Maria de Fátima Cardoso anda a passos miúdos e com olhos atentos para o chão. Ainda que conheça esse terreno há 15 de seus 67 anos de idade, onde vive com um gato em uma pequena casa feita de alvenaria e materiais recicláveis, que fazem do imóvel uma colcha de retalhos, ela precisa agora se localizar, reconhecendo restos: um monte de ferragens e tijolos quebrados, um pedaço de colchão, uma rama de melancia que teima em se espalhar no meio de escombros.
Ela caminha no que sobrou da favela do Moinho, uma comunidade na região central de São Paulo, cada vez mais parecida com um cenário de pós-guerra e sob um processo violento de reassentamento que perdura desde outubro de 2024.
“Eu ando bem aqui, me acostumei”, diz Maria de Fátima ao vencer uma das várias montanhas de entulho na comunidade, restos das centenas de casas já demolidas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), empresa pública submetida ao governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).
“Ó, menino, eu já caí aqui várias vezes com esse monte de fio que tem aí. Às vezes, eu chego mais tarde, já está escuro, e eu não enxergo fio no chão, aqueles ferros, sabe? Eu pisava e caía de cara no chão. Foi duro aqui, viu? Não foi fácil aqui, não foi fácil.”
A caminhada, na qual Maria de Fátima guiou a Ponte, ocorreu na tarde da última sexta-feira (3), horas depois de o terreno no qual pisava ter sido cedido pela União ao Estado, em um aperto de mãos com o qual os governos Lula (PT) e Tarcísio deram por concluído “um reassentamento integral e pacífico de todas as famílias” da favela.

No que sobrou da comunidade, no entanto, ainda restavam ao menos nove casas ocupadas naquela data — conforme se caminha pelo terreno, cada uma surge como uma ilha em meio a um mar de entulho e lixo, ainda que, em outubro do ano passado, a Justiça Federal tenha determinado o manejo adequado dos dejetos pela CDHU.
Assim como Maria de Fátima, os outros moradores remanescentes não foram atendidos até aqui pela promessa anunciada em maio do ano passado de que teriam um imóvel gratuito cada um para deixar o Moinho.
O grupo também sequer foi comunicado da conclusão da cessão do terreno, embora servidores da CDHU demonstrem uma insistente presença junto à Polícia Militar (PMESP) no local — o acordo foi selado a mais de dois quilômetros dos escombros da comunidade, com uma cerimônia reservada em um pequeno auditório sem janelas no 22º andar de um prédio da União no bairro da Luz.
“Eu sei que a CDHU infernizou a minha vida. Não só a minha, mas a de muita gente. Eu pensei que ia chegar à loucura, porque eles ficavam pegando no meu pé para eu sair, ficavam no meu pé. Eu falei: ‘Me dá a chave do meu apartamento que eu saio’. Falei logo”, diz Maria de Fátima.
Cessão foi assinada sem que projeto de parque esteja pronto
Da parte do governo Lula, esteve presente na assinatura da cessão a ministra Esther Dweck, da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. Já o governo Tarcísio enviou o secretário Marcelo Branco, à frente da pasta de Desenvolvimento Urbano e Habitação, que cuida da CDHU.
O ministro Guilherme Boulos, que, assim como o presidente Lula, visitou a comunidade no ano passado, enviou apenas um representante da Secretaria-Geral da Presidência, pasta da qual se tornou chefe justamente em meio ao processo de remoção da favela,
Boulos preferiu estar na inauguração de um instituto federal em Cotia, na região metropolitana de São Paulo — por conta do calendário eleitoral, a sexta-feira era o último dia, antes das eleições, para inaugurar obras públicas e para que o terreno do Moinho fosse repassado ao Estado.
O auditório foi preenchido por servidores da CDHU, da Caixa Econômica Federal e de ministérios do governo Lula, que aplaudiram efusivamente a assinatura da cessão. O Estado de São Paulo poderá usar o terreno, a princípio, por 20 anos e terá um prazo de 48 meses para transformá-lo em um parque.

O governo Tarcísio diz que pretende fazer também ali uma estação ferroviária, uma vez que o terreno é margeado por trilhos pelos quais passam trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
Em entrevista coletiva após a assinatura, contudo, o secretário Marcelo Branco assumiu que o projeto do parque sequer está pronto e que não há previsão para o início das supostas obras. Também não há definição se o centro de memória do Moinho, reivindicado pelos antigos moradores para preservar a história da comunidade, será construído no local.
“Como há uma concessão das linhas do trem, nós precisamos ainda desenhar a estação que será feita e, a partir disso, desenhar o parque também. Então, é um projeto que, do ponto de vista técnico, de engenharia, está se iniciando”, justificou, afirmando ainda que a prioridade é desocupar o terreno.
Moradora culpa Caixa por demora em saída da comunidade
A Ponte esteve na favela logo após ter acompanhado a assinatura. A reportagem circulou por todo o terreno junto de Maria de Fátima e também de Alexsandra Aparecida, outra moradora remanescente da comunidade e representante da Associação de Moradores do Moinho.
Alexsandra, 47, já pôde assinar a aquisição de uma nova moradia, mas ainda não conseguiu se mudar. Ela escolheu uma casa em Itanhaém, município no litoral paulista, devido aos altos valores do mercado imobiliário no Centro da capital — a promessa de reassentamento se limitou à compra assistida pelo programa “Minha Casa, Minha Vida” de imóveis de até R$ 250 mil.

A visita à casa escolhida por ela ocorreu em outubro do ano passado, mas a Caixa só concluiu a compra ao final de março deste ano. Quando voltou ao imóvel, Alexsandra descobriu que ele já não estava como havia visto antes: tinha trincas nas paredes e em itens de acabamento, como portas e pias, além de não ter fornecimento de água.
Ela diz ter questionado o banco, responsável pela demora na conclusão do processo e por vistoriar o imóvel, mas recebeu o retorno de que deveria lidar diretamente com a construtora que ergueu a casa. Alexsandra aguarda agora, junto do marido e de três cachorros, que sejam feitos reparos para tornar a nova moradia ao menos habitável.
À Ponte, a Caixa comunicou, em nota, que as condições da casa atendiam aos requisitos exigidos no momento da vistoria, em dezembro do ano passado. “Nos termos do instrumento contratual da operação, eventuais vícios, anomalias ou irregularidades do imóvel constituem responsabilidade do vendedor, que declara responder por tais ocorrências”, afirmou.
Alexsandra tenta também se recuperar do baque financeiro da mudança. Embora houvesse a promessa de plena gratuidade, ela teve de arcar com R$ 7,5 mil do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) cobrado pela prefeitura de Itanhaém. “Eu precisei emprestar esse dinheiro. Não tinha muito o que fazer: ou pagava, ou escolhia outra casa e começava o processo tudo de novo.”

Famílias remanescentes sobrevivem sem energia regular e entre escombros
Na caminhada pela comunidade, Alexsandra e Maria de Fátima alertam sobre o risco de choque elétrico a cada trecho, com fios expostos em meio aos escombros. Segundo elas, é apenas uma das consequências de uma atuação negligente da CDHU com as demolições. “Outro dia, eles estavam derrubando uma casa e não paravam, mesmo com a gente pedindo para passar na rua. Aí caiu um tijolão, e quase pegou na nossa cabeça”, diz a mais jovem delas.
O fornecimento de energia depende agora de adaptações, algumas delas feitas pelos próprios moradores, justamente após as demolições terem derrubado as ligações regulares. Foi o que ocorreu com Lourrane Pereira dos Santos, 24, que chegou a passar três dias sem luz e sem água.
“Eu pedi para os andarilhos que aparecem aqui religar, porque eles (da CDHU) não estão nem aí”, diz ela, sobre ter pedido ajuda de catadores que vão à favela revirar materiais recicláveis nos entulhos.
Lourrane sobrevive na comunidade junto do marido e de duas crianças, um menino de quatro anos e um bebê de oito meses. Enquanto a Ponte conversava com a mãe, o mais velho dos garotos olhava pela janela do andar de cima da pequena casa de alvenaria, sem poder sair para brincar.
“Agora está tendo muito escorpião, então eu nem deixo ele sair”, explica Lourrane, preocupada também com os ratos que frequentemente surgem em meio aos escombros.
Ela diz que a família ainda não deixou a favela do Moinho porque a CDHU ofereceu até aqui apenas um auxílio-aluguel de R$ 1,2 mil mensais por um ano. A garantia do imóvel gratuito não veio: “Falaram para mim procurar um aluguel e depois resolver essa situação da compra”.
À Ponte, a CDHU comunicou ter cedido uma carta de crédito para Lourrane proceder com a escolha de um imóvel. “Para concretizar a transação, está em fase final de apresentação de documentos”, afirmou.

Já Manoel Severino dos Santos, 53, diz que não recebeu sequer a garantia do auxílio-aluguel para deixar a comunidade, na qual vive há mais de 20 anos. A CDHU teria oferecido até aqui apenas a opção de compra de um imóvel com financiamento subsidiado — ou seja, ele teria de pagar.
Um dos requisitos para a aquisição gratuita é ter renda familiar de até R$ 4,7 mil. Segundo Manoel, que trabalha como porteiro, a CDHU o colocou acima desse teto, ao considerar não apenas o seu salário-base, de R$ 2,4 mil, mas também horas extras e benefícios de alimentação e transporte no cálculo da renda. Ele diz não ter condições de arcar com as parcelas de um financiamento. “Querem que eu saia daqui com uma mão na frente e a outra, atrás.”
À Ponte, a CDHU destacou que o teto da renda foi definido pelo governo Lula. Também disse que “auxilia o morador com solução habitacional e garantirá o atendimento”.
Entre os moradores que restaram, é unânime o medo de que a pressão para sair do local cresça agora que a cessão do espaço ao Estado foi concluída — no ano passado, a comunidade viveu vários episódios de repressão policial, com a prisão de lideranças comunitárias e a morte de um jovem. “Se fizeram aquilo sem o terreno ser deles, imagine agora”, diz Alexsandra.
Ministra diz esperar que famílias sejam atendidas ‘o mais rápido possível’
Na cerimônia de assinatura da cessão, no entanto, ao ser questionado pela Ponte, o secretário Marcelo Branco minimizou a possibilidade de o Estado ajuizar uma ação de reintegração de posse, o que abriria margem para uma operação de desocupação por parte da Polícia Militar.
“A nossa vontade é não ter nenhuma ação. Nós não fizemos isso para 950 famílias (que estavam na comunidade). Nós temos pessoas ali com dificuldades de cadastro, algumas questões pontuais que estamos resolvendo em conjunto com o governo federal e a Caixa. O que eu digo para você é o seguinte: essas famílias (remanescentes) não ficarão desassistidas.”
Segundo o governo Lula, 613 famílias já firmaram contratos para a aquisição definitiva dos imóveis prometidos, enquanto outras 100 aguardam apenas a assinatura. Haveria ainda mais 138 à espera de atendimento.

Questionada também pela Ponte sobre quando todos os moradores terão suas casas garantidas, a ministra Esther Dweck limitou-se a dizer que espera que isso ocorra “o mais rápido possível”.
Já o secretário Marcelo Branco atribuiu a demora às próprias famílias. “Nós temos mais de mil imóveis apresentados pela CDHU, temos outros tantos apresentados pela Caixa. E as pessoas estão indo com equipes da CDHU e da Caixa visitar. Queremos dar a elas o tempo que for necessário para que façam uma boa escolha. E até o fato de elas demorarem um pouquinho para escolher é porque sabem que o governo do Estado e o governo federal vão acolhê-las.”
Três dias depois da fala de ambos, Maria de Fátima precisou ir, com a ajuda de Alexsandra, a uma agência da Caixa Econômica Federal, sob a expectativa de que, enfim, assinaria o contrato de sua nova moradia.
Ela deixou o local, no entanto, sem que o negócio fosse formalizado, precisando adiar isso para uma outra data. À Ponte, a Caixa alegou que um bloqueio de acesso à plataforma gov.br impediu a conclusão do contrato, que depende de assinatura eletrônica de Maria de Fátima. Também procurada, a CDHU reforçou que o atendimento da moradora cabe agora ao banco.
Para quem ainda mantém os pés no chão da favela do Moinho, a alegação de que a permanência nos escombros é culpa dos próprios moradores não faz o menor sentido. “Se trouxer a chave do meu apartamento, eu saio daqui na hora”, diz Maria de Fátima.
Leia a íntegra do que diz a Caixa
A CAIXA informa que atua como agente financeiro do Programa Minha Casa, Minha Vida – Compra Assistida, sendo responsável pela análise documental, vistoria dos imóveis e formalização das contratações, observadas as regras e procedimentos estabelecidos para o programa.
Maria de Fátima Cardoso
A operação está em fase final de formalização. O contrato foi emitido e disponibilizado para assinatura, entretanto sua conclusão depende da assinatura eletrônica da proprietária do imóvel. Durante o procedimento de coleta das assinaturas, foi identificado bloqueio de acesso à assinatura eletrônica da vendedora na plataforma GOV.BR, circunstância alheia à atuação da CAIXA. Em razão dessa indisponibilidade, não foi possível concluir a contratação na data inicialmente prevista. O caso está sendo acompanhado pelas equipes responsáveis, sendo que a plataforma informa prazo estimado de até três dias para regularização do acesso.
Alexsandra Aparecida
O imóvel indicado pela beneficiária foi submetido à vistoria técnica da CAIXA, com emissão de laudo em 28/12/2025. Na ocasião, o imóvel atendeu aos requisitos de enquadramento e habitabilidade exigidos pelo programa. A contratação foi formalizada posteriormente, em 23/03/2026.
Dessa forma, eventuais alterações nas condições do imóvel ocorridas após a realização da vistoria não refletem necessariamente a situação constatada pela equipe técnica no momento da avaliação. Até o presente momento, a CAIXA não identificou elementos que permitam atribuir à instituição responsabilidade por eventual deterioração do imóvel após a emissão do laudo técnico.
Ressalta-se, ainda, que a vistoria realizada pela CAIXA tem por objetivo verificar a elegibilidade e as condições do imóvel na data da avaliação. Nos termos do instrumento contratual da operação, eventuais vícios, anomalias ou irregularidades do imóvel constituem responsabilidade do vendedor, que declara responder por tais ocorrências.
A CAIXA segue atuando para assegurar a adequada operacionalização do processo de reassentamento das famílias da Favela do Moinho, em conformidade com as normas e diretrizes aplicáveis ao Programa Minha Casa, Minha Vida – Compra Assistida.
Leia a íntegra do que diz a CDHU
A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) informa que a sra. Lourrane e o sr. Manoel Severino optaram por atendimento por meio de cartas de crédito emitidas pela Companhia, que já tiveram os recursos liberados. Para concretizar a transação, está em fase final de apresentação de documentos. O sr. Manoel Severino dos Santos foi enquadrado com renda superior pelo Ministério das Cidades, de acordo com critérios apresentados pelo próprio Governo Federal. A CDHU auxilia o morador com solução habitacional e garantirá o atendimento.
A sra. Maria de Fátima está sendo atendida pela Caixa Econômica Federal, como retrata a própria reportagem da Ponte.
Em todos os casos, foi ofertado auxílio moradia enquanto as transações não se encerram.

