Mães de pacientes pediátricos oncológicos protestaram em frente ao Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) nesta sexta-feira (9). Elas denunciam a suspensão de atendimentos e o fechamento de leitos causados pela falta de verba nos últimos meses. Segundo o hospital e a Secretaria de Saúde, os valores em aberto foram pagos.
A filha de Larissa Cairus, que faz acompanhamento médico no HCB desde 2023, foi afetada com o bloqueio dos atendimentos. A criança aguarda uma cirurgia para a retirada de um cisto broncogênico no pulmão, diagnosticado desde o nascimento.
“O atendimento dela foi suspenso desde o anúncio da falta de repasses. Ela fez um exame de broncoscopia e já está regulada para ser operada. Estamos aguardando a vaga dessa cirurgia. Com a suspensão, ficamos em desespero”, relata ao Brasil de Fato DF.
Devido à falta de pagamento nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2025, o hospital teve que fechar temporariamente 65 leitos de internação e 24 leitos de UTI. A dívida registrada somou R$ 79 milhões.
Com um filho que faz tratamento há um ano no HCB, Cilene Rodrigues compartilha do mesmo sentimento de preocupação das outras mães. Seu filho, Nicolas Renan, teve uma consulta pré-cirurgia cancelada neste período.
“Sabemos que o câncer não espera. Precisávamos urgentemente da resposta do governo para que o hospital voltasse a funcionar normalmente. Essa consulta era muito importante, porque gerou os preparativos para uma nova cirurgia do pulmão”, afirmou.
Na terça-feira (6), o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) determinou que o Governo do Distrito Federal (GDF), liberasse o repasse de R$ 69 milhões para restabelecer o funcionamento integral dos procedimentos.
Em nota, o HCB informou que os pagamentos já foram realizados pelo governo e os serviços assistenciais foram restabelecidos e estão funcionando normalmente a partir desta sexta-feira. A SES também alega que os débitos foram quitados.
Doenças raras
Além de pacientes oncológicos, o HCB trata crianças e adolescentes com síndromes raras e condições complexas e crônicas, que também foram afetados pela falta de repasses financeiros.
Camila Louise, presidente da Raro Afeto, rede de familiares e pacientes com condições raras, explica que a filha de um ano e oito meses também foi prejudicada. Apesar da retomada, a representante acredita que as mães precisam continuar atentas aos serviços prestados.
“Eu tive a notícia da retomada. Mas, considerando o tempo de prejuízo no serviço, precisamos manter a vigilância. Uma coisa é interromper as medidas de contingência, outra é normalizar o serviço prestado. Já sentíamos questões antes mesmo do corte. Estamos em contato direto com as outras mães”, explica.
Hospital da Criança
Sob a gestão público-privada, o HCB é referência na capital federal e no Brasil. O Hospital da Criança de Brasília atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e é gerido pelo Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe) e a Secretaria de Saúde do DF.
O atraso no repasse para o HCB faz parte de uma crise na saúde pública do DF que há muito se arrasta, refletindo a demora nos atendimentos, falta de profissionais e falhas estruturais em unidades de saúde. O cenário deve ser ainda mais crítico em 2026 com a previsão de redução em R$1 bilhão do orçamento na área.
Rede de apoio
A mobilização foi encabeçada pela Mães da Onco (Instituto Amavida), entidade que presta apoio a mães e famílias de pacientes oncológicos. Atualmente, a organização integra a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Câncer da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
A rede surgiu a partir da iniciativa de Shalma Vicentim, quando ela recebeu o diagnóstico de leucemia da filha em 2023. No começo, o grupo era limitado apenas a troca de mensagens entre as mães.
Um ano depois, Vicentim começou a se engajar e tornou-se porta-voz dessas famílias com o HCB. Hoje, são feitos projetos sociais dentro da organização para acolhimento de mães em vulnerabilidade.
“Em junho de 2024 começou o trabalho social. E aí a partir disso, a distribuição de kits de higiene. Começamos a suprir de outra forma, de acordo com a necessidade das mães. Temos conseguido abrir um leque. Ajudamos aquelas mães com maior vulnerabilidade. Se precisar de um advogado, conseguimos fazer essa ponte”, afirma.
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