Feijoada de Ogum conecta ancestralidade e agroecologia em espaço do MST no centro de SP

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O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promoveu, neste sábado (25), a Feijoada de Ogum na capital paulista, unindo atividades sobre ancestralidade africana, práticas agroecológicas e alimentação.

A iniciativa buscou estabelecer um ponto de contato entre a produção de alimentos no campo e as tradições religiosas de matriz africana. Segundo a ialorixá Fabiana das Graças Souza, integrante do MST, a preparação para a atividade envolveu consultas às tradições do Candomblé para viabilizar a realização do encontro.

A ialorixá relatou que utilizou o jogo de búzios para verificar a aceitação da proposta pela divindade Ogum, obtendo uma resposta positiva para o prosseguimento da organização. A partir dessa confirmação, os integrantes deslocaram-se para a região do Centro Agroecológico Paulo Kageyama, em Jarinu (SP), onde realizaram as etapas de cultivo e manejo da terra.

Fabiana afirmou que o processo transcorreu sob condições climáticas de sol intenso. “Um sol de rachar, mas foi com muita energia, com muita atenção, porque para mim tudo é uma experiência nova dentro do movimento.”

A ialorixá Fabiana das Graças Souza
A ialorixá Fabiana das Graças Souza | Crédito: Reprodução Instagram / MST

O evento serviu como uma plataforma para a defesa dos direitos dos povos de terreiro, abrangendo as religiões de Umbanda e Candomblé. A organização pontuou que o encontro visou responder aos casos de intolerância religiosa registrados no país, utilizando a feijoada como um símbolo de existência e resistência cultural.

Fabiana das Graças Souza, que esteve à frente da atividade em sua função religiosa, declarou que o objetivo foi demarcar o território como povos de resistência e que a realização do plantio, da colheita e do preparo do alimento funcionou como um rito de agradecimento voltado à prosperidade coletiva.

“Foi de muito axé, de muita energia e de muita alegria poder estar à frente como uma ialorixá. Nós estamos defendendo os povos e as casas de terreiro, tanto de Umbanda quanto de Candomblé. Muita intolerância religiosa está acontecendo, então nós viemos também para dizer que existimos. Nós fizemos isso porque nós também existimos. É para demarcar o nosso território também como povos de resistência. Para que Ogum nos dê proteção, nós fizemos o plantio, colhemos e fizemos a feijoada em agradecimento, para que tudo de bom e o axé prosperem na vida de todos nós”, disse.

A composição do grupo organizador é formada por pessoas que pertencem simultaneamente ao MST e às casas de axé, unindo a militância camponesa à identidade religiosa.

Fabiana destacou a relevância dessa articulação para o contexto brasileiro atual, mencionando o sofrimento causado pela discriminação contra aqueles que manifestam sua fé publicamente.

“Você não pode vestir uma roupa de santo, que é vista como uma coisa absurda, e não é nada disso. Nós estamos aqui para propagar o amor e a esperança. Nós temos fé. Nós temos a fé, sim. E orixá existe, ele é presente na vida de todos nós”, destacou.

Feijoada de Ogum, no Espaço Cultural Elza Soares
Feijoada de Ogum, no Espaço Cultural Elza Soares | Crédito: Reprodução Instagram / @amoacucar

Durante o ciclo de debates, o movimento vinculou a produção agroecológica à manutenção das tradições alimentares de origem africana, reforçando a soberania alimentar. Fabiana das Graças Souza, que possui vínculo com o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, da Bahia, e coordena o Ilê Axé Alá Ketu de Arolegim, em São Paulo, reiterou que a presença dos orixás é um fato para os participantes e que a atuação do grupo visa garantir o respeito a essa crença.

“Estou muito feliz por fazer parte e ter a participação junto com esse grupo, que somos pessoas de povos de terreiro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Isso é de suma importância, não só para mim, como acredito que para o Brasil, porque existem muitas casas de candomblé, casas de umbanda e muitas pessoas sofrendo intolerância.”

O evento promoveu a troca de conhecimentos sobre como o manejo sustentável da terra pode sustentar as práticas rituais que utilizam elementos da flora e da fauna. A celebração foi encerrada com roda de samba e consumo coletivo da feijoada, produzida com ingredientes vindos de assentamentos do movimento.

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