‘Grândola mantém-se viva pela reinterpretação, não só em Portugal, mas pelo mundo’, diz sobrinho de José Afonso, autor do hino da Revolução dos Cravos

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Em 25 de abril de 1974 teve início a Revolução dos Cravos em Portugal. O momento histórico para o povo português, que derrubou o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar.

Este processo é lembrado em todo o mundo, até os dias de hoje, pela canção “Grândola Vila Morena” de autoria de José Afonso, ou Zeca Afonso.

Para lembrar este momento e falar do legado do cantor português, o programa Conversa Bem Viver convidou João Afonso, compositor e sobrinho do autor do hino da Revolução dos Cravos.

Durante a conversa, João contou a história de como a música, que segue sendo um símbolo de resistência, foi eleita como senha no processo da revolução. “Meu tio não teve tempo, morreu muito novo, para ter a noção da importância que a senha da “Grândola Vila Morena” veio a ser para o mundo, porque se cantava por todo lado, como símbolo de liberdade de expressão e liberdade individual das pessoas”’, completou João.

Ele destaca ainda, que a música segue sendo muito simbólica para o povo português. “É uma canção que é muito cantada neste período de abril, nas festas, nas romarias, nas cidades, nas aldeias, quando se comemora o dia da Revolução de 25 de abril.’.

Leia a entrevista

Brasil de Fato: Como era a sua relação com o teu tio José Afonso? E o que você se lembra desse momento tão conturbado da história portuguesa?

João Afonso: Eu nasci em Moçambique e tive pequenos encontros com o meu tio, porque meu tio foi muitas vezes a Moçambique, que era uma colônia portuguesa.

Um momento marcante, eu era muito miúdo, por isso só tenho umas recordações diluídas, mas recordo um dia, quando o meu tio estava na casa dos meus pais, e vieram dois homens vestidos de cinzento e o levaram para o aeroporto. Eles eram dois homens da  polícia secreta do do regime.

Agora uma coisa sou eu como cantor e músico do José Afonso, porque eu tenho uma admiração enorme. Tenho sempre de pensar de que forma que eu posso responder quando perguntam qual é o legado que ele me deixou.

Eu posso deixar de dizer que a obra dele é uma esteira, um exemplo como compositor, como cantor, como intérprete. A obra de José Afonso foi marcante.

Agora, como sobrinho, tive a sorte e a felicidade de ter tido momentos muito especiais, de uma certa intimidade e guardo por esses momentos uma ternura muito grande. Durante os últimos anos na doença do meu tio, ele era uma pessoa com muito senso de humor e eu tenho memórias muito íntimas e de coisas muito pessoais, e essas são as coisas que me marcaram como exemplo. 

Era uma pessoa bastante tolerante e eu dou sempre um exemplo disso. No período pós-25 de abril, onde houve o chamado período quente do preconceito, houve uma certa violência e hoje sabemos mais sobre a história recente do que sabíamos. E o meu tio vivia em Azeitão e houve um vizinho que tentou atropelá-lo, houve ali um incidente qualquer. E José Afonso pôs um processo no tribunal contra o vizinho e ele pediu desculpa. E, às vésperas de ir a tribunal, o meu tio retirou a queixa. Ele era uma pessoa de um sentido humano enorme, mais do que tudo, com uma enorme cultura muito humanista, fundamentalmente humanista. 

Como a composição do Zeca Afonso, a “Grândola, Vila Morena”, foi escolhida como o hino de uma revolução, como foi esse processo?

Fui como curioso (procurar informações), não só como sobrinho, mas como cantor, soube que houve uma reunião em que decidiram escolher a senha, porque havia uma senha pela rádio. A primeira senha, um tema lindíssimo “E Depois do adeus”. E a seguir é que foi a Grândola. Não seria a Grândola, mas uma das razões, é  que a letra é bastante simbólica.

Curiosamente, meses antes do 25 de abril, houve um grande concerto no Coliseu dos Recreios, onde estavam muitos cantores representados e presentes. Outros estavam exilados na França, como o Zé Mário Branco, acho que o Sérgio Godinho também.

E a censura da Pide (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) lia o alinhamento para o título das canções, e curiosamente a Grândola não foi reprovada e foi cantada no final deste concerto e, por isso, teve um impacto tão grande que também influenciou a escolha da Grândola para senha da revolução.

Meu tio não teve tempo, morreu muito novo, para ter a noção da importância que a senha da “Grândola Vila Morena” veio a ser para o mundo, porque se cantava por todo lado, como símbolo de liberdade de expressão e liberdade individual das pessoas. 

E até hoje a música tem essa conotação, essa referência? Ainda é uma música que toca nas rádios, as pessoas ainda reconhecem como esse símbolo da revolução? 

Sim, como músico acho que é um tema muito forte,  agora musicalmente não é das mais interessante musicalmente. Simbolicamente, é uma canção que é muito cantada neste período de abril, nas festas, nas romarias, nas cidades, nas aldeias, quando se comemora o dia do da Revolução de 25 de abril.

E acho que há um reconhecimento transversal de toda a população em relação a essa canção, mas, aos poucos, também em relação à obra musical de José Afonso.

Pelo fato de José Afonso ser muito conotado com a Grândola, por uma parte da população, ele deixou de ser admirado e estimado pela sua obra cultural e musical e hoje em dia não, acho que  a população o admira. Eu vi um projeto em violoncelo com músicas do José Afonso.

E a Grândola mantém-se viva pela reinterpretação, não só em Portugal, mas pelo mundo afora. Acho que é o Charlie Haden tem uma versão do Grândola e, por vezes, eu encontro, muitas vezes na na internet, olhares para para a Grândola que são muito interessantes, não só coros, mas visões diferentes sobre essa música.

Recentemente houve eleições para o presidente em Portugal que teve a vitória do socialista António José Seguro em relação a André Ventura, um líder da extrema direita. A música Grândola, de alguma maneira, esteve presente nesse momento?

Creio que não, porque eu acho que o presidente agora eleito foi um candidato que foi corrido pelo próprio partido, portanto, havia ali uma certa posição de independência do candidato António Seguro que foi eleito. Eu acho que a Grândola esteve bastante à parte, porque, de fato, a Grândola é do povo português e não é de nenhum partido. 

Atravessamos tempos tão complicados e acho que um presidente que rema a favor de defender a autonomia portuguesa e contra as iniciativas globalistas mundiais, acho que a minha esperança é que o novo presidente tenha esse papel.

O risco de uma guerra global é difícil de acreditar, porque é perigosa, por isso, acho que o presidente neste momento tem tentado, de certa maneira, unir o povo português. 

Pensando na questão do legado do seu tio, o senhor se sentiu, de alguma forma, obrigado a seguir essa profissão de músico, tocando para frente o legado do seu tio ou não necessariamente, o senhor sente que tem o seu próprio caminho?

Pelo contrário, eu acho que não senti obrigação nenhuma. Eu tenho muito prazer, gosto de cantar e compor.

Quando eu comecei a cantar, por vezes, esperam de mim, por ter alguma semelhança tímbrica na voz e às vezes reagirem emocionalmente em torno de mim, e eu comecei a a cantar profissionalmente e ao vivo canções do meu tio, porque tenho muito gosto e um prazer enorme, me honra de cantar as canções dele.

Mas a certa altura, até esse fato pôs em causa a minha continuidade como cantor, como músico, porque as pessoas me queriam por ser sobrinho de quem sou e pensei, nessa altura, e não querem ouvir as minhas coisas.

Foram dois fatos que contribuíram para continuar. Primeiro, por gostar muito de cantar e gostar de criar. E outra, alguma irresponsabilidade pelo peso da responsabilidade, tive que ter alguma irresponsabilidade para poder continuar e depois assumir que o meu tio talvez gostasse de eu continuar a cantar. Lembrando sempre do seu sentido de justiça e de humor.

Ele  se preocupava muito com a vida dos músicos, com a vida precária da desta profissão de ser músico,  por isso continuei.

Por outro lado, o fato de ser sobrinho deste enorme compositor e cantor que também arrasta consigo um papel interventivo na sociedade, tem me feito tomar uma posição bastante firme de que não se aproveitem de mim, não se aproveitarem do meu nome, para não se aproveitarem do meu tio em relação em questões políticas, e eu, muitas vezes, fui não alinhado por causa disso, para defender o nome do meu tio.

Depois comecei a fazer as minhas canções e sinto uma alegria e uma energia muito grande em cantar. Estou a preparar um concerto, correspondente ao meu novo trabalho, e agarrei um (trabalho) inédito do meu tio que gravei com a banda estamos a cantá-la, portanto, voltei a ter muito prazer em cantar o meu tio, que era, para além de tudo, uma pessoa por quem eu tenho uma enorme admiração pelo seu dom mágico de cantar, de compor, de criar e com um  lado grande humanista.

Tem influência da música brasileira no teu trabalho e na música portuguesa de forma geral, como é essa relação? 

Olha, sempre World Music em geral é música que ouço muito, a música clássica, a música erudita também é uma música que me influencia muito.

A música portuguesa, para além do meu tio, Fausto, Sérgio Godinho, o Vitorino e estou sempre muito curioso a ver o que está a acontecer em Portugal, os novos músicos. Sigo o trabalho do Amaro, Samuel Úria, tudo que surge em Portugal eu gosto de ouvir.

Da música brasileira, tenho um grande um grande amigo que é o João Lucas, com quem eu tive dois discos, O “Outra Vida” foi produzido por ele, e “Redondo Vocado”, que é um disco só com canções do meu tio

Ele agora foi viver para o Brasil, e já é a  quarta vez que estou para ir ao Brasil para cantar e, de última hora, não acontece e eu tenho uma mágoa muito grande de não ir.

Para mim a voz do Brasil é o Milton Nascimento. Agora, as obras do Chico Buarque, do Caetano Veloso são marcantes, desde adolescente ouço bastante a obra dos músicos brasileiros.

Uma pequena vaidade minha é que, há uns 10 anos, o Chico Buarque veio cantar ao Coliseu e telefonaram-me para perguntar-me se eu queria jogar à bola, jogar futebol com Chico e com os músicos dele e ofereci-lhe um disco meu e ofereci um disco do meu tio, creio que era o “Cantigas do Maio”. Só que ele nunca me respondeu  mas lembro de estávamos os dois no meio-campo de a equipe da produção do Chico disse para ter cuidado só para não dar nenhuma cacetada porque ele ainda iria cantar, e eu joguei normalmente, com todo respeito, pelo Chico. Chico tem um jeito para a bola incrível.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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