Filme ‘Vitória Régia’ imagina um Brasil no qual o golpe de 8 de janeiro aconteceu

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E se o golpe de 8 de janeiro de 2023 tivesse sido bem-sucedido, em que se transformaria o Brasil? Essa é a premissa do curta-metragem “Vitória Régia”, disponível gratuitamente no YouTube.

Lançado em abril deste ano, o filme traz a saga da jornalista Carolina (Alice Braga), que fura um bloqueio em uma Amazônia ocupada e controlada pelos Estados Unidos após o golpe ter dado certo para tentar mostrar o cenário de devastação e a resistência indígena a esse estado de coisas.

Ao Entrevista com BdFo diretor criativo Pedro Inoue afirma que o exercício de imaginar um Brasil distópico diante da realidade atual foi bastante difícil. Além disso, ele conta que o protagonismo da causa indígena se dá por diversas razões, entre elas, o fato de que o curta surge de uma iniciativa em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib).

“Quando a gente estava escrevendo o filme, a gente tentava fugir da realidade, mas a realidade nunca foge de você. A gente até brincava que estava meio que competindo com a realidade, de uma certa maneira pensar num futuro, uma realidade paralela, mais ou menos, que está nisso próximo. Mas, ao mesmo tempo, é muito engraçado, porque, como a Amazônia é um território de disputa, muitas vertentes, muitos governos, principalmente a extrema direita, olham como se fosse uma coisa que só dá para a gente tirar e que os povos indígenas não devem estar incluídos nessa conversa. É colocar a Amazônia explorada por esses interesses norte-americanos, petrolíferos e tudo mais”, avalia.

Inoue se diz temerário com relação à disputa eleitoral deste ano entre Lula e Flávio Bolsonaro e avalia que, diferente de 2022, atualmente o campo progressista está mais desorganizado e o povo, em geral, está mais desmotivado a ir votar. Ele também critica a falta de debate sobre a formação conservadora do Congresso Nacional, com destaque para o Senado. “Em 2022, a gente estava muito mais organizado, a gente tinha um inimigo; a gente está desorganizado e me preocupa muito o Senado. Nunca discutimos o Senado. Eu acho que talvez a hashtag “Congresso Inimigo do Povo” do ano passado, de uma certa maneira, trouxe um pouco esse papo para a gente olhar para o Congresso, mas eu sigo com medo, porque realmente a gente está falando de um Bolsonaro e Lula de novo. As pessoas não estão motivadas para votar de novo. Se Flávio ganha, ele vai entregar a Amazônia para os Estados Unidos, ele vai ir atrás de uma continuação do que o governo Bolsonaro tinha feito”, argumenta.

Pedro Inoue também analisa a apropriação e uso eficiente das redes sociais pela extrema direita e como o campo progressista, em seus mais diversos temas de interesse, não consegue o engajamento desejado. Para exemplificar, ele usa a pauta socioambiental. “Eles insistem no caminho informativo, de explicar o que é crise climática. Pelas informações, eles acreditam que, se eu explicar pra você e você entender, você vai vir pro nosso lado, quando, na verdade, a gente está falando de pertencimento, a gente está falando de emoção, a gente está falando de coisas muito mais profundas. Então, o que eu sinto, de uma certa maneira, é que a gente não está entendendo muito também um pouco dessa coisa das paixões também”, explica.

O diretor cita a renomada autora e jornalista Naomi Klein para falar sobre os teóricos da conspiração. “O cara da teoria da conspiração está com a informação completamente errada. Completamente. Terra plana, pouso à lua que não existiu e tudo mais. Mas o sentimento está certo. Você não confiar num sistema que todo ano se reúne entre os maiores bilionários e pessoas ricas do mundo, num lugar que não é público. O sentimento está certo. Você tem um sentimento de que as coisas não funcionam para você”, avalia Inoue.

Para ouvir e assistir

Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

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