Da necessidade real de superar as dificuldades cotidianas nascem engenhosidades que têm melhorado a vida de muitas comunidades Brasil afora. Com simplicidade, o povo constrói tecnologias complexas que, longe dos grandes laboratórios corporativos, oferecem soluções coletivas para problemas reais de habitação, renda, saúde e alimentação. Esta edição do Bem Viverprograma do Brasil de Fatotraz o papel das tecnologias sociais, termo científico dado para quase tudo o que o povo inventa para solucionar os problemas coletivos de suas próprias comunidades.
Para valorizar e dar visibilidade a essas iniciativas, a Fundação Banco do Brasil realizou, em Brasília (DF), o festival Soluções Sociais para o Brasil. O evento reuniu dezenas de experiências de todas as regiões do país, reafirmando que o conhecimento popular aliado à ciência é um motor potente para o desenvolvimento com justiça social.
Embora o nome pareça técnico, o conceito é profundamente ligado à base da sociedade. “A tecnologia social é uma solução, um produto ou uma metodologia que tenha sido construída de forma coletiva com a comunidade e com a comunidade científica”, explica Mariana Oliveira, gerente de Estratégia e Organização da Fundação Banco do Brasil.
De acordo com a gestora, o objetivo central dessas ferramentas é “resolver ou minimizar um problema social de determinado território”. Praticadas secularmente por povos tradicionais, agricultores e periferias, as soluções vão desde sistemas de captação de água da chuva até projetos complexos de economia solidária.
Como sintetizou o ativista Douglas Belchior, do Instituto Peregum, durante um dos debates do festival, as tecnologias sociais são a expressão máxima da resiliência das classes populares: “Tecnologias sociais, soluções sociais… a gente podia chamar de ‘pobre se virando para sobreviver’. Não pode? Porque é, né?”, pontuou.
Durante o evento, 46 finalistas foram certificados e, desses, sete projetos foram premiados, como uma forma de dar visibilidade e apoio à consolidação dessas experiências, além de valorizar os saberes populares.
“É um prêmio que tem o objetivo de identificar essas soluções, encorajá-las e disseminá-las. É promovido a cada dois anos, desde 2001. A partir das inscrições que recebemos, aplicamos alguns critérios, e as soluções que são certificadas passam a fazer parte de uma plataforma nossa”, conta Oliveira.
Após a certificação, os projetos passam a integrar a Plataforma Transformaum banco de dados público que permite que qualquer comunidade ou gestor público do país acesse e replique as metodologias em suas respectivas regiões.
Rendar Saberes: autonomia e tradição em Carapicuíba
Entre os destaques premiados na edição está o projeto Rendar Saberes, desenvolvido pela Oca Escola Cultural em Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo. A iniciativa, liderada por Ilma e Luciene da Silva, nasceu a partir de um processo de escuta e alfabetização de mulheres da comunidade, que gradativamente buscaram caminhos para a autonomia financeira e o fortalecimento de vínculos coletivos.
O projeto resgatou a técnica tradicional nordestina da renda renascença, interligando o conhecimento de diferentes gerações e criando produtos autorais contemporâneos. O impacto vai muito além da geração de renda: atinge a saúde mental e a autoestima das participantes.
“Estamos transformando Carapicuíba. Estamos dentro de um patrimônio histórico, uma aldeia jesuíta de 1580. Esse lugar vem se tornando um polo da renda renascença em São Paulo. Ninguém diz que se faz renda renascença em São Paulo. Pois é, fazemos renda renascença em São Paulo e elas têm desenvolvido produtos autorais que têm a cara delas, interligando o tradicional com o contemporâneo e o jovem com as outras gerações”, conta Luciene.
“Eu acho que podermos partilhar essa experiência com tantas outras tecnologias, e olhar para esse Brasil tão diverso, tão precioso e tão rico, nos fortalece enquanto pessoas que acreditam que esse conhecimento precisa ser partilhado. Essas mulheres e esse projeto trazem beleza na vida dessas pessoas, trazem saúde e alegria. Poder mostrar para o Brasil e para as outras tecnologias algo que para nós nasceu simplesmente de uma escuta, de um respeito a essas mulheres que têm muito para dizer, é muito precioso”, diz a premiada.
O festival contou com a participação de artistas, lideranças sociais e pensadores que debateram a importância dessas ferramentas para o desenvolvimento do Brasil com justiça social.
Tecnologias para a soberania alimentar
Um dos temas abordados foi segurança alimentar e nutricional. Para João Paulo Rodrigues, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a iniciativa consagra a importância das tecnologias sociais, fundamentais para o desenvolvimento de um modelo agrícola sustentável.
“Vir a um seminário como esse para fazer um debate como esse é fantástico, à luz da inteligência artificial, à luz dos debates que nós estamos construindo de novas políticas públicas. Ao mesmo tempo, nós estamos colocando a agroecologia como um debate importante, porque o campesinato tem experiências históricas de produzir formas significativas de preservação da semente, de preservação da biodiversidade, de criar suas próprias formas de convivência do sujeito com a natureza, ao mesmo tempo pensando o novo período, que precisa de mecanização agrícola, que precisa de biofertilizantes, que precisa de celular para registrar e vender o nosso produto, que precisa de boa internet”, afirma.
“Eu acho que nós estamos em um período muito rico, não só dos camponeses, mas de toda uma geração que está vivendo essa transição extremamente importante”, agregou.

Da solução local à política pública
Como parte da programação do festival, foi montada uma exposição com amostras de tecnologias criadas coletivamente. Tudo para que o público pudesse mais que ouvir, ver com os próprios olhos a engenhosidade das comunidades organizadas.
Tem o Litro de Luz, o aquecedor solar a baixo custo, os sistemas de produção agroecológica integrados e as cisternas calçadão que, depois de terem sido criadas a partir da necessidade das regiões semiáridas do Brasil, se tornaram políticas públicas, garantindo a toda a população o acesso fundamental à água.
Samuel Falcão, assessor da Gerência de Estratégia e Organização da Fundação Banco do Brasil, considera que esse deve ser o papel do poder público: transformar ideias inovadoras em soluções coletivas que contribuam para o desenvolvimento do país.
“O percurso sempre começa com a comunidade: o problema existe, ele precisa ser resolvido e as comunidades lutam diariamente para poder solucionar esses problemas. E a solução parte de um conjunto de técnicas, de invenções. Tem vários ‘professores pardais’ nas universidades, mas também no campo, nas cidades, na favela, nas comunidades”, diz. “A tecnologia social aparece a partir do momento em que essas pessoas na comunidade conseguem sistematizar essas metodologias e esses artefatos.”
Quem passou pela mostra já não vê a hora de reaplicar essas soluções em seus territórios. É o caso da paranaense Roxana e da brasiliense Flávia.
“Eu já ouvi o termo ‘tecnologia social’, mas não tinha essa noção do que esses projetos aqui nos trouxeram de esclarecimento, como as hortas e o sistema de pequenas glebas para garantir a sobrevivência das famílias”, diz a visitante do sul.
“Eu achei tudo espetacular. Achei que para nós, comunidade, todos os projetos que foram apresentados aqui são para a vida, a reciclagem principalmente. E que a gente possa realmente entrar no portal do Banco do Brasil e tirar dali tudo que a gente possa aproveitar e ensinar para outros também”, afirmou a moradora de Brasília.
E tem mais…
Ó Bem Viver continua em ritmo de festa junina, e o Comida de Verdade traz duas receitas deliciosas que a nossa chef Gema Soto preparou: pinhão e canjica com doce de leite.
Veja também: a tradição do incenso tibetano continua viva nas mãos das comunidades locais na China.
E ainda falando de cultura, conheça um pouco mais sobre a Sala São Paulo e o Theatro Municipal, ícones da capital paulista.
Quando e onde assistir?
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Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.
Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.
Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.
Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.
Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.
Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília, no Canal 15 da NET.
TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.
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