Me decepciona que se dê valor à ignorância”, afirma.

Dorival, Jorge Amado e o candomblé

A conversa também passeia pelas memórias afetivas e espirituais. Danilo fala da relação com o pai, Dorival Caymmi, e com Jorge Amado, grandes amigos. “Eles estavam integrados. Às vezes, papai encontrava Jorge no Mercado Modelo e perguntavam como estava o livro. Ele respondia: ‘Tá indo, tá indo, confundi com o Dorival Caymmi’.”

Sobre a fé, Danilo lembra que, assim como o pai, pertence ao candomblé. “Ele era obá de Xangô, uma proteção cultural dentro do candomblé. Vivi muito isso, a importância das festas populares na Bahia, que hoje se espalham pelo Brasil.”

A relação com a cultura baiana está impregnada na obra de Dorival. “Ele trouxe da Bahia o cheiro, a informação. Viveu no Rio, frequentava a colônia de pescadores, tem estátua lá até hoje. Mas é tão baiano, tão enraizado, que impressiona”, conta.

Perguntado sobre a responsabilidade de levar o legado do pai adiante, Danilo desconversa com sabedoria. “Não existe responsabilidade, não. A gente aprendeu muito com ele, discutia as coisas. Mas o que fica é a ousadia. Meu pai era ousado na música. E eu passo isso para minha filha: você tem que ousar, experimentar.”

O show de Danilo Caymmi no Sesc é um convite a revisitar um tempo em que a música precisava ser “maquiada de amor” para furar a censura, mas também um lembrete de que a canção popular sempre foi território de disputa e de resistência. “A maioria das canções não são tão objetivas porque a gente tinha uma censura muito atuante, muito forte. Não só na música, mas no teatro, no cinema”, explica.

O repertório passeia por composições de nomes como Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Novelli e Nelson Ângelo — parceiros com quem Danilo dividiu estúdios e palcos em um tempo que ele descreve como “quase um trabalho comunitário”.

“Eu tocava flauta no disco do Lô, eles tocavam no meu disco, a gente vivia revezando”, recorda. Para o músico, o show é mais do que uma retrospectiva: é um “reavivio” pessoal, uma chance de revisitar com maturidade e emoção um período que marcou sua trajetória artística e afetiva. “Foi um reavivio completamente integrado. Acho que é por isso que está dando certo.”

E tem mais…

Neste episódio o Bem Viver traz também um abrigo de silêncio e existência, em São Luís (MA). O Cafuá das Mercês, lugar onde a palavra africana quimbunda ganha corpo e a resistência negra pulsa em cada parede marcada pelo tempo.

Em Belo Horizonte (MG), o cuidado com o meio ambiente começa na infância e vira carnaval. Davi Henrique e o Bloco da Floresta convidam crianças e famílias pra brincar, fantasiar e aprender — porque proteger o planeta também pode ser festa.

Em Jarinu, interior de São Paulo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) transforma solo degradado em agrofloresta e conhecimento no Centro Agroecológico Paulo Kageyama, onde a ciência, saber popular e formação política se encontram pra recuperar a terra, formar trabalhadores e abrir caminhos pra universidade.

E da terra direto pra mesa! A chef Gema Sotto ensina uma panqueca doce, fácil e cheia de sabor — daquelas que cabem no dia a dia e aquecem o coração.

Quando e onde assistir?

Nenhum YouTube faz Brasil de Fato todo sábado às 13h30, tem programa inédito. Basta clicar aqui.

Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília no Canal 15 da NET.

TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.

Sintonize

No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h às 8h, com reprise aos domingos, às 10h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.

O programa conta também com uma versão especial em podcasto Conversa Bem Viver, transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

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