‘EUA estão perdendo poder político’, avalia analista após renuncia de diretor de Contraterrorismo

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A guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã completa três semanas com sinais cada vez mais claros de isolamento de Washington no cenário internacional. A renúncia de Joseph Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, que deixou o cargo afirmando que o Irã não representava uma ameaça real, escancara as divisões internas e a falta de sustentação para a ofensiva.

A analista internacional Amanda Harumy destaca o significado político da renúncia: “Os Estados Unidos têm poderio militar, mas a realidade que se impõe é que estão perdendo poder político, poder de infiltrar e influenciar espaços no mundo. Essa renúncia mostra que o Trump vai perdendo aliados também na sua conjuntura interna”, observa no Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.

Para a analista, o episódio evidencia o descolamento entre a retórica belicista e os fatos. “A interpretação de Trump era que faria uma intervenção militar rápida e que haveria oposição ao governo do Irã. Mas o grande questionamento é se essa guerra foi um convencimento de Israel ou realmente uma política de Trump para perpetuar a hegemonia americana.”

A tentativa de Trump de mobilizar aliados para escoltar petroleiros no Estreito de Ormuz fracassou. O porta-voz do governo alemão chegou a declarar que a guerra contra o Irã “não tem nada a ver com a Otan”.

“A Otan está muito preocupada com a guerra da Ucrânia — uma guerra europeia, que tem financiamento de Bruxelas e que está cada vez mais descoberta do poderio militar dos EUA. Os europeus têm dependência de gás e petróleo, o que leva a inflação e problemas sociais. Para eles, essa guerra não é interessante”, contextualiza a recusa europeia.

Ela lembra que o aumento do preço do petróleo beneficia a Rússia, que voltou a vender para os EUA após uma flexibilização das sanções. “Para os europeus, isso não é nada interessante.”

Harumy destaca que o Irã pode não ter a mesma capacidade militar que EUA e Israel, mas tem uma estratégia política clara. “Eles têm capacidade de desestabilizar o preço do petróleo e desestabilizar os principais aliados de Washington e Tel Aviv no Oriente Médio. É uma estratégia de desgaste da influência e da potência dos Estados Unidos, que muito provavelmente vai levar a uma crise interna.”

Sobre a morte de lideranças iranianas — informação não confirmada por Teerã —, a analista aponta que o método de aniquilar lideranças tem limites. “Israel e EUA agem com a ideia frágil de que o processo político no Irã é comandado apenas por nomes. O Irã tem capacidade de apontar novas lideranças e tem uma compreensão anti-imperialista enraizada. Os Estados Unidos encontraram um inimigo à sua altura.”

América Latina na mira: Cuba pode ser o próximo alvo

As declarações de Trump sobre “tomar Cuba” e a destituição do atual líder cubano acendem o alerta na região. Harumy não descarta uma intervenção. “Não duvidamos de nada do Trump. Ele tem um caráter de tomada de decisão muito pessoal. Não acredito que exista um plano estruturado, mas sim uma política vulnerável à interpretação pessoal.”

Ela lembra que a América Latina voltar a ser região de influência direta dos EUA, freando a ascensão da China, é interesse estrutural norte-americano. “Os métodos de Trump são agressivos e ideológicos. Por isso são perigosos. Não podemos duvidar da vontade política dele em desestabilizar, invadir, atacar Cuba.”

A analista aponta ainda um fator eleitoral. “Trump precisa de vitórias de narrativa. Seria muito mais fácil invadir Cuba do que vencer no Irã. Há uma diáspora cubana em Miami que é base política do Trump e que pode importar nas eleições de meio de mandato.”

Harumy conclui com uma visão de longo prazo. “Existe uma disputa estrutural dos Estados Unidos para ter mais poder e acesso à América Latina, num contexto de preparação para um enfrentamento com a China. Mas o que estamos vendo é que os Estados Unidos estão perdendo poder político. O Irã está disposto a desestabilizar o poder norte-americano no Oriente Médio.”

Para ouvir e assistir

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