Famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná denunciam intoxicação por pulverização de agrotóxicos de famílias do acampamento Benedito Gomes, localizado no município de Perobal, na região de Umuarama (PR).
Segundo os relatos, a aplicação foi feita no dia 28 de março de 2026, por volta das 18h, com uso de equipamento acoplado a um trator por um fazendeiro que invadiu a área de forma irregular. O produto, possivelmente um herbicida, atingiu as moradias das aproximadamente 430 famílias acampadas no local.
A denúncia foi encaminhada a diversos órgãos públicos, entre eles o Ministério da Saúde, o Ministério Público, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do estado, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) e o Instituto Água e Terra (IAT).
Moradores relatam que a nuvem do produto atingiu o acampamento em poucos instantes, com forte odor se espalhando pelo acampamento. Cerca de 20 pessoas relataram sintomas como irritação na garganta, tosse e dor de cabeça. Além disso, há preocupação com os possíveis danos a uma lavoura coletiva de feijão cultivada pelas famílias.
Disputa fundiária de duas décadas
A área em questão é a Fazenda Tiburi, um imóvel público com aproximadamente 215 hectares, pertencente ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Há cerca de vinte anos, o local é palco de conflitos entre fazendeiros e famílias camponesas vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Desde fevereiro deste ano, centenas de famílias sem-terra ocupam a fazenda com o objetivo de pressionar o Incra a destinar o imóvel para a reforma agrária. Em decisão judicial recente, foi reconhecida a irregularidade da ocupação por fazendeiros, com determinação de desocupação da área.
O caso é acompanhado por uma Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2022, após a identificação de irregularidades na tentativa de transferência da terra pública para um particular. Segundo o MPF, os requerentes não se enquadravam como agricultores familiares e possuíam outras propriedades em Toledo (PR) e arrendamentos no Mato Grosso do Sul.
O Incra já havia notificado os ocupantes irregulares no início de fevereiro para desocuparem a área em até 30 dias, autorizando apenas a colheita da safra de soja já existente. No entanto, de acordo com a denúncia, novos plantios foram realizados. E a dispersão de agrotóxico teria sido usada como instrumento de pressão contra as famílias acampadas.
As famílias do acampamento Benedito Gomes estão na região há cerca de um ano, tendo ocupado anteriormente uma área em Umuarama. No Paraná, aproximadamente 5 mil famílias sem-terra vivem hoje em acampamentos, algumas há mais de 30 anos, à espera de acesso à terra e condições dignas de vida no campo.
Agrotóxico como instrumento de violência
O episódio de Perobal não é um caso isolado. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida tem registrado e divulgado inúmeros casos em que agrotóxicos são usados de forma intencional como ferramenta de coerção e violência contra comunidades rurais, quilombolas, indígenas, acampamentos e assentamentos em todo o Brasil. O objetivo, segundo a campanha, é expulsar camponeses de seus territórios e comprometer seus modos de vida tradicionais.
Para enfrentar esse problema, a Campanha e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lançaram, no final de março, um canal específico para denúncias para esse tipo de violação. A ferramenta visa qualificar os registros de intoxicação e contaminação e orientar o encaminhamento correto aos órgãos competentes. O caso ocorrido em Perobal também foi registrado nesse canal.
Diante dos acontecimentos, as famílias acampadas pedem apuração imediata, fiscalização no local para evitar novas contaminações e responsabilização dos envolvidos. Os documentos protocolados incluem relatos técnicos e registros audiovisuais feitos no momento da pulverização.

