Nas placas das lanchonetes dos estádios da Copa do Mundo 2026, que está tendo sede tripla — México, Canadá e Estados Unidos —, há algumas coisas em comum: lanches rápidos, alimentos ultraprocessados, bebidas alcoólicas e preços exorbitantes. Uma cerveja pode chegar a R$ 80 e sanduíches no estilo fast food são vendidos a R$ 160.
O cenário mostra que o padrão Fifa atende ao “modo de vida americano” e desrespeita o acordo feito entre a entidade esportiva e a Organização Mundial da Saúde (OMS) na Copa de 2022, que deveria estar valendo até agora, quando fez um monitoramento dos cardápios dos estádios e exigiu a colocação de recomendações e alertas.
Em entrevista ao Conversa Bem Vivero engenheiro agrônomo José Graziano, ex-ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, afirma que a falta de alternativas obriga as pessoas a levarem alimentos de casa e explica em que consistia o acordo firmado na competição passada.
“Ao comprarem as coisas nos estádios e nos arredores, as pessoas tinham sempre presentes um cartaz, um alerta, um vídeo, dizendo das possibilidades da sua escolha, do que comer e do que beber. Hoje nada disso está valendo. Embora o acordo tenha sido prorrogado e ele continue válido nessa Copa 2026, ele não está sendo respeitado. Não está sendo fiscalizado, não há nenhuma intervenção do governo dos Estados Unidos para fazer respeitar esse acordo. De modo que os torcedores estão à mercê das propagandas”, avalia.
Embora pondere que não é possível comparar a COP30 à Copa do Mundo no sentido de tamanho de evento, Graziano lembra que, na edição da Conferência Climática realizada no Brasil no ano passado, houve a montagem de um restaurante que oferecia comida local.
“Esse restaurante servia comida das proximidades, do local, e isso valeu durante todo o período de preparação e da negociação da COP. As pessoas podiam optar em comer nesse restaurante, que oferecia produtos da Amazônia, basicamente produzidos por agricultores familiares da região. Foi um esforço do Brasil de mostrar que era possível estabelecer circuitos curtos e uma alimentação saudável, mesmo em grandes eventos, mesmo em condições difíceis”, explica.
José Graziano também alerta para mudanças potenciais nos hábitos alimentares, já que as pessoas que participarão da Copa do Mundo até o final terão ficado mais de um mês nos países-sede, submetidas a essa alimentação. “É tempo suficiente para formar um hábito alimentar, para mudança de gostos e percepção dos alimentos. Ou seja, essas pessoas, quando voltarem aos seus países de origem, vão trazer esse desejo de continuar comendo e bebendo o que comeram e beberam durante a Copa”, pontua.
O ex-ministro também problematiza que os alimentos de fast food, majoritariamente oferecidos no Mundial da Fifa, têm ligação direta com a obesidade e destaca que o Brasil é um dos países que lideram o ranking de obesidade entre crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos de idade.
“O governo brasileiro tem se esforçado em criar todo um protocolo de ações de combate à obesidade e criar ambientes livres de produtos ultraprocessados. Nas escolas primárias, por exemplo, que é onde se forma o gosto, o paladar das crianças por meio da merenda escolar. Mais de 50 milhões de crianças recebem todo dia uma merenda gratuita na escola, e essa merenda tem que ter hoje pelo menos 45% de produtos comprados localmente da agricultura familiar, ou seja, produtos frescos, não processados. Isso é um passo muito importante para combater essa epidemia de obesidade que estamos vendo entre as nossas crianças”, avalia.
“O problema é que, em momentos de festividade, de celebração, você não tem esse controle, esse alerta.”

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