A capoeira angola celebra os 25 anos de mestria de Mestre Lima com a realização de uma roda em João Pessoa, em homenagem a um dos maiores nomes associados à consolidação dessa prática na Paraíba. A atividade acontece às 17h, na Praça da Família, em Mangabeira VII, e deve reunir mestres da cultura popular, capoeiristas de diferentes grupos e moradores da comunidade. A organização é do Grupo de Capoeira Angola Mandinga (Gcam)coletivo fundado por Mestre Lima no início dos anos 2000.

Segundo os organizadores, a iniciativa integra um conjunto de ações que busca reconhecer trajetórias fundamentais da cultura afro-brasileira e fortalecer a presença da capoeira nos espaços públicos. A expectativa é que o encontro também se consolide como um ponto de encontro entre diferentes gerações de praticantes, promovendo intercâmbio, continuidade e afirmação cultural.
Homenageado destaca reconhecimento e continuidade
Mestre Lima reflete sobre o significado do reconhecimento vindo de alunos, mestres e da comunidade da capoeira. Em sua avaliação, a homenagem recupera um percurso coletivo construído ao longo de décadas.
“A importância desse momento é muito grande. Ser homenageado representa o reconhecimento dos alunos, dos capoeiristas e dos amigos que acompanham o trabalho que venho desenvolvendo ao longo dos anos, sempre buscando divulgar a capoeira e transmitir conhecimento. Pessoas como eu, Mestre Zunga, Mestre Guiné e outros companheiros somos considerados pioneiros da capoeira aqui na Paraíba, dando continuidade a um legado que recebemos dos nossos professores, que foram fundamentais para nossa formação dentro da capoeira”, comenta ele.

O mestre também destaca a importância de lembrar Mestre Zumbi, apontado como precursor da capoeira no estado e responsável por um papel relevante nesse processo.
“Fico muito grato por esse reconhecimento e espero continuar contribuindo ainda mais com a capoeira, levando essa prática para diferentes espaços e compartilhando o conhecimento com todas as pessoas que desejarem aprender.”
Evento reúne nomes da cultura popular
Entre as presenças confirmadas para a roda comemorativa estão mestres de diferentes linguagens da cultura popular, como capoeira, coco e cavalo marinho.
Nomes como Mestre Zunga, Mestre Morcego, Mestre Baianinho, Mestre Robson, Mestra Tina, Mestre Ligeirinho e Contramestre Irica, além de representantes de outros estados, como Bahia e Ceará.
Trajetória marcada pela formação e resistência
Ao longo de mais de quatro décadas, Mestre Lima atuou na difusão da capoeira como expressão da cultura afro-brasileira em João Pessoa e no estado da Paraíba. Nesse período, formou professores e contra-mestres que passaram a desenvolver atividades em diferentes regiões do país e no exterior. Também coordenou projetos sociais voltados a jovens em situação de vulnerabilidade, com ações nas áreas de formação cultural e educativa.
A trajetória inclui o recebimento de reconhecimentos institucionais, como o Prêmio Berimbau de Ouro (2017), o título de Bambas do Ano(entre 2017 e 2018) e uma moção de agradecimento concedida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 2019.
Em 2024, foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares, concedido pelo Governo da Paraíba em parceria com o Ministério da Cultura. Em 2025, a Assembleia Legislativa da Paraíba aprovou a concessão da Medalha Epitácio Pessoa, honraria estadual atribuída em reconhecimento a serviços prestados à sociedade paraibana.
Velha guarda
Mestre Lima, nome artístico de Ednaldo de Lima Alves, iniciou sua trajetória na capoeira na década de 1980, no bairro Castelo Branco, participando do processo de consolidação da prática no estado ao lado de outros integrantes da chamada velha guarda.
Participou da fundação do grupo Afro-Nagô, considerado um dos mais antigos em atividade na Paraíba, e recebeu a graduação de mestre em 2002. Posteriormente, passou a se dedicar à capoeira angola e fundou o Grupo de Capoeira Angola Mandinga (Gcam), em 2004, iniciativa que contribuiu para a difusão desse estilo no estado.
Sua atuação também se estendeu para além da Paraíba, com desdobramentos no exterior, especialmente na França, por meio de alunos formados ao longo de sua trajetória.
Afirmação da capoeira no estado
O historiador e praticante de capoeira André Sarmento, integrante do grupo de Mestre Lima, também ressaltou a importância da trajetória do mestre para a consolidação da capoeira na Paraíba. Segundo ele, a atuação do capoeirista se confunde com a própria história da prática no estado.
“Mestre Lima tem mais de 46 anos de dedicação à capoeira e é considerado um dos precursores dessa manifestação cultural na Paraíba. Ele iniciou sua trajetória no bairro do Castelo Branco, a partir do contato com alunos ligados ao mestre Zumbi Bahia, e desde então passou a contribuir de forma contínua para a afirmação da capoeira no estado. Na década de 1990, desenvolveu diversos trabalhos nas periferias e em bairros de João Pessoa, expandindo a capoeira como prática educativa e cultural, com atuação em escolas, associações comunitárias e especialmente em Mangabeira. Já nos anos 2000, fundou o Grupo de Capoeira Angola Mandinga, iniciativa que contribuiu para a formação de novas gerações de praticantes da capoeira angola”.
Sarmento explica que sua trajetória foi reconhecida por diferentes mestres e grupos de estados como Pernambuco e Bahia, incluindo referências como o mestre Raimundo Dias. “Entre as premiações, destaca-se o Prêmio Berimbau de Ouro, de caráter internacional, além da recente concessão da Medalha Epitácio Pessoa, considerada uma das principais honrarias culturais do estado da Paraíba”
Para o pesquisador, a história de Mestre Lima se confunde com um percurso contínuo de mais de quatro décadas de dedicação à preservação, valorização e transmissão das tradições da capoeira, consolidando um legado que atravessa gerações.
Para Mestre Canguru, a roda em comemoração aos 25 anos de maestria de Mestre Lima, coincidindo com os 58 anos de idade do homenageado, é uma forma dos capoeiristas e alunos prestarem homenagens à trajetória do mestre dentro da capoeira. Ele destacou que Mestre Lima dedica-se há 46 anos à prática, contribuindo para o desenvolvimento e a preservação dos fundamentos da capoeira, especialmente da capoeira angola.
“Esta roda, em comemoração aos 25 anos de mestria de Mestre Lima e ao seu aniversário de 58 anos, é uma forma que nós, capoeiristas e alunos do México, encontramos para homenagear toda a sua trajetória na capoeira, que já soma 46 anos de dedicação total à nossa arte, ao desenvolvimento e à preservação dos fundamentos, especialmente da Capoeira Angola”, disse ele.
O mestre também convidou todos os capoeiristas, independentemente do grupo, a participarem do encontro, prestigiar o evento e jogar capoeira durante a celebração.
Capoeira no Brasil: história e reconhecimento
A capoeira é reconhecida como uma das principais expressões culturais afro-brasileiras, com origens associadas à resistência da população negra escravizada no Brasil. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a roda de capoeira foi registrada como patrimônio cultural do Brasil em 2008 e, posteriormente, reconhecida como patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Unesco.
A roda de capoeira é compreendida como espaço de transmissão de saberes, onde se consolidam práticas, valores e tradições. Esses encontros costumam ocorrer em espaços públicos e territórios populares. Em convite divulgado pelos organizadores, a proposta do evento é sintetizada:
“Traga seu axé e venha vadiar conosco. A roda não é apenas um encontro, mas um espaço de memória, resistência e continuidade. É nela que mestres, alunos e comunidade compartilham saberes, histórias e experiências que atravessam gerações, fortalecendo a cultura afro-brasileira e reafirmando sua importância na sociedade.”

