Estados Unidos fortalecem sua presença militar no Equador com ‘operações conjuntas’

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No último domingo (25), o subsecretário de Guerra dos Estados Unidos para as Américas, Joseph Humire, reuniu-se em Quito com as principais autoridades equatorianas na área de segurança. Participaram do encontro o ministro do Interior, John Reimberg; o ministro da Defesa, Gian Carlo Loffredo; o comandante do Comando Conjunto das Forças Armadas, Henry Delgado; e a chanceler Gabriela Sommerfeld.

Após a reunião, o ministro do Interior, John Reimberg, fez uma breve declaração à imprensa, qualificando o encontro como “uma reunião importante”. Ele afirmou que Equador e Estados Unidos realizarão este ano “operações estratégicas conjuntas” e garantiu que os planos “já estão definidos”, sem, no entanto, revelar detalhes.

“Vamos atacar e destruir aqueles que estão atacando os equatorianos e quem gera economia criminal; isso é o que se pode esperar”, declarou.

Por sua vez, o Ministério da Defesa do Equador destacou que a reunião reflete a consolidação do país como “um dos principais parceiros de segurança” dos Estados Unidos na região. O chefe do Comando Conjunto, Henry Delgado, informou que será incorporada nova tecnologia estadunidense para reforçar a vigilância, a inteligência e o controle territorial. Além disso, indicou que as operações conjuntas se concentrarão na fronteira norte, compartilhada com a Colômbia, e na rota do Pacífico.

O encontro ocorre após o governo de Daniel Noboa anunciar, na semana passada, que o Equador aplicará tarifas de 30% sobre produtos colombianos, alegando déficit comercial com a Colômbia e a suposta falta de esforços de Bogotá na segurança fronteiriça.

O crescimento da insegurança e a justificativa para a repressão

O encontro faz parte de um processo mais amplo de alinhamento do Equador com a estratégia de segurança da administração de Donald Trump, centrada em supostas operações conjuntas contra o narcotráfico e o “narcoterrorismo”. Assim como Peru e Panamá, o Equador se consolida como um dos principais parceiros estratégicos para o desdobramento militar dos Estados Unidos na região andina e no corredor do Pacífico.

A colaboração militar com Washington se desenvolve sob a retórica de enfrentar o crime organizado, que afeta gravemente o país. Nos últimos anos, o Equador passou de ser um dos países mais seguros da região a registrar aumentos recordes nas taxas de homicídios. Segundo dados do Ministério do Interior, 2025 encerrou com 9.216 homicídios intencionais, tornando-se o ano mais violento da história do país, 30,48% a mais que em 2024.

Em janeiro de 2024, a menos de três meses de assumir a presidência, Daniel Noboa declarou a existência de um “conflito armado interno” — um conceito que gerou tensões com o poder judiciário —, ordenando a militarização da segurança interna e decretando um estado de exceção que suspendeu garantias constitucionais, medida que segue vigente em 9 das 24 províncias do país.

Desde então, o desdobramento das forças e a suspensão de garantias também têm sido utilizados para reprimir sistematicamente protestos e mobilizações sociais. Um exemplo foram as violentas intervenções durante a Greve Nacional Indígena, entre setembro e novembro do ano passado, em protesto contra a alta do diesel e as políticas neoliberais do governo de Noboa. O Executivo qualificou os participantes dessas manifestações como “terroristas”, enquanto organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), denunciaram violações de direitos humanos e o deterioramento do direito de protestar.

Um parceiro privilegiado na Doutrina Monroe

Desde o retorno de Trump à Casa Branca, durante o último ano, o presidente Noboa tem buscado intensificar seu alinhamento com Washington em matéria de “cooperação em segurança”.

No início de setembro, Marco Rubio visitou Quito e reuniu-se com Noboa, anunciando a destinação de US$ 13,5 milhões para combater o narcotráfico no Equador e outros US$ 6 milhões para a aquisição de drones destinados a fortalecer as capacidades da Marinha, afirmando que “isso é apenas o começo”. Também declarou que os Estados Unidos estariam dispostos a reabrir uma base militar no Equador, caso o país solicitasse formalmente.

Naquele momento, o Equador discutia um referendo para modificar o artigo 5º da Constituição, que proíbe a instalação de bases militares estrangeiras no território nacional. Essa proibição, estabelecida na Constituição de Montecristi de 2008, durante o governo de Rafael Correa, permitiu o fechamento da base americana de Manta, operativa entre 1999 e 2009.

Durante a campanha pelo referendo, no início de novembro de 2025, a secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Kristi Noem, visitou o Equador e percorreu a base de Manta — antiga FOL americana — e a base aérea de Salinas, reunindo-se com autoridades equatorianas.

Apesar do apoio de Washington, a proposta do governo de Noboa foi rejeitada de forma contundente: 61% dos eleitores votaram “Não”, mantendo a proibição constitucional.

Mesmo com esse resultado, que não concedia licença social para esse tipo de cooperação, a colaboração militar bilateral continuou avançando. Em dezembro de 2025, a Embaixada dos Estados Unidos confirmou o envio de pessoal da Força Aérea americana para participar de uma operação conjunta em Manta, apresentada como “temporária” por ambos os países.

Segundo a embaixada, a operação tinha como objetivo realizar treinamentos conjuntos e fortalecer a coleta de informações e inteligência. O número de efetivos não foi divulgado e os detalhes foram considerados “reservados”.

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