‘Guerra às drogas’ serve como pretexto para empilhar corpos na periferia, critica pesquisador

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O relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã” mostra que oito em cada dez pessoas mortas pela polícia no ano passado eram negras. Desse percentual, cerca de 65% eram jovens de até 29 anos e, nesse grupo, 312 pessoas de 0 a 17 anos estão entre os mortos.

Jonas Pacheco, que faz parte da Rede de Observatórios de Segurança, explica que o relatório chegou à sétima edição e revela, mais uma vez, como o racismo estrutural opera na segurança pública. “Ele revela a face seletiva, racial e etária das mortes provocadas pela polícia”, destaca em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.

Pacheco destaca que a política que escolhe o enfrentamento e tem sido letal para a população periférica é, muitas vezes, justificada pela “guerra às drogas”. Nesse sentido, o pesquisador lembra da maior chacina da história do país, nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que deixou 120 mortos. “O que a gente percebe é que esse tipo de ação não enfraquece as facções. Se a gente for pensar, o consumo da droga se dá nas regiões de classe média alta. E a gente não vê o uso da força nessas regiões. O uso da força exacerbada é sempre centrado em regiões com maior concentração de jovens, pobres, negros. Então, por mais que exista esse discurso, o resultado é o empilhamento de corpos e você não enfraquece essas facções criminosas”, critica.

Jonas Pacheco vincula a exacerbação desta política de segurança pública ao campo da extrema direita. “As mortes provocadas pela polícia têm uma sensibilidade muito grande ao discurso adotado pelos governos. Em São Paulo, a gente viu que, com a implementação do Olho Vivo, que são as câmeras corporais nas fardas, houve pouco mais de 400 mortes. Quando houve uma mudança nessa política, São Paulo atingiu 834 mortes em 2025. É um estado que hoje vive esse aumento dos dados de letalidade”, explica.

Outro grande elemento para que a violência continue crescendo é a incapacidade dos governos estaduais, de forma geral, de lidarem com as organizações criminosas, sejam ligadas ao tráfico ou às milícias. “A gente vê que o PCC e o CV estão expandindo muito o domínio territorial para outros estados, principalmente Norte e Nordeste. São locais onde há brigas por causa de rotas de drogas”, pontua. “É claro que o discurso do ‘bandido bom é bandido morto’ tem um viés eleitoral positivo para certos grupos. O que a gente vê é uma incapacidade das políticas públicas implementadas no Brasil em dar conta desses grupos criminosos, incluindo a diversificação das atividades criminosas que hoje tem braços no sistema financeiro.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

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