“Eu acho que essas coisas são indissociáveis: trabalho e arte. Eu exerço a minha cidadania através da minha arte. Isso é um trabalho como outro qualquer”, afirma Chico Chico, principal atração do Festival do Trabalhador e Trabalhadora, realizado no 1º de Maio, na Casa do Gaúcho, em Porto Alegre. Penúltimo a subir ao palco, o artista reuniu o público em uma apresentação que sintetizou o tom do evento: cultura como expressão, profissão e instrumento de participação social.

Em entrevista ao Brasil de Fato RSele ressalta que o fazer artístico não pode ser dissociado das condições concretas de trabalho. “Eu venho de um lugar de muito privilégio, é inegável. Mas a vida do artista é um trabalho danado.” Para ele, a própria definição de arte amplia o entendimento sobre o trabalho. “Não é só música ou teatro; saber fazer uma cadeira é arte, bater uma laje é arte. Qualquer expressão humana que você domine e faça com prazer é arte.” E conclui: “O artista também é um trabalhador. E o trabalhador é um artista.”

O festival reuniu diferentes linguagens e trajetórias no feriado, marcando o Dia Internacional do Trabalhador e da Trabalhadora como um momento de mobilização, mas também de celebração e acesso ao lazer.

“A cultura no RS tem mais de 410 mil trabalhadores”
A dimensão econômica da cultura foi destacada durante o evento por representantes institucionais e artistas. A coordenadora do escritório do Ministério da Cultura no estado, Mari Martinez, apontou o tamanho do setor. “A cultura no RS tem mais de 410 mil trabalhadores, é uma grande frente de geração de renda.”
Segundo ela, o investimento público tem impacto direto na economia. “Estamos fazendo um investimento histórico: no Rio Grande do Sul, até 2029, foram garantidos mais de R$ 1 bilhão. Cada 1 real investido na cultura retorna mais de 7 reais aos cofres públicos.”

A percepção também aparece entre trabalhadores da área. A cantora e atriz Andreia Cavalheiro afirma que o festival evidencia um campo ainda pouco reconhecido. “A gente representa a economia da cultura, que são milhares de trabalhadores. Isso não é reconhecido como economia.”
“A arte não é só entretenimento, a arte é salvação”
Entre as apresentações, a defesa da cultura como direito e ferramenta de transformação social esteve presente. Cavalheiro enfatizou o impacto da arte na vida das pessoas. “Quando vejo projetos em periferia, em escolas, a gente vê o que a arte faz com uma criança, que vai ter a possibilidade de viajar, conhecer outras culturas e se profissionalizar.”
Ela reforça que o papel da arte vai além do lazer. “A arte não é só entretenimento, a arte é salvação.”

O grupo Oi Nóis Aqui Traveiz realizou durante o festival uma intervenção artística voltada à denúncia do feminicídio no Rio Grande do Sul. A ação trouxe para o espaço público os nomes, idades e profissões de mulheres vítimas de violência no estado, transformando dados em presença e reforçando o papel da arte como instrumento de denúncia e sensibilização social.
Tânia Farias destacou que a intervenção parte de uma urgência concreta vivida no estado. “Consideramos fundamental trazer a temática do feminicídio como uma epidemia cotidiana. Trouxemos os nomes, idades e profissões das vítimas no RS em 2024, quase 30 mulheres, para dar corpo e subjetividade, para que não sejam apenas números”, afirmou.

A atriz Débora Finocchiaro destacou o caráter profissional da atividade cultural. “Viver disso é um ofício como qualquer outro, o trabalho é diário para conseguir ter uma vida digna com o nosso trabalho.” Ao abordar políticas públicas, ela aponta limitações. “Os editais são fundamentais, mas têm que ser revistos.”
Tânia Farias reforçou a mesma perspectiva ao falar sobre o cotidiano do setor. “Quem faz arte também trabalha e vive disso. Se eu não trabalhar todos os dias, eu não me alimento.”

“A gente vive de segunda a segunda trabalhando”
A discussão sobre jornada de trabalho atravessou o festival, especialmente no contexto do debate sobre a escala 6×1. Entre os artistas, a percepção é de que a rotina frequentemente ultrapassa os limites formais.
“A vida de artista não é fácil porque temos que compor, tocar e estudar muito. As pessoas só veem o resultado no palco, não veem a jornada”, afirma Moreno Moraes. Ele também aponta dificuldades na remuneração. “A dificuldade é imensa, principalmente na negociação de um cachê digno.”

Camila Falcão, diretora artística e cantora do Bloco da Laje, descreve uma rotina contínua. “Nós artistas trabalhamos numa escala 7×0, porque normalmente fazemos outro trabalho durante a semana e nos finais de semana estamos em shows ou teatro.” E completa: “A gente vive de segunda a segunda trabalhando.”
Para Mari Martinez, a pauta da jornada está ligada diretamente ao acesso à cultura. “A luta contra a jornada 6×1 é importantíssima para que os trabalhadores tenham mais um dia para curtir cultura e arte.”
“São 2 mil trabalhadores o ano todo”
No encerramento do festival, a escola de samba Imperadores do Samba levou ao palco a dimensão coletiva do trabalho cultural. O mestre de bateria Alan Silva dos Santos destacou o envolvimento contínuo da comunidade. “No desfile são 2 mil pessoas. São 2 mil trabalhadores, que não é só aquela data, é o ano todo trabalhando para transformar um desfile na avenida lindo e maravilhoso.”

Ele também ressalta a importância da união entre diferentes expressões culturais. “Todo mundo acha que o carnaval é uma coisa, o pagode é outra. Não, a gente tem que estar todo mundo unido para mostrar que o carnaval é unido também com todos.”
Mesmo em um feriado, o trabalho não se interrompe. “Hoje é feriado e nós estamos trabalhando, mas para nós é uma felicidade, é uma festa, mas também é um trabalho.”

“A gente precisa dessa coletividade”
A valorização da cultura local e periférica também apareceu como eixo central. O artista Gilsoul destacou a importância de espaços como o festival. “Para mim hoje o que é mais importante é a coletividade, e que a gente precisa disso principalmente no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre.”

Ele chama atenção para a falta de visibilidade. “Aqui temos uma dificuldade muito grande com essa visibilidade. Por isso acho importante eventos como esse, valorizando o artista local, o artista que vem da periferia e do gueto.”
A defesa de pautas mais amplas também foi mencionada por participantes. Um dos entrevistados aponta preocupação com a lentidão institucional. “Por que os homens e mulheres que fazem as leis no Brasil deixam pautas tão importantes empilhadas? Isso é muito preocupante.”
“A gente tem pressa pelo mais básico, que é a vida”
As apresentações também trouxeram temas sociais, especialmente relacionados às mulheres. A cantora Adriana Defendi destacou o impacto da música criada para o 8 de Março. “Ela consegue falar realmente do cotidiano das mulheres, independente da posição social, raça, cor, credo.”
Andrea Cavalheiro acrescenta a dimensão racial dessa realidade. “No Rio Grande do Sul, negros e negras precisam ser chancelados por uma pessoa branca para poder existir. Eu não preciso ser chancelada para saber que tenho condições de fazer o meu trabalho.”
“Arte, cultura e trabalho são essenciais”
Entre música, teatro e manifestações coletivas, o festival consolidou a presença da cultura como parte das lutas do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora. Para Camila Falcão, do Bloco da Laje, a arte ocupa um papel que articula denúncia e convivência. “A gente vê a importância da arte como um movimento que abraça a coletividade política e social.”

Ao comentar o repertório, ela aponta o conteúdo crítico das produções. “Nossa música nova, ‘Abre esse Olho’, faz uma crítica social à colonização no estado e à forma como grandes empresários escravizam pessoas.”

Para a artista, a relação entre trabalho e cultura também passa pelo direito ao tempo livre. “Arte, cultura e trabalho são essenciais para que possamos ter momentos de lazer além de trabalhar incessantemente.”

