Fim da Escala 6×1: 4 horas a menos de trabalho ou 4 horas a mais de descanso?

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Por Elvis Rezende Messias

Fim da escala 6×1: até agora, foram necessários 83 anos para a classe trabalhadora tentar conquistar 1 dia. Mas há muito mais coisas em jogo nesta luta, inclusive porque deixar de trabalhar menos 4 horas não significa, necessariamente, ganhar 4 horas a mais de descanso.

Em 1943, a CLT estabeleceu uma carga horária semanal de 48 horas. Isso significava exatos 6 dias de trabalho por semana, com duração de 8 horas trabalhadas a cada dia. Em 1988, ou seja, 45 anos depois, a Constituição Federal estabeleceu uma carga horária semanal de 44 horas. Isso significava exatos 5 dias de 8 horas de trabalho cada um, mais 1 dia de 4 horas trabalhadas.

Era uma escala, na matemática, de 5,5×1,5. Mas, na prática, uma escala ainda 6×1, já que a pessoa trabalhadora precisa sair de casa e encarar toda sua rotina e logística laborais por seis dias.

Agora, mais de 38 anos depois, a mesma Constituição Federal, se houver aprovação do atual Senado, por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), pode estabelecer uma carga horária semanal de 40 horas. Se for realmente aprovado, isso significa exatos 5 dias de trabalho, com duração de 8 horas trabalhadas a cada dia, e 2 dias completos de repouso remunerado.

Na prática, saem da jornada semanal aquelas 4 horas de trabalho aplicadas ao sexto dia. Para muita gente, vai significar o fim daquele famoso meio período no sábado.

Até aqui, foram 83 longos anos de muito debate e de combate às  teorias conspiratórias para que trabalhadores do Brasil conquistem um dia a mais de folga durante a semana; 83 anos para que sua jornada semanal passe de 48 para 40 horas. 83 anos!

Considerando que cada dia tem 24 horas e que cada ano tem 8.766 horas, trabalhadores brasileiros levarão aproximadamente 727.578 horas (83 anos) para conquistarem 8 horas a menos.

Isso mostra, a seu modo, como a realidade é cruel e como que os ciclos de debates sobre alguma melhoria na vida do povo trabalhador são lentos e melindrosos em nosso país.

A elite empresarial e política brasileira é muito marcada por uma mentalidade colonizadora; a exploração ainda é o tom secreto das ressalvas que permeiam as discussões laborais nesse país. Praticamente, a carga horária laboral diminuiu 4 horas a cada ciclo de 40 anos, e sempre que essas discussões entraram em pauta não faltaram argumentos para dizer que a redução da carga horária de trabalho iria quebrar o Brasil, que seria a legalização da vagabundagem ou coisa do tipo.

A verdade é que, vivendo numa “sociedade do cansaço” e do desempenho constante (Byung-Chul Han), que nos impõe o tempo todo a retórica da positividade produtivista e a pressão empreendedorista, essas 4 horas de redução não têm praticamente a mínima chance de descansar ninguém.

O capitalismo é cruel, não permite descanso, e estamos profundamente “educados/adestrados” na sua “mercado-lógica”.

Se não cuidarmos de nossa consciência crítica e de nossa saúde mental, seguiremos nos cobrando absurdamente por produtividade, seremos os patrões e mesmo os colonizadores de nós mesmos – além da existência externa dessas figuras –, sem saber como nos desligar um pouco, sem saber como descansar, porque o competitivismo desumano capitalista/neoliberal/recolonial segue nos instigando não somente de fora para dentro, mas também a partir de dentro.

Inseridos nessa lógica social extenuante, temos trabalhado muito mais que as cargas horárias oficiais de nossos contratos de trabalho, nos consumindo por dentro.

Sim, a redução da carga horária semanal é urgentemente necessária! Sim, não adiemos mais o fim da escala 6×1! E, com ela, também se faz necessário aprendermos a descansar, desenvolvermos uma consistente cultura do autocuidado, da saúde mental, da sabedoria regeneradora, da contemplação, do convívio presencial, com menos virtualização e um maior domínio equilibrado da cultura digital.

Então, é preciso que cada um se pergunte: como vou lidar com essas 4 horas? Como elas realmente me auxiliarão para ter uma vida com mais qualidade integral? O que preciso fazer para que elas não se diluam na insignificância prática e não se percam no emaranhado de um ativismo interior e exterior que, mesmo em dias de folga, não me permite descansar? O que realmente importa ser valorizado nesse contexto?

Enfim, o que serão dessas 4 horas a menos e desse novo dia de repouso laboral remunerado no todo de minha vida e no todo da realidade social em que vivemos? Sabemos descansar? Sabemos desacelerar?

É importante dar importância ao que mais importa, mas cientes de que, às vezes, o que mais importa é o que parece menos importar. Temos aí uma importante pista reflexiva e prática: dar importância ao que nossa capitalista sociedade do cansaço, do desempenho e da positividade produtivista considera desimportante!

Não é fácil, exige pedir ajuda e desenvolver novos aprendizados, mas é fundamentalmente importante dar importância para as “desimportâncias”.

Pouco ajuda um dia a mais sem a necessária companhia de uma sabedoria a mais. Afinal, somos seres laborais e repousantes, mas também somos seres pensantes. É importante religar os saberes. Sem isso, 40 horas semanais de trabalho são tão extenuantes quanto 44 horas!

Elvis Rezende Messias é filósofo, teólogo e doutor em Educação. Docente do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), Campus Patos de Minas

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não expressa necessariamente a linha editorial do jornal.

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