Projetos ligados à exploração de “minerais críticos” em nome da transição energética avançam sobre 278 terras indígenas no Brasil. O cerco representa 44% das áreas e pode transformar territórios e modos de vida em “zonas de sacrifício”.
Os dados e o alerta integram o Observatório da Transição Energéticaprojeto de jornalismo de dados da Repórter Brasil, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), que monitora os impactos socioambientais de empreendimentos ligados à transição energética.
Ao cruzar os dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) com as bases de territórios da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o observatório identificou 2.055 requerimentos de exploração sobrepostos ou a menos de 10 km de distância de 278 terras indígenas.
Nos últimos anos, o país teve um boom nos pedidos: 29.213 requerimentos de uma lista de 27 minerais essenciais. Do total, metade foi protocolada entre 2021 e 2025.
Elementos como cobre e lítio são fundamentais para tecnologias avançadas de energia renovável, como a solar e a eólica. No entanto, a corrida por esses minerais estratégicos tem sido usada para flexibilizar impactos socioambientais da mineração, e avançar na exploração de territórios tradicionais.
Para identificar as áreas impactadas, o observatório listou projetos de geração de energia renovável já existentes e planejados no Brasil. Levando em conta apenas os processos minerários em operação, a plataforma identificou 38 territórios já afetados pelos minerais críticos. A mais afetada é a Terra Indígena Kiriri de Caldas, no sul de Minas Gerais, com 55 áreas minerárias.
Transição energética para quem
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), no relatório Desmascarando o lobby mineral em terras indígenas no Brasilexpõe que “a corrida mundial por uma transição energética supostamente limpa está replicando padrões coloniais de exploração e sendo financiada por grandes cadeias de investimento”.
“Terra nenhuma pode ser destruída para avançar em uma transição por energias, teoricamente limpas, mas que na prática deixam rastros de destruição. Expandir a mineração em TIs com essa justificativa é uma contradição moral, política e social que precisamos questionar com urgência, antes que seja tarde demais”, diz o documento.
Enquanto isso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), criou em 2025 um grupo de trabalho para discutir a regulamentação da mineração em terras indígenas. Para a Apib, o espaço seria como um “lobby agromineral” no Legislativo.
A mineração também esteve no centro dos debates no Acampamento Terra Livre (ATL), que reuniu mais de 7 mil indígenas em Brasília (DF). A carta final da 22ª edição defendeu a demarcação dos territórios como a única resposta concreta e eficaz para a crise climática.
Cobiça internacional
O Brasil abriga a segunda maior reserva de terras raras e a sexta maior de lítio do mundo, segundo o Ministério de Minas e Energia. Além da transição energética, os elementos também são aplicados na tecnologia bélica, sendo alvo de cobiça por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em declaração recente, o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que estaria disposto a se alinhar aos interesses dos EUA e entregar as reservas do país a Trump. O senador afirmou que o Brasil “a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.
*Com informações da Repórter Brasil

