Em discurso em evento de banco privado nesta terça-feira (10), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apontou a necessidade de um “sistema regulatório mais robusto” para conter fraudes como a do Banco Master e sinalizou uma possível “reformulação estrutural” dos gastos sociais, incluindo o Bolsa Família.
Para o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fatoa alegação de fragilidade regulatória não se sustenta diante do caso Master. “Me estranha essa afirmação do ministro”, diz, atribuindo o escândalo à “negligência” do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto.
O professor lembrou que alertas sobre operações atípicas do banco foram publicados até na imprensa, como uma extensa reportagem da revista Piauí em outubro de 2024. “O problema é que, principalmente durante a gestão Campos Neto, o Banco Central, aparentemente, não quis resolver. Quando quis, resolveu rapidamente”, afirma.
Oreiro considera que a postura do BC poderia ter motivação ideológica. “Campos Neto defendia que o espalhar bancário alto vinha da concentração do setor e que era preciso estimular a concorrência, o crescimento de bancos como o Master. Pode ser que ele simplesmente achasse que não havia problema”. O economista usou uma analogia médica para criticar a inação do regulador: bancos que pagam acima da taxa de mercado (CDI) para captar recursos apresentam um “sintoma claro” de problemas de liquidez. “O BC deveria ter olhado com mais cuidado e simplesmente não o fez”, diz.
Bolsa Família e gastos sociais
Ao comentar a fala de Haddad sobre a “reformulação” de gastos sociais para ajuste fiscal, Oreiro avalia que o problema não está nos programas sociais, mas na regra fiscal “insustentável” e “irrealista” criada pelo próprio governo em 2023. “O arcabouço define metas para o resultado primário e para o crescimento das despesas que não podem ser cumpridas simultaneamente”, explica.
Sobre a sugestão de unificar benefícios em uma renda básica, o economista defende o modelo atual do Bolsa Família. “A renda básica é universal e incondicional. Custa muito caro e perde o foco nas pessoas que mais precisam”, aponta.
O programa atual, segundo ele, tem um mecanismo de saída via educação. “A ideia era: os pais que recebem podem ter oportunidades limitadas, mas seus filhos, com estudo, vão se inserir no mercado de trabalho. E os estudos mostram que está funcionando, muita gente está saindo do programa”, destaca.
Por fim, ao comentar a inflação de fevereiro, pressionada pelos combustíveis, Oreiro atribui a lentidão no repasse dos cortes aos postos a uma falta de concorrência no setor. “Isso é um sintoma claro de um setor que não é competitivo, é um oligopólio”.
Ele vincula o problema à privatização da BR Distribuidora no governo Bolsonaro. “Enquanto a BR era estatal, você poderia, por meio dos postos da estatal, forçar a queda do preço na bomba”, diz.
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