Extrema direita joga com ‘desinformação e pânico moral no debate sobre aborto’, afirma ativista

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No Brasil, o debate sobre a descriminalização e acesso ao aborto legal e seguro não evolui por causa da extrema direita e de setores religiosos, que dogmatizam a discussão. Mas tudo isso cai por terra quando na vida privada, um parlamentar que se manifestava contrário ao procedimento, é flagrado tentando convencer a ex-companheira a realizar a interrupção de uma gravidez.

O caso envolvendo o deputado estadual Guto Zacarias (Missão), ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), foi revelado em reportagem do Brasil de Fato. Um áudio tornado público, em que o político fala para a ex-namorada que o procedimento é seguro e que em bairros de elite é muito raro acontecer qualquer problema, escancara a hipocrisia da situação.

Em conversa no BdF Entrevista, a ativista Kelly de Oliveira, do grupo Católicas pelo Direito de Decidir, aponta o abismo existente entre o discurso público e o privado e como o neoconservadorismo produz essas incongruências. “São essas as pessoas que condenam, a partir de um discurso moralizante, com forte teor religioso em torno da defesa da família. em torno da defesa da vida desde a concepção, mas que vão condenar, na verdade, meninas e mulheres que precisam realizar, acessar o direito ao aborto, mesmo em casos previstos em lei. Então, na verdade, eles deslocam. É um debate muito sério, muito importante, do campo da saúde pública e dos direitos, e transforma tudo isso em desinformação, em pânico moral.”, pontua.

Nessa mesma linha, Oliveira também frisa a importância de desmistificar a ideia de que ser a favor da legalização do aborto significa autorização para pressionar alguém para realizar o procedimento. “Há um trabalho grande a ser feito para desconstruir, inclusive, essas fake news. O que a gente defende é a autonomia, a previsão, o direito de decisão das mulheres sobre os seus corpos, sobre suas vidas e pensar a sua reprodução”, afirma.

A ativista também discorre sobre a importância da racialização do debate, elemento, muitas vezes, ocultado pelos conservadores na direção do reconhecimento de que o aborto deveria ser debatido enquanto política pública de saúde. “Existe uma luta histórica, inclusive do movimento de mulheres, do movimento feminista, para desconstruir a ideia de que o aborto é uma prática insegura. Na verdade, a insegurança nasce da criminalização e a criminalização ela rebate nas mulheres pobres e, sobretudo, mulheres negras, indígenas, enfim grupos mais vulneráveis. O nosso desejo é que todas as mulheres possam acessar com segurança o aborto que é parte da vida reprodutiva de qualquer pessoa”, destaca.

Oliveira chama de desserviço o que a extrema direita vem fazendo em campanhas contrárias ao aborto. “E a gente acredita que não seja só no Brasil. É uma rede internacional que potencializa isso de uma maneira muito presente na esfera legislativa, política, aliada a um potencial de um discurso fundamentalista, religioso, e que vai envolver muitos grupos, desde associações de juristas, de médicos, nessa perspectiva de impedir, de dificultar e de criar barreiras para o acesso ao aborto. E acho que o maior exemplo é essa articulação por exemplo de territorializar essas ações, fazendo uma disputa ideológica muito grande a partir da ação de protocolar projetos de lei nas câmaras municipais e estaduais. Isso é parte de um projeto, isso é parte de um lobby para difundir essa ideia, difundir desinformação e pânico moral e como isso é importante para mobilizar a extrema direita hoje.”

Para Kelly de Oliveira, os grupos progressistas, diante desse cenário, acabam sempre que ficar na contenção de retrocessos e “apagando incêndios”, sem conseguir mobilizar de forma efetiva o debate. “É muito cansativo. Mas acho que, na medida do possível, e o movimento como um todo tem feito esse esforço de tentar se organizar para não ser mobilizada apenas em torno disso. Mas é muito difícil. Hoje a conjuntura está bem avessa as nossas pautas. Então é um caminho longo que a gente precisa fazer e se organizar para fazer. Acho que esse período eleitoral é um período que a gente vai ver mais uma vez essa pauta sendo mobilizada, mas de uma maneira bastante complicada, como foram nas últimas eleições”, prevê.

Para ouvir e assistir

Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

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