A irreverência, alegria e luta popular ganharam mais força em Salvador nesta segunda-feira (16) com a tradicional Mudança do Garcia. A manifestação, que é a mais antiga do Carnaval da Bahia, completa oficialmente 96 anos e reúne gerações que percorrem o Circuito Riachão — do Largo do Garcia até o Campo Grande — no ritmo de blocos percussivos, charangas e minitrios. Para os sindicatos, que também desfilam juntos na festa, este ano a defesa do fim da escala 6×1 e o enfrentamento ao feminicídio são algumas das principais bandeiras de luta que ganham as ruas durante a folia.
A concentração do desfile começou às 9h e a programação deve se estender ao longo do dia. Neste ano, a manifestação traz o respeito como mensagem central. “Respeito à Mudança, respeito às pessoas e respeito ao povo que faz o Carnaval acontecer”, descreve o perfil oficial do movimento nas redes sociais.
Trabalho digno e proteção à vida
Os sindicatos são uma das principais organizações que constroem a manifestação. Para Leninha Valente, presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT-BA), a Mudança do Garcia é um espaço histórico da luta popular.
“A Mudança do Garcia nunca foi apenas um bloco. Ela é espaço de crítica social, de irreverência política e de afirmação democrática. Ao longo de sua história, foi onde o povo disse o que pensa, cobrou mudanças e denunciou injustiças”, destaca a dirigente.
“Para nós, da CUT Bahia, essa tradição é fundamental. Mostra que a alegria não é alienação. A festa pode ser, e sempre foi, instrumento de consciência e mobilização popular”, completa.
Neste ano, a presidente elenca que a valorização do salário, defesa dos serviços públicos, combate à precarização, fortalecimento da democracia e igualdade de direitos são pautas importantes para serem defendidas. No entanto, a bandeira central da CUT Bahia é a defesa da redução da jornada de trabalho, sem redução de salário, o que tem sido chamado de fim da escala 6×1.
“O modelo 6×1, em que o trabalhador trabalha seis dias e descansa apenas um, é exaustivo e incompatível com a vida digna. Ele compromete a saúde física e mental, prejudica a convivência familiar, limita o acesso à cultura, à educação e ao lazer. Reduzir a jornada sem reduzir salário não é privilégio. É justiça social”, aponta.

Além disso, Valente destaca a luta contra o feminicídio como outra pauta prioritária para o Carnaval, ressaltando a necessidade de desnaturalizar a violência contra as mulheres.
“Reduzir a jornada, fortalecer a política de cuidados, combater o feminicídio e ampliar a participação das mulheres na política são compromissos com um país mais justo. A mensagem que levamos para a rua é clara: trabalho digno, tempo para viver e vida protegida, essa é a luta da classe trabalhadora”, salienta.
Marco Cerami, diretor de Comunicação e Cultura do Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior da Bahia (Apub Sindicato), uma das entidades que se soma ao bloco da CUT na Mudança do Garcia, destaca que os docentes compõem uma das categorias que sempre marcaram presença na manifestação.
“Professoras e professores são naturalmente sujeitos políticos por mexerem com o futuro do país e muitas/os de nós participam ativamente de manifestações e festas tradicionais, para onde levamos nossas preocupações e propostas para o melhoramento das condições de vida e trabalho da categoria, mas também para a situação política e social.”

Para o diretor, a Mudança do Garcia também contribui para fortalecer a classe trabalhadora diante dos desafios do processo eleitoral de 2026.
“Este ano, precisamos eleger candidatas e candidatos do campo progressista e, em particular, do campo trabalhista e sindicalista, frente ao avanço recente da extrema direita. Precisamos construir o movimento que nos leve a esse resultado já agora nas festas tradicionais”, destaca.
Tradição centenária
Embora a Mudança do Garcia celebre 96 anos em 2026, os primeiros registros do desfile são de um século atrás, em 1926, quando ainda se chamava Arranca-Tocos. Em seguida passou a ser chamado de Faxina do Garcia, mas é o ano de 1930 que marca oficialmente o início do desfile. Na década de 1950, com a urbanização do bairro, o nome Mudança do Garcia se consolida de forma definitiva.
Em 2015, o percurso realizado pelo Mudança do Garcia foi oficializado como circuito Riachão, em homenagem ao sambista que nasceu no bairro em 1921. Em 2024, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) abriu o processo de patrimonialização da Mudança do Garcia, valorizando a memória e o papel histórico da manifestação.

